“Farmar aura”: entenda a gíria que virou campeonato entre jovens no Brasil
Psicóloga alerta que adultos que ridicularizam a gíria podem fragilizar a relação com os jovens sem perceber o que a brincadeira realmente representa
Mesmo quem não acompanha de perto as gírias que nascem nas redes sociais provavelmente já esbarrou em “farmar aura”. A expressão saiu de vídeos, memes e comentários e ganhou versões presenciais, inclusive campeonatos pelo país. “Farmar” vem do vocabulário dos jogos eletrônicos e significa repetir ações para acumular pontos ou vantagens. “Aura”, por sua vez, passou a designar carisma, presença ou estilo. Juntas, as palavras descrevem a capacidade de fazer algo que renda prestígio diante dos outros, seja um gesto, uma atitude ou uma performance.
A curiosidade está justamente nessa passagem. Uma expressão criada para atribuir, de maneira informal, mais ou menos prestígio a alguém virou brincadeira coletiva, com participantes, plateia e reação do público. O que antes cabia em comentários como “ganhou aura” ou “perdeu aura” ganhou espaço fora da tela e passou a ser encenado.
Para a psicóloga Milene Domingues, há uma conexão entre essa dinâmica e a maneira como as redes tornaram o reconhecimento social mais visível e mensurável. “É quase como se carisma, presença e reconhecimento também pudessem ser ‘pontuados’. Isso conversa muito com uma geração que cresceu em ambientes digitais nos quais likes, seguidores, visualizações, transformaram dimensões subjetivas da experiência social em números”, afirma.
Nos campeonatos, porém, não basta apenas aparecer. A graça depende de um repertório reconhecido pelos participantes. Um gesto pode valer muito para determinado grupo e não significar absolutamente nada para quem observa de fora. É essa compreensão compartilhada que transforma uma performance aparentemente aleatória em algo capaz de provocar risos, aplausos ou aprovação.
Uma senha social
Segundo Milene, esse mecanismo está ligado a uma prática muito anterior às redes. Grupos sempre criaram formas próprias de identificação por meio de músicas, roupas, danças, expressões e brincadeiras. “Quando jovens se reúnem para uma ‘batalha de aura’, existe ali uma brincadeira que só funciona plenamente porque o grupo conhece aqueles códigos: entende o meme, reconhece o gesto, sabe a referência e participa da reação coletiva. Para quem olha de fora, alguns gestos podem parecer sem sentido. Para quem pertence àquele universo, eles carregam referências e significados”, explica.
A diferença contemporânea está na velocidade com que esses códigos surgem, circulam e desaparecem. Uma referência pode nascer em um vídeo, ser reproduzida milhares de vezes e chegar à conversa cotidiana em poucos dias. Saber do que se trata também informa quem acompanha aquele universo e quem ficou de fora.
É por isso que uma gíria aparentemente banal pode cumprir uma função social. “Compartilhar uma gíria, conhecer determinado meme, dominar uma dança ou participar de uma brincadeira coletiva pode funcionar como uma espécie de senha social”, comenta Milene.
O pertencimento, no entanto, não deve ser confundido automaticamente com dependência de aprovação. Estar dentro de uma brincadeira, acompanhar as referências dos amigos ou querer ser reconhecido pelos pares faz parte da convivência. O cuidado começa quando a necessidade de validação passa a definir excessivamente escolhas e comportamentos.
“Portanto, não é o campeonato ou a brincadeira em si que determina se a experiência será positiva ou negativa. O importante é observar qual função aquilo ocupa na vida daquele jovem”, afirma a psicóloga.
Quando uma geração não entende a outra
Se “farmar aura” soa incompreensível para muitos adultos, isso também faz parte do fenômeno. Cada geração desenvolve expressões que carregam referências do próprio tempo. “Tirar onda”, “causar”, “lacrar” e “mitar” não são sinônimos de “farmar aura”, mas todas passaram, em algum momento, por ideias relacionadas a chamar atenção, conquistar admiração ou alcançar determinado status dentro de um grupo.
O conflito aparece quando o estranhamento vira desqualificação. Não é necessário que pais ou responsáveis adotem o vocabulário dos jovens, conheçam todos os memes ou reproduzam suas brincadeiras. Entender por que aquilo faz sentido para eles, porém, pode manter aberta uma conversa que se fecha facilmente diante do deboche.
Milene chama atenção justamente para essa diferença entre não compreender e concluir que algo é prejudicial. “O fato de um adulto não compreender imediatamente um comportamento juvenil não significa que aquele comportamento seja necessariamente prejudicial. Às vezes ele apenas pertence a uma cultura que não foi criada para aquele adulto”, salienta.
A questão pode parecer pequena quando o assunto é apenas uma gíria, mas a forma como o adulto reage comunica algo maior sobre a relação. “Quando o adulto ridiculariza aquilo que tem valor para o adolescente, não é apenas o assunto que perde espaço, a própria relação pode se fragilizar. O jovem pode passar a enxergá-lo como alguém distante, pouco aberto e incapaz de compreender os códigos de sua geração. Essa percepção também pode ser compartilhada pelo grupo, fazendo com que o adulto seja visto como uma figura que julga antes de escutar e diante da qual não é seguro se expressar com autenticidade”, completa a especialista.
Os campeonatos de aura acabam tornando visível um equilíbrio que acompanha a juventude há muito mais tempo do que qualquer plataforma: pertencer a um grupo sem desaparecer dentro dele. O jovem precisa compartilhar códigos suficientes para ser reconhecido pelos pares, mas também procura aquilo que o diferencia dos demais.
Mudam as palavras, as plataformas e as performances. A disputa por reconhecimento também muda de forma. O que permanece é a tentativa de construir uma identidade própria sem perder o lugar entre aqueles com quem se deseja pertencer.
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