segunda-feira, 7 de setembro de 2026
OPINIÃO

Prefeito não vira governador, governador não vira presidente

Caiado (GO), Ratinho (PR), Eduardo Leite (RS), Eduardo Campos (PE) e vários de SP sonharam com o Palácio do Planalto, mas Collor (AL) foi o último a conseguir. Em Goiás, Gomide (Anápolis), Iris (Goiânia), Mendanha (Aparecida) tentaram o Palácio das Esmeraldas e o derradeiro eleito foi Otávio Lage (Goianésia)

Nilson Gomespor em
Prefeito não vira governador, governador não vira presidente
Sonho de líder comunitário é ser conselheiro tutelar, de conselheiro tutelar é ser vereador, de vereador é ser prefeito, de prefeito é ser governador e de governador é ser presidente da República - Foto: divulgação

Sonho de líder comunitário é ser conselheiro tutelar, de conselheiro tutelar é ser vereador, de vereador é ser prefeito, de prefeito é ser governador e de governador é ser presidente da República. Tudo vai bem até a aspiração chegar aos Executivos dos Estados e do País. Em Goiás, a última vez que um prefeito, Otávio Lage, de Goianésia, chegou a governador foi em 1965, quando pela segunda vez seguida um funcionário da Estrada de Ferro era eleito para o cargo, após Mauro Borges em 1960, cassado pela ditadura militar em 1964. Para presidente é a mesmíssima coisa: governador se reelege, ganha para o Senado, mas não consegue o Palácio do Planalto, a sede do Executivo federal. O último foi Fernando Collor, em 1989.

Sete governadores também sonharam com as eleições deste ano, mas cinco ficaram pelo caminho e os dois sobreviventes vão mal nas pesquisas. Os iniciais foram: Eduardo Leite (PSD-RS), Ratinho Jr. (PSD-PR), Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (PSD-GO), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e, com menos intensidade, Cláudio Castro (PL-RJ) e Ibaneis Rocha (MDB-DF). A perseguição da história é tamanha que dois administradores de bastante sucesso no Estado mais populoso e rico, São Paulo, sequer conseguiram a candidatura presidencial. Na eleição passada, João Dória (PSDB) foi atropelado pelo próprio partido e por centenas de prefeitos que havia ajudado em 2020. Desta vez, Tarcísio restou impedido também pelo próprio grupo político, o bolsonarismo. Para as urnas vão somente Caiado e Zema.

É preciso mexer no federalismo brasileiro

Para entender esse fenômeno é preciso mexer no federalismo brasileiro, que é diferente do praticado em diversos outros países, como os Estados Unidos. O sistema tupiniquim se move por regiões, num gelatinoso sentimento pela terra natal que chega ao cúmulo de se revoltar com a unidade territorial e pedir o fatiamento do País. Já ocorreu com São Paulo e Rio Grande do Sul e virou até música regional em que Elba Ramalho canta e o público esgoela “imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente”. Dificilmente o Brasil se une em torno de um personagem da política, como ocorreu com Fernando Henrique Cardoso, que eliminou os adversários todos, inclusive Luiz Inácio Lula da Silva ainda no 1º turno em dois pleitos seguidos, os de 1994 e 1998. No caso, foi graças à economia, pois FHC fez, como ministro do governo de Itamar Franco, o Plano Real, que acabou com a inflação.

Diferentes motivos unem os Estados na rejeição à unanimidade de partidos. A ocasião mais recente também se deveu à economia, em 1986, quando o presidente José Sarney lançou também um plano, que poderia ter sido chamado de Cavalo de Troia, pois tinha em seu interior uma cilada. Escorado no estelionato, o MDB de Sarney venceu em 22 dos então 23 Estados, perdeu apenas no menor deles, Sergipe. Logo após o eleitor o consagrar nas urnas, o partido voltou com a inflação, que chegou a 363,41% no ano seguinte, 980,22% em 1988 e 1.782% em 1989, daí a vitória de Collor, que xingava Sarney até na TV Globo, cujo grupo o apoiava. Na mesma disputa, o goiano Iris Rezende, que havia sido ministro da Agricultura de Sarney, perdeu a convenção do PMDB para outro que vinha de ser governador, Waldir Pires, da Bahia, que foi o 2º, e Ulysses Guimarães, o 1º (nas urnas, a dupla Ulysses-Pires ficou em 7º e Iris apoiou Collor).

