segunda-feira, 12 de outubro de 2026
plano florestal

Plano Diretor Florestal prevê expansão de áreas plantadas em Goiás

Estratégia estadual estabelece metas de 205 mil hectares até 2030 e 270 mil hectares até 2035, após redução de 13,6% na área de florestas plantadas em 2025

Anna Salgadopor em
Plano Diretor Florestal prevê expansão de áreas plantadas em Goiás
Goiás registrou 106,4 mil hectares de florestas plantadas em 2025, ante 123,2 mil hectares em 2024 Foto: Marcelo Camargo/ABr

Goiás pretende ampliar a área de florestas plantadas de 106,4 mil hectares, em 2025, para 205 mil hectares até 2030 e 270 mil hectares até 2035. As metas fazem parte do Plano Diretor Florestal de Goiás, conduzido pela Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), com apoio do Sebrae Goiás, do Sistema Faeg/Senar, da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e de produtores rurais. A iniciativa busca ampliar a oferta de madeira para atender à demanda agroindustrial, com previsão de utilizar áreas de pastagens degradadas para a expansão da silvicultura.

Dados da Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que Goiás tinha 106,4 mil hectares de florestas plantadas em 2025, ante 123,2 mil hectares em 2024. A redução de 13,6% foi a maior entre os estados brasileiros, enquanto o país registrou crescimento de 4,8% no período. Em 2024, o consumo de eucalipto em Goiás chegou a 4,8 milhões de metros cúbicos, dos quais 67% foram destinados à produção de lenha.

A retração da área plantada ocorre em um cenário de expansão agroindustrial, com usinas de etanol de milho, laticínios e frigoríficos que utilizam biomassa em seus processos produtivos. O ciclo de produção do eucalipto, que pode levar cerca de seis anos até o corte, também exige planejamento antecipado para atender à demanda futura.

Carlos José Caetano Bacha, professor titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), analisa a concentração da produção florestal em grandes empresas, que priorizam o abastecimento próprio.

O pesquisador também destaca a necessidade de articulação entre o setor produtivo e o poder público para ampliar os plantios, considerando o tempo necessário para o crescimento das árvores e as incertezas sobre os preços futuros da madeira.

Zoneamento prevê uso de pastagens degradadas

O plano prevê a expansão das florestas comerciais em áreas já antropizadas, com o objetivo de evitar a conversão de vegetação nativa do Cerrado. O diagnóstico identificou que as pastagens ocupam 35% do território goiano. Desse total, 29% apresentam baixo vigor e 46%, vigor médio, segundo os dados utilizados no planejamento.

O zoneamento silvicultural identificou 8,16 milhões de hectares com potencial para receber florestas plantadas ou sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). A definição das áreas considera restrições ambientais e características territoriais. O levantamento excluiu 9% do estado em razão de limitações relacionadas a Unidades de Conservação, terras indígenas e quilombolas.

O território foi dividido em três zonas. A Zona A, de expansão prioritária, abrange regiões do Sudoeste, Oeste e Norte goianos. A Zona B prevê expansão moderada, com integração a sistemas produtivos, como a ILPF. Já a Zona C é destinada à manutenção das áreas florestais, com foco no consumo local e na conservação.

A presidente da Comissão de Silvicultura da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) e vice-presidente da Associação Goiana de Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas (Goflor), Daniela Romão, afirma que a implantação de florestas comerciais em áreas degradadas depende de critérios técnicos. Segundo a dirigente, terrenos com fragilidade ambiental podem exigir restauração ou regeneração natural, em vez da implantação de florestas destinadas à produção de madeira.

“Goiás tem um potencial enorme para a implantação de florestas plantadas. Nós temos hoje cerca de 8 milhões de hectares de áreas com esse potencial, que incluem pastagens degradadas e que podem receber a silvicultura”, afirma Daniela.

floresta desmatada
Foto: Divulgação/PF



Expansão da cadeia florestal em Goiás une proteção de recursos hídricos e geração de renda

Além da oferta de madeira, o planejamento florestal envolve a conservação da vegetação nativa e a proteção dos recursos hídricos. O pesquisador Marcos Pellegrini Coutinho, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), examina a relação entre o uso do solo e a ocorrência de eventos como inundações e deslizamentos.

“O processo inadequado e irregular de ocupação do solo, nas bacias hidrográficas, sejam estas rurais ou urbanas […] ocasiona desequilíbrio no comportamento hidrodinâmico do solo, podendo acentuar inundações e deslizamentos, em períodos de chuvas, devido à diminuição da capacidade de armazenamento de água no solo da bacia”, pontua Coutinho.

No Cerrado, a conservação da vegetação também está relacionada à recarga de aquíferos e à regulação do ciclo hidrológico. A proteção dessas áreas deve ser considerada no planejamento do uso do solo, especialmente em regiões sujeitas a períodos de estiagem e incêndios florestais.

O artigo 41 do Código Florestal prevê instrumentos de incentivo à preservação ambiental e à adoção de práticas produtivas sustentáveis. Em Goiás, o planejamento também se relaciona a ferramentas da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), como o licenciamento ambiental IPÊ, o Reflor, voltado à reposição florestal e aos créditos ambientais, e o Sistema de Cadastro Ambiental Rural (SIGCAR). Também integram esse contexto o Plano ABC+ Goiás e o Regulariza Campo.

Capacitação e estruturação da cadeia produtiva

O Sistema Faeg/Senar e o Sebrae Goiás participam da articulação entre o poder público, produtores rurais e empresas. O presidente do Sistema Faeg/Senar e do Conselho Deliberativo do Sebrae Goiás, José Mário Schreiner, destacou a mobilização das instituições para estruturar o setor antes da chegada de novos investimentos.

“Goiás está dando um passo à frente, mobilizando as instituições antes mesmo de o investimento chegar, para criar um ambiente mais estruturado e dar mais confiança para esse tipo de empreendimento”, afirmou Schreiner.

O dirigente também ressaltou a geração de empregos e renda no campo. No segundo pilar do plano, o Senar Goiás prevê ações de capacitação profissional e assistência continuada, com treinamentos em manejo florestal e produção em viveiros, atividades relacionadas à formação de mão de obra para o setor.

Demanda industrial e metas para 2035

A expansão de empreendimentos industriais em Goiás integra as projeções de demanda por madeira. Entre os investimentos citados no planejamento estão a usina da Inpasa, em Rio Verde, com aporte de R$ 2,4 bilhões; a Planalto, em Formosa e Cristalina, com R$ 1,8 bilhão; a São Martinho, em Quirinópolis, com R$ 1,1 bilhão; e a unidade da Cargill, em Cachoeira Dourada.

Segundo as estimativas apresentadas pelo setor, esses empreendimentos exigirão cerca de 70 mil hectares adicionais de eucalipto para atender à demanda de biomassa destinada à produção de vapor.

Gerido pela Seapa, o Plano Diretor Florestal estabelece quatro pilares estratégicos e prevê alcançar 205 mil hectares de florestas plantadas em 2030 e 270 mil hectares em 2035, com produção estimada de 8 milhões de metros cúbicos. A projeção é que Goiás alcance a décima posição nacional no setor.

O planejamento estima R$ 5,3 bilhões em investimentos, a geração de 4 mil empregos e a integração de 320 novos pequenos negócios à cadeia produtiva florestal.

 

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