Ansiedade, apatia e conflitos familiares; os efeitos da campanha que ficam depois da votação
Ansiedade, cansaço e incertezas marcaram a campanha eleitoral; preservar o bem-estar também pode significar estabelecer limites nas relações pessoais
Quem passou o domingo (25) atualizando a apuração no celular talvez tenha acordado nesta segunda-feira com a sensação de que a eleição ainda não terminou. O resultado já está definido, mas as conversas sobre o futuro do Brasil continuam à mesa, nos grupos de mensagens e no trabalho. Depois de uma campanha marcada pela mobilização nas ruas e por discussões intensas, o desafio é lidar com o cansaço emocional de uma disputa que, para muitos brasileiros, esteve longe de ser apenas uma escolha entre candidatos.
A apreensão apareceu nas pesquisas. Em setembro, 46% dos entrevistados pelo Datafolha disseram estar mais preocupados com a eleição presidencial do que em 2022. Na reta final, levantamento divulgado na sexta-feira (23) registrou 48% com medo do futuro do Brasil e 49% confiantes. Ao avaliar a situação do país, 62% relataram insegurança, 54% desânimo e 54% tristeza. Os números mostram o clima emocional da campanha, embora não representem diagnósticos de transtornos mentais.
Quando a preocupação afeta o corpo
O estresse prolongado pode se manifestar em noites mal dormidas, irritabilidade, dificuldade de concentração e tensão muscular. Às vezes, a preocupação aparece fisicamente, com coração acelerado, tremores ou sensação de falta de ar. Em episódios de pânico, essas manifestações costumam surgir de forma súbita, acompanhadas de medo intenso.
Não há levantamento nacional que permita afirmar que as crises de pânico aumentaram por causa das eleições de 2026. Ainda assim, todos nós conhecemos alguém que passou mal, perdeu o sono ou ficou emocionalmente abalado com a tensão dos últimos dias. São experiências que ajudam a compreender o desgaste provocado pela disputa, mesmo que não permitam medir sua frequência entre os brasileiros.
Há também quem reaja de outra maneira: depois de acompanhar pesquisas, discursos e discussões, já não queira ouvir falar de política. O desinteresse momentâneo pode estar associado ao esgotamento. Quando a apatia persiste, acompanhada de tristeza intensa ou dificuldade para cumprir atividades habituais, é importante investigar o que está acontecendo.
Quando a política chega às relações pessoais
As divergências eleitorais não ficaram restritas às redes sociais. Em muitas famílias, amizades e ambientes de trabalho, discussões sobre candidatos trouxeram à tona diferenças que ultrapassam preferências partidárias. Questões relacionadas a direitos, preconceito, violência e valores pessoais podem transformar uma conversa política em uma experiência dolorosa.
Nessas situações, preservar vínculos não significa aceitar qualquer comportamento. Há diferenças que podem ser discutidas com respeito, mas ninguém precisa permanecer em ambientes onde é humilhado, ameaçado ou discriminado. Estabelecer limites, interromper conversas ofensivas e até se afastar de determinadas relações podem ser decisões necessárias para proteger o próprio bem-estar.
O segundo turno também levou eleitores às ruas. Atos, encontros e mobilizações permitiram que pessoas compartilhassem preocupações e encontrassem apoio em grupos com os quais se identificam. Essa convivência pode oferecer acolhimento em momentos de incerteza, especialmente para quem se sente isolado diante de conflitos familiares ou sociais.
O que fazer depois da votação
Com a campanha encerrada, o organismo nem sempre acompanha imediatamente a mudança de ritmo. Quem passou semanas consultando notícias a todo momento pode continuar em estado de alerta, mesmo sem a expectativa de uma nova pesquisa ou da apuração dos votos.
Reduzir o tempo nas redes sociais, estabelecer horários para acompanhar os acontecimentos e evitar discussões agressivas são medidas que podem aliviar essa sobrecarga. O descanso também depende de hábitos cotidianos, como manter horários regulares de sono, praticar atividades físicas e reservar momentos para atividades prazerosas.
Para quem enfrenta ansiedade intensa, exercícios de respiração lenta podem ajudar a diminuir a tensão momentânea. Sintomas persistentes, crises recorrentes ou dificuldades que comprometam a rotina, entretanto, merecem avaliação profissional.
A definição do próximo presidente não encerra as incertezas sobre o futuro do Brasil. A composição do Congresso, as disputas em torno das políticas públicas e as decisões que serão tomadas nos próximos quatro anos mostram que os desafios vão além do resultado das urnas. Para muitos brasileiros, o dia seguinte à eleição marca o início de uma nova etapa, que exigirá atenção e envolvimento, mas também cuidado com o desgaste emocional acumulado durante a campanha.
A participação política, afinal, não termina com a votação. Fiscalizar os governantes, reivindicar direitos e acompanhar as decisões que afetam a população continuam sendo formas de exercer a cidadania. Isso, porém, não precisa acontecer à custa do sono, da saúde ou dos vínculos afetivos. Depois de uma intensa campanha, cuidar de si e de quem está por perto não significa abandonar causas importantes, mas preservar as condições para continuar presente nas discussões e nos desafios que vêm pela frente.
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