Almir Luiz faz da própria história um caminho para a prevenção do câncer de pele
Após enfrentar cirurgias e tratamentos contra o câncer de pele, jornalista compartilha sua experiência em livro e alerta sobre os sinais da doença
Há mais de 15 anos, uma lesão na pele abriu um capítulo que Almir Luiz da Silva não imaginava que ocuparia tanto tempo de sua vida. O que começou com uma alteração aparentemente isolada avançou para uma sequência de diagnósticos, cirurgias e tratamentos e mudou não apenas seus hábitos, mas também a maneira como o jornalista passou a olhar para o próprio corpo e para os cuidados com a saúde.
Vieram inúmeras cirurgias na cabeça, enxertos, radioterapia, quimioterapia e, depois, imunoterapia. Em um dos procedimentos, perdeu toda a narina direita. Os curativos passaram a fazer parte dos dias, assim como os momentos difíceis diante do próprio reflexo. Foi nesse percurso que precisou estabelecer uma separação que se tornaria central na maneira de conviver com a doença: uma coisa era o câncer; outra, quem ele continuava sendo.
“Eu não queria que o câncer definisse quem eu era. Eu estava passando por uma doença, estava enfrentando um câncer, mas continuava sendo o Almir”, afirma o jornalista, em entrevista ao O HOJE. Daí veio a frase que passou a acompanhá-lo: “Eu não sou doente, estou doente.” Para ele, a distinção impede que o diagnóstico ocupe também o lugar de sua identidade.
Ao relembrar esse período, fala também de quem permaneceu por perto. Cita a esposa, Patrícia, outros familiares, médicos e amigos entre as pessoas que lhe estenderam a mão quando mais precisou. A experiência também modificou sua relação com a própria saúde.
“Eu aprendi da maneira mais difícil que a nossa saúde não pode ser deixada para depois”, conta. A partir dessa percepção, passou a prestar mais atenção aos sinais do corpo e à importância de procurar ajuda diante de alterações, cuidados que hoje procura transmitir a outras pessoas.
Da experiência pessoal à conscientização
A convivência com a doença levou o jornalista para fora de casa e dos consultórios. Ele decidiu usar a própria história para conversar com pessoas que ainda podem enxergar o câncer de pele como um problema distante. Não se apresenta como especialista e faz questão de deixar claro que sua fala parte de quem enfrenta a doença.
“Eu não quero falar como professor, quero falar como alguém que vive isso na própria pele. Eu quero transformar a minha experiência em um alerta para outras pessoas não precisarem passar pelo mesmo caminho. Eu vivi na pele, agora quero usar o que vivo para cuidar de outras peles”, diz. Com esse propósito, passou a desenvolver um trabalho de conscientização em praças, parques, ruas e feiras.
Leva banners, fotografias e informações e aborda quem encontra pelo caminho. Em vez de palestra formal, prefere se aproximar e conversar. “Não é uma palestra, mas uma abordagem informal, uma conversa olho no olho, pois tenho o poder de fala, pois sou eu, eu vivo isso o tempo todo”, comenta. A escolha de ir até as pessoas nasceu da percepção de que não bastava esperar que a informação chegasse a quem precisava dela.
Nessas conversas, fala de feridas que não cicatrizam, pintas que mudam de cor, lesões que crescem e outras alterações persistentes. Também insiste que os cuidados com a pele não devem aparecer apenas no verão, na praia ou durante as férias. “O corpo avisa”, costuma dizer. Para ele, observar esses sinais e procurar um profissional de saúde quando uma alteração persiste são atitudes necessárias durante todo o ano.
Foi dessa mesma necessidade de alcançar outras pessoas que nasceu Sob o Sol da Esperança, livro que será lançado no dia 27 de outubro, às 9h, no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), em Goiânia. A publicação reúne experiências acumuladas desde o diagnóstico, mas não se limita às cirurgias ou aos tratamentos. O autor quis registrar também sentimentos, dificuldades e relações que marcaram diferentes fases desse período.
“A ideia do livro nasceu da necessidade de transformar uma experiência muito difícil da minha vida em alguma coisa que pudesse ajudar outras pessoas”, conta. O primeiro leitor imaginado foi quem enfrenta uma situação semelhante. Depois vieram os familiares, porque, como ele próprio percebeu durante o tratamento, o câncer altera a vida de quem recebe o diagnóstico e também a de quem acompanha de perto esse processo.
Mas existe um terceiro leitor que talvez seja o mais importante para o propósito da publicação: aquele que nunca teve câncer de pele. O jornalista quer chegar a essa pessoa antes de um diagnóstico. “Quero que uma pessoa leia a minha história antes de precisar viver uma história como a minha”, comenta. É a mesma lógica que o leva aos parques e às praças. O livro permanece nas mãos de quem decide abri-lo; nas ruas, é ele quem dá o primeiro passo.
Após tantos anos de tratamento, não quer que as cicatrizes sejam recebidas apenas como registro de dor. Também não pretende transformar a própria história em ameaça ou medo. “Eu quero que as pessoas conheçam a minha história, não para terem medo do câncer, mas para entenderem que informação e prevenção podem mudar uma história”, afirma.
Para Almir, o sentido de colocar tantos anos no papel é bastante importante: se uma pessoa terminar a leitura e passar a observar a própria pele com mais atenção, procurar ajuda diante de uma alteração ou decidir não adiar o cuidado, o livro já terá cumprido a razão pela qual foi escrito.
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