sexta-feira, 30 de outubro de 2026
OPINIÃO

Todos os grupos políticos goianos estão rachados e premiam infiéis

Daniel, Luis Cesar, Marconi e Wilder são esquecidos pelos candidatos a deputado, que fazem campanha apenas para si mesmos, atingindo também os pretendentes ao Senado, novos participantes do salve-se quem puder, cuja maior vítima é Caiado – nem os aliados pedem voto para presidente

Nilson Gomespor em
goianos
A campanha eleitoral na internet e nas ruas é um verdadeiro samba do candidato doido. Doido por poder, esclareça-se. Fazem tudo para chegar lá. Sobretudo, traem - Daniel, Marconi, Wilder, Luis Cesar - Fotos Hegon Correa e Marcos Souza, Divulgação PSDB, Edilson Rodrigues Agência Senado e Marcos Kennedy Alego

Uma das centenas de praias lindíssimas da Paraíba é na Baía da Traição. Para cada grão de areia dali há uma infidelidade aqui, no interior do Brasil. Na política, principalmente, pois os grupos estão rachados e ninguém escapa. A campanha eleitoral na internet e nas ruas é um verdadeiro samba do candidato doido. Doido por poder, esclareça-se. Fazem tudo para chegar lá. Sobretudo, traem. No caso de Goiás, enganar os aliados virou normal, pratica-se a facada nas costas na maior cara limpa. Observe as windbanners, que empesteiam os canteiros das avenidas. Veja se os candidatos a deputado colocaram a foto do seu colega de partido que é candidato a governador. Não, você não vai ver: o salve-se quem puder é a regra.

O HOJE apurou que os sitrus, aqueles adesivos perfurados que cabos eleitorais colam no vidro traseiro do veículo, só têm a foto de quem paga. Esclareça-se, novamente: quem paga o próprio material e, na maioria dos casos, o combustível, o aluguel do carro e o salário do motorista. Como o custo é acessível, o traíra prefere bancar a despesa a dividir o espaço com os majoritários, que pela primeira vez enfrentam a divisão interna em todos os partidos.

Goiás tem três candidatos a cargos majoritários federais, sendo dois a presidente da República, o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) e Pablo Marçal (PRTB), que tem o 3º, seu vice, Leonardo Avalanche. Em teoria, Caiado tem mais de 300 candidatos a deputado, 200 prefeitos, 500 ex-prefeitos, 2 mil vereadores atuais e ex, 500 primeiras-damas de agora e ex, mil secretários municipais. E sua campanha é do tamanho da de Pablo Marçal. Se a Baía da Traição fosse no laguinho do Parque Vaca Brava, estaria cercada de windbanners com um 55 bem grande, pois é o número de Caiado nas urnas.

As 5.500 lideranças só citam Caiado quando ele ou Gracinha está por perto

As 5.500 lideranças que deveriam honrar o nome do ex-governador só o citam quando está por perto ele ou sua mulher, Gracinha Caiado (União Brasil). O grupo caiadista tem ainda o governador-tampão Daniel Vilela e cinco senatoriáveis: Gracinha, Zacharias Calil (MDB), Gustavo Gayer (PL), Gustavo Mendanha (PRD), Vanderlan Cardoso (PSD). Ué, mas o PL de Gayer não tem candidato a governador? Sim, tem, é Wilder Morais. Diversos expoentes de outras chapas também estão com Gayer, inclusive os presidentes da Câmara de Goiânia, Romário Policarpo (Cidadania, da federação com o PSDB, partido que tem o governadoriável Marconi Perillo), e o da Assembleia Legislativa, Bruno Peixoto (União Brasil, que está com Daniel). Tião Peixoto é do PSDB de Marconi e do grupo de Caiado e faz campanha para Gayer.

Poderia ser chamado de burrice e traição se isolar na busca por voto. O burro traidor exerce os dois cargos simultaneamente quando ocupa todo o espaço de seu material para colocar a própria foto e seu número em tamanho exagerado. Tira a oportunidade de exibir os companheiros de jornada, sobretudo os majoritários, sonhando que motoristas, passageiros e pedestres vão memorizar seu número, nome e foto, sem esquecê-los até no momento de votar. Burro, traidor e iludido.

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O velho e bom santinho continua insubstituível

É tão furada a estratégia de deixar os colegas fora do material e das postagens na internet que desperdiça o esforço do autoenganador. Como não se pode levar aparelho eletrônico para a cabine de votação, o velho e bom santinho continua insubstituível. É a chamada colinha, pois o eleitor precisa realmente colar, como nos tempos do colégio. Fica impossível decorar os dois algarismos do presidente, os dois do governador, os seis dos dois senadores, os quatro do deputado federal e os cinco do estadual. Atordoado com as senhas de sua rotina, o cidadão quer é esquecer esses políticos, não carregar na cabeça tanto número, nome e cara. Se a publicidade do candidato a deputado tiver apenas seu nome, é impossível olhar aquilo e guardar na lembrança até 4 de outubro. Ou seja, um desperdício.

A colinha precisa ter todas as informações necessárias ao voto. Se quem tenta uma vaga de parlamentar publicar somente seu nome e número, o eleitor será obrigado a jogar fora, pois não vai investir seu precioso tempo preenchendo papel com as informações dos outros cargos. A mesma lógica vale para os demais concorrentes. É óbvio que ao menos os quatro principais governadoriáveis superam em público os demais componentes de sua chapa. Não é preciso ser inteligente para concluir que o quarteto tem mais a servir que a ser servido por seus deputados. E o que estes fazem? Excluem aqueles.

Mesmo no esporte e nas artes, em que reina a barafunda, há uma certa ética

A barafunda de traidores da política se imiscuindo em turma alheia não tem equivalente em qualquer outra atividade humana. Mesmo no esporte e nas artes, em que reina a barafunda, há uma certa ética. Se o jogador do Atlético Goianiense acaba de fazer um gol e vai comemorar com a torcida do Vila Nova, a possibilidade é de levar uma surra. Recentemente, na partida entre Fluminense e Palmeiras, Jhon Arias, que havia sido atleta do 1º e se transferiu para o 2º, tomou vaia o tempo inteiro. Na política, as pessoas se surpreendem quando José Mário Schreiner, preterido para vice de Daniel, vai coordenar sua campanha, em vez de escolher a de um dos adversários.

Há “esquecimento” mesmo na chapa da esquerda, em que o maior partido, o PT, ocupa a cabeça da chapa e socializou as demais posições. Pois ainda assim quase ninguém faz campanha para Luis Cesar Bueno, o candidato a governador. Com Marconi Perillo (PSDB), ocorre rigorosamente o mesmo, pois não apenas seus senatoriáveis são deixados de lado. Daniel e Wilder também sofrem com os traíras, que não os incluem nos materiais. O problema é que, na hora de dividir os cargos depois da vitória, os enganadores na campanha são os primeiros a comprar o terno para a posse como prêmio para a infidelidade. (Especial para O HOJE)

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