quinta-feira, 10 de setembro de 2026
ALERTA PARA MÃES E PAIS

“Se você me ama, venha comigo”: como adultos manipulam adolescentes pela internet

Caso de menina encontrada em uma casa abandonada de Anápolis mostra como atenção, segredo e promessas podem ser transformados em ferramentas de aliciamento emocional

Bia Salespor em
“Se você me ama, venha comigo”: como adultos manipulam adolescentes pela internet
(Foto: Freepik)

Uma conversa aparentemente acolhedora, alguém disposto a ouvir e a sensação de finalmente ter encontrado uma pessoa que compreende tudo. É assim que pode começar um processo de manipulação capaz de fazer um adolescente esconder contatos, afastar-se da família e aceitar situações que colocam sua segurança em risco.

O alerta ganhou repercussão depois que uma adolescente de 13 anos foi encontrada em uma casa abandonada de Anápolis. Segundo a Polícia Civil de Goiás, um homem de 19 anos teria conhecido a menina pela plataforma Discord, aliciado a adolescente e convencido a jovem a sair de casa.

Conforme as investigações, o homem teria prometido levá-la para morar no Canadá, pedido que o contato fosse mantido em segredo e enviado imagens de visualização única. Antes de partir, a adolescente deixou uma carta para a irmã na qual dizia estar indo embora com uma pessoa que amava.

A adolescente foi encontrada em um imóvel que estava trancado por fora com corrente e cadeado, segundo a investigação. O suspeito foi conduzido à delegacia para autuação por estupro de vulnerável e cárcere privado. As circunstâncias continuam sendo apuradas.

Para a neuropsicóloga Fabiane Fagundes, a situação ajuda a compreender como uma relação apresentada como amor pode avançar para controle, isolamento e risco. “A manipulação dificilmente começa com violência explícita. Se o adulto ameaçasse ou demonstrasse controle desde o primeiro contato, a adolescente teria mais condições de reconhecer o perigo. Por isso, a aproximação pode começar com atenção, acolhimento, elogios e promessas”, explica.

O adulto procura uma porta de entrada emocional

A adolescência é uma fase marcada pela construção da identidade, pelo desejo de autonomia e pela necessidade de pertencimento. A opinião dos pares ganha força, os primeiros relacionamentos adquirem grande intensidade e a validação recebida de outra pessoa pode ser interpretada como prova de valor.

Isso não significa que todo adolescente será manipulado ou que apenas jovens com conflitos familiares estão vulneráveis. O aliciador pode explorar necessidades comuns dessa etapa, como o desejo de ser compreendido, admirado ou tratado como alguém maduro. “O adulto pode ouvir as inseguranças, descobrir conflitos e oferecer exatamente aquilo que parece estar faltando. Ele diz que a adolescente é diferente, madura, especial e incompreendida. Essa atenção produz uma sensação de intimidade e exclusividade que pode parecer muito verdadeira”, afirma Fabiane.

O vínculo também pode avançar rapidamente. A pessoa envia mensagens durante todo o dia, demonstra ciúme, exige respostas imediatas e afirma nunca ter sentido algo semelhante. A intensidade é apresentada como amor.

O segredo vira prova de confiança

Um dos sinais mais importantes do aliciamento é o pedido de segredo. O adulto pode dizer que os pais não entenderiam, que tentariam separar o casal ou que a diferença de idade não importa porque a adolescente é “madura para a idade”. Em vez de reconhecer o segredo como proteção do agressor, a adolescente pode interpretá-lo como uma demonstração de intimidade. “Ela passa a acreditar que guardar aquela relação é uma forma de proteger o amor. Quando alguém questiona, o adulto já preparou uma explicação: ‘sua família quer controlar você’, ‘seus amigos têm inveja’ ou ‘ninguém entende o que nós sentimos’”, exemplifica a neuropsicóloga. A partir daí, pais, irmãos e amigos podem ser transformados em adversários. Qualquer alerta é usado como confirmação de que apenas o manipulador está ao lado da adolescente.

Promessas criam uma realidade paralela

Promessas de casamento, viagens, independência ou uma vida distante dos problemas atuais podem reforçar a fantasia. O adulto oferece um futuro pronto, no qual a adolescente será livre, compreendida e feliz. Fabiane explica que a promessa não precisa ser realista para produzir efeito emocional. “Quando alguém está envolvido afetivamente, não avalia cada informação apenas de maneira racional. A promessa representa pertencimento, autonomia e a possibilidade de começar outra vida. Questioná-la pode significar abrir mão não apenas da pessoa, mas de todo o futuro imaginado”, observa.

O manipulador também pode criar urgência: é preciso fugir naquela noite, apagar as conversas, não contar a ninguém ou escolher entre ele e a família. A pressa reduz o tempo para pensar e pedir ajuda.

“Prove que me ama”

Depois de conquistar confiança, o adulto pode começar a exigir provas de lealdade. Inicialmente, pede um segredo. Depois, uma fotografia, a localização da casa, um encontro ou o afastamento de um amigo. Cada concessão prepara a próxima.

As frases podem incluir:

  • “Se você me ama, precisa confiar em mim”;
  • “Só nós dois entendemos o que sentimos”;
  • “Se contar aos seus pais, tudo vai acabar”;
  • “Sua família nunca vai aceitar você como eu aceito”;
  • “Depois de tudo o que fiz, você não pode desistir”;
  • “Se não vier comigo, significa que nunca me amou”;
  • “Você é madura demais para deixar seus pais decidirem sua vida”.

