terça-feira, 20 de outubro de 2026
memória goiana

História do Setor Oeste é marcada por mudanças urbanas em Goiânia

Planejado na década de 1930, bairro de Goiânia passou por disputas fundiárias, alterações nos espaços públicos e transformações na ocupação urbana

Anna Salgadopor em
lago das rosas
Foto: Gabriel Louza/O HOJE

Localizado entre o Setor Central e Campinas, o Setor Oeste passou por transformações urbanísticas desde a década de 1930. Planejado como área de expansão de Goiânia, consolidou-se como uma das regiões de maior densidade populacional da Capital, reunindo edifícios residenciais, clínicas, restaurantes, hotéis e sedes institucionais. Sua trajetória inclui mudanças no planejamento, controvérsias sobre áreas públicas, alterações nos espaços de convivência e impactos ambientais do adensamento urbano.

Com aproximadamente 2,74 km², o bairro reúne parques, praças e edifícios com mais de 30 pavimentos. Sua formação e consolidação foram investigadas pela pesquisadora e arquiteta Lyvia Caroline Pires, em dissertação desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Projeto e Cidade da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Segundo a pesquisadora, o estudo surgiu da necessidade de compreender as transformações de uma das regiões mais emblemáticas de Goiânia, desde o planejamento inicial até a configuração atual. A reconstituição histórica exigiu o levantamento de documentos, fotografias, recortes de jornais e relatos, devido à dispersão dos registros sobre a formação do bairro.

Planejamento urbano e reserva de áreas

A criação de Goiânia, na década de 1930, integrou a Marcha para o Oeste, projeto do governo de Getúlio Vargas executado em Goiás pelo interventor federal Pedro Ludovico Teixeira. O plano piloto de Atílio Corrêa Lima estabeleceu diretrizes para o Setor Central e delimitou áreas de expansão da Capital.

Nos primeiros projetos, a região do futuro Setor Oeste era delimitada pelo Bosque dos Buritis, a leste, e pelo vale do Córrego Capim Puba, a oeste. Após a saída de Atílio Corrêa Lima, em 1935, o urbanista Armando de Godoy, influenciado pelo conceito de cidades-jardins de Ebenezer Howard, passou a participar do planejamento.

A ocupação do Setor Oeste foi adiada até a consolidação dos setores Central, Norte e Sul, para evitar a dispersão populacional e o aumento dos custos de infraestrutura. A reserva da área para expansão futura foi formalizada pelo Decreto-Lei nº 90-A, de 1938.

Entre 1940 e 1942, o traçado do bairro foi definido sob a coordenação de José Amaral Neddermeyer e do arquiteto Jorge Félix de Souza, com participação de técnicos da Secretaria de Obras do Estado. O projeto combinou malha ortogonal, eixos monumentais simétricos, como as avenidas Assis Chateaubriand e República do Líbano, e quadras curvilíneas nas áreas de transição.

Parte das áreas verdes e públicas previstas foi reduzida ou destinada a outros usos. Para a urbanista e professora da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), Anamaria Diniz, essas alterações estão relacionadas à configuração posterior das vias do bairro.

Aprovação do loteamento e disputas fundiárias

Embora elaborado na década de 1940 e integrado à Planta Geral de Urbanização de 1947, o loteamento do Setor Oeste foi aprovado formalmente apenas em 15 de maio de 1956, pelo Decreto nº 71, assinado pelo prefeito João de Paula Teixeira Filho. As terras pertenciam ao engenheiro Abelardo Coimbra Bueno e a seus sócios.

Em reportagem publicada por O Popular em 24 de julho de 1994, o jornalista Danin Júnior abordou a aprovação e destacou que a área, embora constasse como pública no plano original, foi parcelada por Abelardo Coimbra Bueno e outros proprietários. Na ocasião, a arquiteta e servidora do Instituto de Planejamento Municipal (Iplan), Kátia Paiva, afirmou que os acervos oficiais não apresentavam justificativa pública para a mudança.

A Lei Municipal nº 176/1950 também alterou as exigências para loteamentos privados, dispensando os responsáveis da entrega de infraestrutura básica de abastecimento de água, esgoto e pavimentação, mas mantendo a obrigação de abrir as vias públicas.

Apesar de destinado às classes média e alta, o Setor Oeste teve os primeiros anos de ocupação marcados pela falta de serviços básicos. Os moradores enfrentaram problemas de abastecimento, lama, poeira e ausência de iluminação pública até a implantação da infraestrutura essencial.

 

Praça Tamandaré
Foto: Reprodução

Praças e parques acompanham a evolução do Setor Oeste

A ocupação do Setor Oeste foi marcada por mudanças no uso dos espaços públicos, como as praças Almirante Tamandaré e do Sol, o Bosque dos Buritis e o Parque Lago das Rosas.

A Praça Almirante Tamandaré, originalmente identificada como Praça E, foi inaugurada oficialmente em outubro de 1972. Nas décadas de 1950 e 1960, era um terreno sem equipamentos urbanos. Nos anos 1970 e 1980, tornou-se ponto de encontro da juventude e da intelectualidade boêmia, com bares frequentados por artistas, jornalistas e músicos. As pistas próximas recebiam ralis, exibições de motocicletas e rachas, que também provocavam riscos de acidentes.

Em 1988, a Prefeitura aprovou um plano de reurbanização elaborado pelo Iplan, que eliminou a pista rápida, estreitou as vias e implantou canteiros e centenas de mudas. Posteriormente, a praça passou a receber a Feira da Lua, voltada ao comércio informal e ao lazer nos fins de semana.

Projetada em 1947, a Praça do Sol começou a ser urbanizada na década de 1970 e recebe a Feira do Sol desde 1991. Em 2016, foi revitalizada e ganhou o letreiro “Eu amo Goiânia”. A região também registrou a expansão de estabelecimentos gastronômicos e comerciais em áreas antes ocupadas por residências.

O Bosque dos Buritis, considerado o patrimônio paisagístico mais antigo da Capital, perdeu cerca de 70% de sua área original de 40 hectares. Parte dos terrenos foi destinada a instituições como o Tribunal de Justiça, o Colégio Ateneu Dom Bosco e o Externato São José.

Já o Parque Lago das Rosas funcionava como balneário na década de 1940, quando recebia banhistas e saltos de um trampolim de concreto posteriormente tombado pelo patrimônio histórico. A área passou a abrigar o Zoológico de Goiânia e permanece como espaço de lazer em meio à expansão urbana.

A verticalização e a valorização imobiliária

Até meados da década de 1980, o Setor Oeste era caracterizado por palacetes e sobrados unifamiliares de baixa densidade. A partir do fim dos anos 1960, porém, a construção de edifícios começou a modificar a paisagem do bairro. O processo ganhou impulso com as leis de zoneamento de 1975 e 1980.

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO) aponta a utilização dos parques na publicidade imobiliária por meio do conceito de “natureza ao alcance do olhar”.

Na pesquisa desenvolvida pela UFG, Lyvia Caroline Pires analisa a relação entre a verticalização e as mudanças econômicas, urbanas e sociais do bairro. Segundo a pesquisadora, a diversidade de usos residenciais, comerciais, institucionais, culturais e de lazer contribuiu para a configuração de uma região com diferentes funções urbanas.

 

 

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Aniversário de Goiânia Goiânia setor oeste

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