Canetas emagrecedoras crescem no Brasil, mas uso por conta própria preocupa especialistas
Avanço do consumo e circulação informal acendem alerta para doses inadequadas, perda de massa muscular e efeitos adversos
A popularização das canetas emagrecedoras colocou o tratamento da obesidade no centro das conversas, mas também trouxe um problema paralelo: o uso sem acompanhamento médico. No primeiro trimestre de 2026, o consumo desses medicamentos cresceu 239% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo levantamento da Scanntech. A estimativa considera vendas formais e também o mercado informal, que pode responder por mais da metade das doses em circulação no país.
A pressa por resultados aparece entre as motivações. Na pesquisa, 29,5% dos entrevistados citaram o combate à obesidade como razão para recorrer aos medicamentos da classe GLP-1. A perda rápida de peso foi mencionada por 28,6%, enquanto manutenção do peso e controle do apetite apareceram com 24,1% e 23,8%, respectivamente.
Para a endocrinologista Jaqueline Fernandes, o risco aumenta quando o tratamento começa sem avaliação médica. “Quando a pessoa inicia o tratamento por conta própria pode começar com uma dose inadequada ou aumentar a dose mais rapidamente do que deveria, muitas vezes acreditando que uma dose maior vai proporcionar um emagrecimento mais rápido”, destaca.
A consulta é importante para verificar se há indicação, quais medicamentos o paciente já utiliza e se existe alguma condição que exija cautela. A própria redução do apetite precisa ser acompanhada. Comer cada vez menos pode favorecer deficiências nutricionais, anemia, fraqueza e queda de cabelo.
Um dos erros mais comuns, segundo a médica, é acreditar que aumentar a dose acelera o resultado. “Esses medicamentos precisam de uma titulação progressiva, respeitando o período de adaptação de cada paciente. Aumentar a dose por conta própria pode aumentar os efeitos adversos sem necessariamente trazer um benefício proporcional no emagrecimento. Outro erro é transformar a redução do apetite em uma permissão para não comer”, destaca.
A balança também pode esconder parte do problema. Sem alimentação adequada e atividade física, o emagrecimento pode vir acompanhado de perda de massa magra. A ausência de exames periódicos ainda pode deixar alterações nutricionais ou metabólicas passarem despercebidas.
Os efeitos adversos mais frequentes são gastrointestinais, como náusea, vômitos, diarreia, constipação, sensação de estômago cheio e dor abdominal. Em geral, aparecem com maior frequência no início do tratamento e nos períodos de aumento da dose.
Alguns sintomas, porém, exigem atenção imediata. Vômitos persistentes, dificuldade para manter líquidos, tontura intensa, redução da urina e sinais de desidratação não devem ser ignorados. “Dor abdominal intensa ou persistente também não deve ser banalizada, principalmente quando acompanhada de vômitos ou quando apresenta irradiação para as costas, pois é necessário descartar complicações como pancreatite”, afirma a médica.
Jaqueline também chama atenção para a procedência do produto, a concentração e o princípio ativo utilizado. Em um mercado que cresce rapidamente, a segurança do tratamento depende de algo que nenhuma promessa de perda de peso rápida substitui: acompanhamento, ajuste de dose e avaliação de como o organismo está respondendo.
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