terça-feira, 6 de outubro de 2026
OPINIÃO

A vez é da equipe de Daniel e da presidência da Assembleia

Nem Zacharias Calil, que é parlamentar federal, tirou quase 1 milhão de votos, é profissional conhecido mundialmente, tem cargo garantido no governo, imagine os candidatos a deputado que nem chegaram a 20 mil; no caso do Legislativo, a briga é de foice no escuro, pois só há uma cadeira em disputa, só serve ela, todos se acham merecedores e ninguém abre mão

Nilson Gomespor em
A vez é da equipe de Daniel e da presidência da Assembleia
O sucessor de Ronaldo Caiado (PSD), Daniel Vilela (MDB), também venceu sem 2º turno, mas vai ter de trocar a tripulação durante o voo - Foto: divulgação

Ronaldo Caiado ganhou a eleição em 1º turno em 2018, assim como quando foi reeleito, e sobrou mais tempo para procurar nomes para os perfis delineados em sua cabeça. Analisou a turma em Goiás. Não lhe veio à mente o time ideal. Foi procurar na iniciativa privada (de onde tirou Ismael Alexandrino para a Saúde), no grupo que estava sendo montado para a nova formação do governo federal (de onde saiu Cristiane Schmidt, diretamente escolhida por Paulo Guedes, para a Economia), no 3º setor (onde encontrou Fátima Gavioli, do instituto do superbilionário Jorge Paulo Lemann para a Educação) e no maior celeiro de craques da gestão pública, Brasília, de onde trouxe Pedro Sales (Administração, Codego, Goinfra, Infraestrutura), Andréa Vulcanis (Meio Ambiente) e Rodney Miranda (Segurança Pública). Seu sucessor, Daniel Vilela (MDB), também venceu sem 2º turno, mas vai ter de trocar a tripulação durante o voo.

Para isso, vai ter de mesclar o método Caiado com a tática do possível. E com os ouvidos cheios de conversa. Pelo tanto de fofoca vazada dos Palácios, tomara que chova três dias sem parar, mesmo assim ainda não apaga os incêndios entre os que perderam para deputado e querem vaga no governo e os que não levantam da cadeira nem para ir ao banheiro. São 40 cargos de 1º escalão e cerca de 2 mil de outras chefias. Quem se candidatou e perdeu quer um lugar de onde possa extrair condição de quitar com os agiotas. Os honestos (sim, existem) desejam apenas o sustento das famílias (sim, mais de uma) com o suor do rosto do contribuinte. Foi por causa desses tipos que Caiado saiu do Estado e selecionou sem influências, muito menos dos próprios interessados.

Existem dois cenários

Existem dois cenários: se Flávio Bolsonaro confirmar o favoritismo, pode levar alguns; se for Lula, vão sobrar para Daniel todos os endividados das campanhas. Aí, o fogo vai arder durante quatro anos. A conversa é que Daniel vai montar o seu time – metade do atual é de seu antecessor. Diz-se que nomeará goianos, ao contrário de Caiado, que trouxe a maioria de fora (e fez bem). São inegociáveis: toda a área de inovação/tecnologia, vagas exclusivas de José Frederico Lyra Netto; Fomento, Detran, Saneago e Codego devem ficar com técnicos; Saúde, Educação, Segurança, Economia e área social, de confiança de Daniel; Goinfra, algum ex-prefeito sem roubos no currículo. Para acomodar os 12 partidos e os 500 aliados que disputaram a eleição, o importante é voto. Quem teve abaixo de 10 mil não vai conseguir nem abraço.

Há casos extremos, como o do deputado federal Zacharias Calil (MDB), que ficou em 3º lugar para senador. Com tamanhas credenciais, não aceitaria coisa alguma abaixo da Secretaria da Saúde, porém, não consta que sua própria sigla, presidida pelo próprio governador, garanta envergadura a esse ponto para um recém-chegado: Calil era do União Brasil, flertou com o PL para apoiar Wilder Morais e, aos 18 minutos do 2º tempo da prorrogação, filiou-se ao MDB e foi um dos motivos de se abrir a chapa do caiadismo para quatro senatoriáveis, em vez da metade, como defendiam Ronaldo Caiado e sua mulher, Gracinha Caiado, única eleita do quarteto. Calil não se contentaria com a direção do Hospital Materno-Infantil, que ele mesmo tornou famoso com as cirurgias de separar siameses. E se for isso ou nada? Será a pergunta feita pelo sujeito que recebeu 59% dos votos contra três adversários de partidos fortes (PL, PT e PSDB, que se mostrou mais fraco que suco de brinde em pastelaria).

