Mais de 30 milhões de crianças podem enfrentar riscos climáticos com o El Niño no Brasil
Análise do Fundo das Nações Unidas para a Infância aponta impactos na saúde, na nutrição, no acesso à água e na educação
Goiás entra no período de maior influência prevista do El Niño sem levantamento público sobre o efeito do fenômeno nas escolas. Uma análise divulgada nesta quinta-feira (8) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indica que mais de 30 milhões de crianças e adolescentes no Brasil podem ser expostos a dois ou mais riscos climáticos com o avanço do El Niño.
A Secretaria de Estado da Educação (Seduc) informou, no início do ano letivo de 2025, que a rede estadual tem cerca de mil escolas nos 246 municípios goianos e atende cerca de 500 mil estudantes. Segundo o Censo Escolar 2024 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 86,8% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e 83,1% dos alunos do ensino médio em Goiás estudam na rede estadual.
Em nota, a Seduc informou que orienta as escolas da rede estadual a adotarem medidas preventivas para períodos de calor intenso e eventos climáticos extremos, com foco na segurança e no bem-estar de estudantes e profissionais e na regularidade das atividades escolares. Entre as orientações estão reforçar a hidratação, ventilar os ambientes, usar os equipamentos de climatização disponíveis e adequar as atividades. As aulas de Educação Física devem ser feitas prioritariamente em locais cobertos e em horários de menor incidência solar nos dias de temperaturas elevadas.
A pasta também orienta as unidades a acompanhar as condições climáticas e a adotar as medidas necessárias para preservar a segurança da comunidade escolar. Em situações que possam comprometer o funcionamento ou a integridade das pessoas, as providências variam conforme cada local e as orientações dos órgãos competentes. A Secretaria reforça ainda ações de conscientização sobre calor, sustentabilidade, uso racional da água e prevenção de doenças como a dengue.
Na rede municipal de Goiânia, o ano letivo de 2026 termina em 18 de dezembro, com 201 dias de aula. O segundo semestre começou em 3 de agosto e tem 92 dias letivos, o que faz o período de aulas coincidir com os meses de maior influência prevista do El Niño. A Secretaria Municipal de Educação (SME) ofereceu 36.744 vagas para estudantes novatos em 2026.
A SME enviou em 11 de agosto às escolas municipais e aos Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis) o Ofício Circular nº 029/2026, com orientações para reduzir os impactos do calor intenso e da baixa umidade do ar na rotina escolar, segundo a Prefeitura de Goiânia. A pasta recomenda reforçar a hidratação com água e sucos naturais e pede que as famílias incentivem as crianças a levarem a própria garrafa. Os cardápios passam a priorizar refeições mais leves.
Nas aulas de Educação Física, a SME orienta evitar esforço intenso e exposição prolongada ao sol nos horários mais quentes, com preferência por ambientes internos e áreas sombreadas. Também recomenda manter os espaços ventilados, com portas e janelas abertas quando possível, usar panos umedecidos e recipientes com água para umidificar o ar e cuidar da higiene dos ambientes para evitar o acúmulo de poeira.
As unidades podem adaptar as atividades pedagógicas ao clima, com rodas de leitura e piqueniques. Práticas com água, como banhos de mangueira e duchas, devem ter finalidade recreativa ou pedagógica, constar no planejamento escolar e ser feitas com segurança. Segundo a SME, essas ações não substituem medidas estruturais como a climatização adequada.
O documento do Unicef foi preparado pelo Centro de Excelência sobre Crianças e Resiliência Climática do órgão, na Tailândia, e aponta que secas, calor extremo, incêndios florestais, chuvas intensas e inundações podem prejudicar a saúde, a nutrição, o acesso à água, a educação e a proteção das crianças. O El Niño atual é apontado como um dos mais fortes desde 1950.
Na educação, o Unicef informa que falta de água, calor extremo, fumaça, inundações e danos à estrutura dos prédios podem interromper aulas e a alimentação escolar. O órgão recomenda que as redes de ensino revisem os planos de gestão de riscos e preparem alternativas para manter o aprendizado, como atividades em casa. Como exemplo, cita 2024, quando enchentes no Rio Grande do Sul afetaram 741 mil estudantes e a seca na Amazônia atingiu outros 436 mil, o que paralisou as aulas de 1,17 milhão de alunos. O Unicef afirma que esses números não significam que os eventos vão se repetir.
Para o Brasil, o Unicef indica a aplicação do Protocolo Nacional para a Proteção Integral a Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres, criado pelo governo federal em 2025, que articula Defesa Civil, saúde, assistência social, educação e direitos humanos.
Fenômeno deve persistir até o início de 2027 e pode trazer dias com 40°C em Goiás
Em Goiás, o Centro de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (Cempa) da Universidade Federal de Goiás (UFG) estima 100% de probabilidade de El Niño entre setembro e novembro de 2026. Os boletins do centro indicam que o fenômeno deve persistir até o início de 2027 e que os modelos preveem intensidade muito forte. A Climatempo projeta dias com temperatura igual ou superior a 40 graus Celsius em Goiás, principalmente na segunda quinzena de outubro.
O Governo de Goiás apresentou em agosto o Gabinete de Ações Integradas, que funciona de forma permanente e é coordenado pela Defesa Civil Estadual e pelo Corpo de Bombeiros Militar de Goiás. O objetivo é enfrentar a estiagem, os incêndios florestais e os efeitos do El Niño no ciclo 2026-2027. O governo também apresentou o Plano de Contingência Estadual para Estiagem 2026, que reúne 20 setores e prevê o mapeamento de municípios com abastecimento de água comprometido, o cadastro de populações vulneráveis ao calor e alertas de baixa umidade.
A Secretaria de Estado da Saúde apresentou o Plano de Emergências em Saúde Pública, com reforço nos estoques de soro e vacinas. Em Goiânia, a Prefeitura apresentou em 2 de outubro um plano municipal para eventos climáticos extremos, que inclui a Secretaria Municipal de Educação e concentra o acompanhamento na Defesa Civil.
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