Essas mensagens misturam afeto, culpa e medo. A adolescente pode sentir que voltar atrás representa uma traição ou a perda da única pessoa que realmente a compreende. “Não é uma decisão livre quando o vínculo foi construído com mentiras, assimetria de poder, segredo e pressão emocional. A frase ‘ela escolheu ir’ ignora todo o processo utilizado para influenciar essa escolha”, ressalta Fabiane.

Por que ela pode resistir ao resgate?

Em alguns casos, a vítima não reconhece imediatamente o adulto como agressor e pode até defendê-lo. Isso não significa que não houve manipulação. Admitir o perigo também exige reconhecer que promessas, sentimentos e planos foram construídos sobre mentiras.

A adolescente pode ainda temer castigos, humilhações e julgamentos ao voltar para casa. Por isso, a forma como a família a recebe é decisiva. “A primeira resposta precisa ser de proteção. Frases como ‘eu avisei’, ‘como você pôde fazer isso?’ ou ‘você acabou com a nossa vida’ aumentam culpa e vergonha. A adolescente precisa compreender que o responsável pela manipulação é quem se aproveitou da vulnerabilidade e da diferença de poder”, orienta.

Acolher não significa ignorar o que aconteceu. A família poderá estabelecer novos limites, rever o acesso às plataformas e acompanhar o uso da internet, mas essas medidas devem fazer parte de um processo de reconstrução da segurança.

Sinais que podem aparecer antes de uma fuga

Nenhum comportamento isolado comprova aliciamento, mas mudanças combinadas merecem atenção:

  • Uso do celular escondido ou durante a madrugada;
  • Ansiedade quando fica sem acesso à internet;
  • Exclusão frequente do histórico de mensagens;
  • Perfis desconhecidos ou contatos com pessoas mais velhas;
  • Recebimento de presentes sem origem explicada;
  • Conversas mantidas em absoluto segredo;
  • Afastamento repentino de amigos e familiares;
  • Irritabilidade intensa quando alguém pergunta sobre determinado contato;
  • Planos de viagem ou mudança sem explicação concreta;
  • Frases como “vocês nunca vão entender”;
  • Defesa intensa de alguém que a família nunca conheceu;
  • Mudança abrupta de rotina, aparência ou comportamento;
  • Pedido de documentos, dinheiro ou preparação de bagagem;
  • Menções a fugir ou começar uma vida longe.

Fabiane alerta que uma reação exclusivamente punitiva pode fazer com que o adolescente esconda ainda mais. “Se toda tentativa de conversa termina em bronca, ameaça ou retirada imediata do celular, a tendência pode ser aumentar o segredo. Os responsáveis precisam estabelecer limites, mas também construir um ambiente no qual o filho consiga contar algo preocupante sem acreditar que será humilhado”, afirma.

Amigos também podem proteger

No caso ocorrido em Anápolis, amigas da adolescente procuraram a família durante as buscas e relataram informações sobre o contato virtual. O comportamento mostra a importância de ensinar crianças e adolescentes a pedir ajuda quando um amigo estiver em risco.

Eles precisam saber que contar a um adulto responsável não é trair a confiança do colega. Diante de planos de fuga, encontro secreto, envio de imagens íntimas, ameaças ou contato com adultos, o silêncio pode aumentar o perigo. “A amizade não exige guardar um segredo que ameaça a segurança de alguém. O adolescente pode procurar os pais, a escola, o Conselho Tutelar ou outro adulto de confiança, mesmo que o amigo peça que não conte”, orienta a especialista.

O que os pais devem fazer

A prevenção não depende apenas de instalar ferramentas de controle. Os responsáveis precisam conhecer as plataformas utilizadas pelos filhos, conversar sobre relacionamentos virtuais e estabelecer regras claras.

Entre as recomendações estão:

  • Manter conversas frequentes sobre a vida digital;
  • Conhecer jogos, aplicativos e servidores utilizados;
  • Explicar que perfis e imagens podem ser falsos;
  • Orientar o adolescente a nunca esconder encontros;
  • Não permitir encontros presenciais sem conhecimento da família;
  • Ensinar que adultos não devem pedir segredos a menores;
  • Alertar sobre imagens de visualização única;
  • Reforçar que localização, endereço e rotina não devem ser compartilhados;
  • Observar alterações repentinas de comportamento;
  • Conhecer os amigos presenciais e virtuais dos filhos;
  • Preservar provas diante de uma situação suspeita;
  • Procurar imediatamente as autoridades em caso de desaparecimento.

“Monitorar não é apenas pegar o celular escondido. É conhecer o universo digital do filho, perguntar o que ele faz, ouvir sem ridicularizar e deixar claro que poderá pedir ajuda mesmo que já tenha enviado uma foto, contado uma mentira ou marcado um encontro”, explica Fabiane.

Depois do resgate, começa outra etapa

Após uma situação de aliciamento, a adolescente pode apresentar culpa, vergonha, medo, raiva, confusão e saudade da pessoa que a manipulou. Esses sentimentos contraditórios não devem ser usados contra ela.

O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender o vínculo, elaborar a experiência e reconstruir a percepção de segurança. A exposição pública da identidade e de detalhes íntimos também precisa ser evitada para impedir nova violência. “A adolescente precisa voltar para um ambiente em que seja protegida, ouvida e respeitada. A prioridade não é fazê-la confessar que estava errada, mas ajudá-la a entender o processo vivido, recuperar vínculos seguros e reconhecer formas de controle que foram apresentadas como amor”, conclui Fabiane.

Casos suspeitos podem ser comunicados à Polícia Militar pelo 190, ao Disque Direitos Humanos pelo Disque 100, ao Conselho Tutelar ou à Polícia Civil. Em desaparecimentos, a comunicação às autoridades deve ser imediata — não é necessário esperar 24 horas.

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Adolescente adolescentes discord internet manipulação

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