A resposta está no brilhante resultado de Calil nas urnas: 998.319 votos. Se um parlamentar federal, médico mundialmente conhecido e respeitado, do partido do governador, da profissão e da amizade de Caiado, que teve quase 1 milhão de votos, não pode escolher cargo no governo, quem abaixo disso tem condição moral ou política de discutir? Em 2022, Caiado chegou a uma solução salomônica: colocou na chapa todos os que quiseram ser candidatos ao Senado (era uma vaga e três disputando), como agora; todos perderam (para Wilder Morais); como os três ajudaram, Salomão Caiado entrou novamente em cena e deu bons cargos ao trio, o Detran para Delegado Waldir (que agora foi candidato a deputado federal e teve 22.582 votos), a Agência de Habitação para Alexandre Baldy (que agora saiu de suplente de Gracinha Caiado e, se ela for ministra de Flávio Bolsonaro, ele assume a vaga) e a Codego para Vilmar Rocha, que abdicou em favor de Francisco Jr..

Seus amigos dizem que Daniel abomina saídas do tipo. Jamais daria cargos para o senador não reeleito Vanderlan Cardoso (PSD), que perdeu, porém, conseguiu 633.843 votos, o 5º lugar. Se nem Vanderlan for nomeado, como alguém que mal chegou a 20 mil votos para deputado vai falar grosso para pegar um contracheque gordo no governo? Não vai. E o que está superintendente, presidente da agência ou até secretário vai ficar com conversinha fiada de continuar se nem um sujeito com o maior posto parlamentar do País vai ter cargo?

Em 2022, Caiado chegou a uma solução salomônica: colocou na chapa todos

A vez é da equipe de Daniel e da presidência da Assembleia
Os ex-prefeitos também estão assanhados achando que Daniel vai demitir todo mundo que Caiado levou para o governo – Foto: divulgação

Os ex-prefeitos também estão assanhados achando que Daniel vai demitir todo mundo que Caiado levou para o governo. Como vai transformar o Palácio Pedro Ludovico num mocó de aspones que governaram cidades pequeníssimas se o ex-prefeito de Senador Canedo, cuja mulher é primeira suplente de senador, vai ficar no sereno? Sim, Vanderlan. E se o ex-prefeito tiver governado a 2ª maior cidade goiana? É o caso de Gustavo Mendanha, que tirou 578.418 votos para o Senado. Fala-se nele para a Goinfra, por ter sido eficiente executor das obras e dos projetos que Maguito Vilela, pai de Daniel, deixou em Aparecida. Mendanha foi seu sucessor, escolhido pessoalmente por Daniel. Aliás, o atual governador indicou Mendanha para presidir a Câmara de Aparecida e Maguito ajudou, indicou Mendanha para suceder o pai e o pai topou. Mendanha ficaria sem cargo?

Diferente de Vanderlan, Mendanha não é multimilionário. Não chega a ser pobretão, como o Delegado Waldir, mas não tem emprego fixo, como Waldir, que se tudo der zebra ainda tem o salário da Polícia Civil para encher o bucho e pagar as contas. É o caso de grande parte dos que perderam a eleição: simplesmente só têm o do almoço, que precisam vender se quiserem comprar a janta. E o governador precisa se preocupar apenas com os fraquinhos, pois os bem votados e os detentores de mandatos que não se reelegeram serão absorvidos pelo novo presidente da Assembleia. Quem? O substituto de Bruno Peixoto, que estará na Câmara dos Deputados. Seu sucessor vai ser quem Bruno indicar? Não. Existem três eleitores, Ronaldo Caiado, Daniel Vilela e Bruno, não necessariamente nessa ordem.

Existe uma lei não escrita obrigando o presidente da Assembleia Legislativa de Goiás, a Alego, ser escolhido entre os que estiverem, no mínimo, exercendo ali o 2º mandato. Com isso, está excluído um dos favoritos, Romário Policarpo (Cidadania). Outro favoritaço morreu, Amilton Filho. Outros muito bem cotados perderam a eleição, caso de Lincoln Tejota (União Brasil), como aconteceu com Francisco Oliveira em 2022: para presidir a Alego faltou “apenas” se reeleger. Restam Talles Barreto (União Brasil), que presidiu o PFL Jovem dos 17 aos 35 anos, até Caiado o alertar de que ele estava jovem apenas no espírito; Wilde Cambão (UB), que disputava com Bruno Peixoto a presidência que está se encerrando. Qualquer que seja o nome, deve manter as práticas de Bruno, criticadas pelo público, amadas pelos deputados.

Um dos métodos de Bruno é agradar. Não importa como, ele agrada. O que deputado quer, ele faz. Seu sucessor tem de imitá-lo, por exemplo, no acolhimento aos rejeitados pelos eleitores. Para dar ideia, o Governo de Goiás tem excesso de ocupantes de 1º escalão, 40; na Assembleia, são 50. Cada um levando um rabicho, seja um parente, um ex-integrante de seu gabinete, um aliado que perdeu para prefeito no interior. Todos os citados aqui querem a cadeira de Bruno. Ninguém abre mão. Ninguém abre a mão para gastar. Todos gostariam de um cargo no governo; não tendo, serve a Assembleia. (Especial para O HOJE)

 

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Assembleia Legislativa Daniel Vilela Goiás

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