El Niño dispara preços de hortaliças em Goiás e ameaça safras
Quiabo, chuchu e jiló tiveram aumentos de até 100% em setembro; Ceasa aponta efeito do fenômeno climático
Com a chegada do período de seca, somado ao El Niño, ocorreu um aumento no preço de hortaliças e de outros alimentos em Goiás. O preço do quiabo, do chuchu e do jiló chegou a ficar 100% mais alto em setembro do que em agosto na Central de Abastecimento de Goiás (Ceasa-GO). A caixa de 22 kg de chuchu passou de R$35 para R$70. A de 14 kg de quiabo subiu de R$40 para R$80, e a de 17 kg de jiló chegou a R$100.
Outros itens também ficaram mais caros no período. A abobrinha verde subiu 66%. A caixa de 20 kg de cebola passou de R$70 para R$110, aumento de 57%. A batatinha subiu 37%, o tomate saladete tipo 1 subiu 25% e o tomate cereja tipo 1 subiu 11%. O limão tahiti e o pimentão subiram 20% cada, e o alho nacional subiu 6%.
As cotações variam de uma semana para outra. O preço mais comum do quiabo foi de R$50 em 3 de agosto, R$80 em 10 de agosto, R$60 em 1º de setembro e R$80 em 8 de setembro. Entre 1º e 8 de setembro, a caixa de 17 kg de jiló tipo 1 passou de R$50 para R$80, e o saco de 20 kg de limão tahiti goiano passou de R$100 para R$140. Os valores são do mercado atacadista e não correspondem necessariamente aos preços pagos em supermercados e feiras.
Segundo o gerente técnico da Central de Abastecimento de Goiás (Ceasa-GO), Josué Lopes Siqueira, a alta de preços em hortaliças costuma ocorrer no segundo semestre do ano, período de seca. Ao divulgar os aumentos de maio e junho, Josué pontuou que um El Niño mais intenso pode ampliar esse movimento, porque a falta de chuva aumenta a necessidade de irrigação e o custo de produção.
A revista Hortifruti Brasil, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), publicou em fevereiro que temperaturas mais altas aceleram os ciclos das plantas e intensificam problemas fitossanitários, principalmente quando há excesso de umidade. A publicação também informa que os efeitos variam por cultura e por região.
Na média das dez Ceasas monitoradas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os preços da batata e da cebola caíram em agosto, conforme o 9º Boletim Hortigranjeiro, divulgado em 22 de setembro. A batata ficou 11,6% mais barata. A cebola, que subia desde março, ficou 13,8% mais barata e recuou em nove das dez centrais.
A agência norte-americana NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) ressalta que os impactos do El Niño não ocorrem de forma automática em todas as regiões. A nota técnica conjunta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), do Inmet, da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), de abril, informa que o Centro-Oeste não tem correlação elevada com episódios de El Niño e La Niña.
As culturas mais sensíveis ao El Niño costumam ser soja, milho, trigo, arroz, feijão, café e hortaliças. Quando a produtividade diminui, a oferta de alimentos reduz e os preços tendem a subir. No entanto, o Centro-Oeste enfrenta dinâmicas distintas do restante do País. Enquanto o Sul do Brasil tende a receber chuvas acima da média entre setembro e dezembro, as regiões Norte e Nordeste enfrentam secas no leste e norte da Amazônia e no norte do Nordeste, com risco de queda na produção. Goiás experimenta um padrão climático intermitente, registrando concentrações anormais de chuva em alguns municípios enquanto sofre calor extremo na maior parte do território.
Modelos climáticos indicam probabilidade acima de 90% de permanência do El Niño até, pelo menos, o início de 2027, com alta probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte, quando as anomalias de temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico Equatorial ficam acima de 2,0°C. Segundo estudos de sazonalidade de preços na Ceasa-GO, o período entre novembro e março historicamente concentra os maiores índices de preços para hortaliças como alface. A pesquisa diária de preços da Ceasa-GO coleta cotações em três momentos distintos da manhã para obter uma média dos preços praticados.
Fenômeno climático recorde intensifica pressão
O El Niño, fenômeno de aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, tem intensidade recorde para setembro, conforme o Instituto ClimaInfo. Na semana de 16 de setembro, a temperatura da superfície do Pacífico Equatorial estava 2,1°C acima da média pelo índice Roni (Relative Oceanic Niño Index, na sigla em inglês), usado NOAA, que declarou o fenômeno em 11 de junho. A Agência informou em 10 de setembro que há probabilidade superior a 90% de um evento muito forte. A agência também calcula em 75% a chance de o El Niño superar, entre outubro e dezembro, todos os episódios registrados desde 1950.
Em Goiás, setembro teve chuva atípica em parte do Estado e calor extremo. Nos nove primeiros dias do mês, Palestina de Goiás acumulou 121,2 mm de chuva e Nazário acumulou 108 mm, segundo o Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo). A média histórica estadual para setembro é de cerca de 40,3 mm, conforme o prognóstico do mesmo centro. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) manteve alerta vermelho para altas temperaturas em Goiás e em outros sete Estados até esta quarta-feira (30). Desde domingo (27), nove Estados registraram máximas iguais ou superiores a 40°C.
Para os próximos meses, o Centro de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (CEMPA-Cerrado), da Universidade Federal de Goiás (UFG), prevê chuva próxima da média em outubro na maior parte de Goiás, com distribuição irregular. Em novembro, há maior possibilidade de chuva abaixo da média, principalmente no Sul, no Sudoeste e na Região Metropolitana de Goiânia. A probabilidade de temperatura acima da média fica entre 70% e 90% em praticamente todo o Estado.
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