 

Economia não teve solavancos idênticos desde a implantação do Real

Daí se originam as campanhas lotadas de escândalos, pois não há líderes nem ideias à altura dos cargos, a única forma de gerar notícia é explorar características dos concorrentes

Foto 2: Getúlio Gurgel/Acervo Instituto FHC

São fatores ainda irrepetíveis, ao menos até agora. A economia brasileira não teve solavancos idênticos desde a implantação do Real nem surgiu líder de renome e respeito como o foram Dom Pedro II (que os militares derrubariam em golpe em 1889), Juscelino Kubitschek (cujo mandato de senador por Goiás os militares cassariam em 1964 e depois, em acidente ainda em fase de investigação, seria morto há meio século, num acidente rodoviário tão suspeito quanto o aéreo que matou Eduardo Campos, que em 2014 renunciou ao Governo de Pernambuco para tentar a presidência) e Getúlio Vargas (ditador entre 1930 e 1945, voltaria em 1950 e se suicidaria em 1954). Sem grandes novidades em termos de gestão nem o surgimento de lideranças, restam os espasmos, como as manifestações de classe média de 2013 e o antipetismo de 2018 que levaria Jair Bolsonaro ao poder. Nada disso está na pauta para se repetir.

Daí se originam as campanhas lotadas de escândalos, pois não há líderes nem ideias à altura dos cargos, a única forma de gerar notícia é explorar características dos concorrentes. Como as biografias estão repletas de bizarrices, o noticiário não poderia ser outro. A disputa não se dá no âmbito do gerenciamento das áreas sensíveis, como tecnologia, saúde, educação, defesa nacional, economia. Se fosse assim, Caiado e Zema não estariam pererecando nos índices, inferiores até aos de quem jamais administrou, como Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão). O HOJE insistiu nesse diagnóstico em diversas edições, como já o fizeram diversos teóricos e veículos, porém, o tempo e os recursos foram direcionados para outros temas e direções.

Igual ocorre em relação ao Governo de Goiás. Depois de Otávio Lage, nenhum prefeito saiu do município diretamente para a chefia do Executivo estadual. Iris Rezende foi prefeito de Goiânia nos anos 1960 e, depois, governador na década de 1980, após um interregno de 13 anos (foi cassado da Prefeitura da Capital em outubro de 1969 e empossado no Palácio das Esmeraldas em março de 1983). Desde Lage, houve tentativas. As mais recentes foram de Antônio Gomide (PT), Iris Rezende (MDB) e Gustavo Mendanha (MDB à época), que haviam acabado de se reeleger e renunciaram em Anápolis, Goiânia e Aparecida para perder o governo em 2010, 2014 e 2022. Gomide vem se mantendo na Assembleia, Iris voltaria à prefeitura e Mendanha é candidato a senador.

Explicação vai além do regionalismo

A explicação para prefeito não virar governador e governador não se tornar presidente vai além do regionalismo. Inclusive, porque o brasileiro migra internamente com muita facilidade. FHC e nasceram no Rio de Janeiro e exerceram mandatos por Alagoas e São Paulo. Jair Bolsonaro nasceu em São Paulo e fez carreira no Rio de Janeiro. Lula nasceu no Pernambuco e também integrou a bancada paulista no Congresso. Questão ideológica também não explica tudo porque praticamente nenhum político nacional se opõe com firmeza a alguma ideia nem a convalida expondo as suas. Esquerda e direita têm, no Brasil, significados próprios, nada a ver com a convalidação a partir do parlamento francês. Então, o que falta mesmo nos Estados e no País são líderes de verdade na inteireza dos respectivos territórios. (Especial para O HOJE)

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