Crise no STF favorece direita e candidatos ‘antissistema’, dizem especialistas
Avaliação converge com crescente das discussões no debate público sobre os imbróglios dos ministros da Suprema Corte
A escalada na crise entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) tomou conta do debate público a menos de um mês para as eleições, com primeiro turno no dia 4 de outubro. Os atritos entre André Mendonça e Alexandre de Moraes colocaram a Suprema Corte no centro do debate eleitoral por todo o País.
As discussões sobre a atuação de magistrados da Corte federal aconteciam, sobretudo, entre as lideranças da direita. Porém, a quebra do sigilo no caso que envolve Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e posteriormente o pedido de Moraes para que Mendonça fosse investigado no âmbito do Inquérito das Fake News, além da revelação do encontro do ministro com Vorcaro em março de 2025, colocaram a Suprema Corte no debate político para além das discussões entre os candidatos à direita.
Em Goiás, as discussões que envolviam o STF já aconteciam, sobretudo, entre os candidatos ao Senado Federal. Gracinha Caiado (União Brasil), Gustavo Gayer (PL), Zacharias Calil (MDB), Gustavo Mendanha (PRD), Vanderlan Cardoso (PSD), Oséias Varão (PL), Ernesto Roller (PSDB) e Iure Castro (Cidadania) já afirmaram publicamente serem a favor de reformas no Judiciário. Inclusive, alguns candidatos já defenderam a abertura de processos de impeachment contra ministros da Corte.
Para o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, a crise do STF não necessariamente produz uma conexão direta com o desempenho eleitoral dos candidatos.
“É complicado se posicionar de maneira tão assertiva sobre um tema que você não sabe como será a aplicação. Fica parecendo mais um chavão a ser repetido, porque está no calor popular, do que a população quer ouvir. Enquanto a população quer ouvir, os candidatos percebem uma janela de oportunidade política e falam sobre”, afirma ao O HOJE.
Na avaliação de Zancope, antes de candidatos ideológicos à direita, a crise deve favorecer políticos que se apresentam como “antissistema”. “Cada realidade local produz um tipo de cultura política. Em alguns Estados, isso até pode ser verdade, mas são Estados que já possuem talvez uma população ideologicamente mais alinhada à direita do que à esquerda”, explica. “Para quem é antissistema, é um prato feito. Aqueles candidatos contra tudo e contra todos estão tendo uma baita oportunidade”, enfatiza.
Vantagem inicial para a direita
Já o professor da PUC-GO e cientista político Pedro Pietrafesa vê vantagem inicial para os candidatos de direita que já vinham incorporando críticas ao STF às suas campanhas. “Favorece a esses candidatos da extrema direita que estavam já há algum tempo pautando esse debate acerca do impeachment de ministros do STF. Não falam especificamente de reforma do judiciário, falam muito de impeachment, por conta dessa crise que o STF está afundado”, afirma.
De acordo com o professor, a crise chega durante o período eleitoral em um momento em que parte desses candidatos já possui discurso consolidado sobre impeachment de ministros e mudanças no funcionamento do Judiciário. “Neste momento, eles têm essa vantagem, mas precisamos ver como será a reação dos outros candidatos, mais à esquerda, ao centro, como eles vão lidar com todo esse processo”, avalia.
Para o cientista político, a pressão sobre os demais candidatos tende a aumentar à medida em que a crise do STF permanecer no centro do debate eleitoral. “É um cenário que os políticos de esquerda e de centro vão ter que adotar também, a reforma do Poder Judiciário ou discutir o Poder Judiciário nas suas campanhas”, pontua Pietrafesa.
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