Milton Nascimento, 84 anos de uma voz que marcou o Brasil
Da infância em Três Pontas ao Clube da Esquina, cantor construiu uma obra que atravessa gerações e recebeu homenagens de artistas e admiradores
Há canções que parecem acompanhar a vida inteira. Estão nas despedidas, nos reencontros, nas manifestações e nas lembranças de quem já não está por perto. Muitas delas têm a voz de Milton Nascimento. Aos 84 anos, completados na última segunda-feira (26), o cantor e compositor permanece entre os artistas que ajudaram a contar a história do Brasil por meio da música, transformando sentimentos individuais em experiências compartilhadas por diferentes gerações.
Nascido em 26 de outubro de 1942, no Rio de Janeiro, Milton perdeu a mãe biológica, Maria do Carmo Nascimento, ainda criança. Adotado por Josino e Lilia Silva Campos, cresceu em Três Pontas, no Sul de Minas Gerais, onde encontrou na música uma forma de expressão. Foi ali que conheceu Wagner Tiso, amigo de infância com quem iniciou uma parceria que atravessaria décadas.
O Brasil conheceria aquela voz em 1967, quando Travessia, parceria com Fernando Brant, conquistou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção. A interpretação de Milton chamou atenção pela intensidade e pelo timbre incomum. A partir dali, Bituca, como ficou conhecido, construiria uma obra capaz de transitar entre a delicadeza das relações humanas e as inquietações de seu tempo.
A música como encontro
Em Belo Horizonte, a amizade com Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes e outros músicos deu origem ao Clube da Esquina. O álbum homônimo, lançado em 1972, aproximou rock, jazz, música brasileira e experimentações sonoras, tornando-se uma referência para artistas dentro e fora do país.
A obra de Milton também acompanhou momentos decisivos da história brasileira. Durante a ditadura militar, suas composições deram espaço a sentimentos de resistência e esperança. Milagre dos Peixes, de 1973, enfrentou a censura, enquanto Coração de Estudante se tornaria uma das canções associadas à mobilização pela democracia.
Ao longo de mais de seis décadas, Milton construiu um repertório que ultrapassou os limites de sua geração. Músicas como Maria, Maria, Canção da América, Travessia e Nos Bailes da Vida continuam presentes no cotidiano dos brasileiros, seja nas interpretações de novos artistas, seja nas lembranças de quem acompanhou seus primeiros lançamentos. A permanência dessas composições mostra a capacidade de sua obra de encontrar novos públicos sem perder a ligação com aqueles que cresceram ouvindo Bituca.
Sua voz também alcançou o público internacional, com parcerias com músicos como Wayne Shorter e Herbie Hancock. Em 2022, encerrou as apresentações com a turnê A Última Sessão de Música. Três anos depois, foi homenageado pela Portela no Carnaval carioca e teve parte de sua história revisitada no documentário Milton Bituca Nascimento, dirigido por Flávia Moraes.
Um aniversário celebrado com música
Na última segunda-feira, as homenagens começaram nas redes sociais. Maria Gadú publicou fotografias ao lado do amigo, incluindo uma imagem dele com sua filha, Alice. “Feliz aniversário ao MAIOR artista do planeta! Ao meu grande amigo e amor da vida. Uma nação inteira te presenteando com a democracia!!!!! Honro tua caminhada, tua luta, tua música! Obrigada por TUDO, Bituca. TE AMO!”, escreveu a cantora.
Fafá de Belém também deixou sua mensagem: “Parabéns, Bituca! Muito amor pra ti”, comentou. O ator Luis Lobianco acrescentou: “Que presente, hein Bituca! Você sempre trazendo amor e sorte pro Brasil! Parabéns”.
Em Três Pontas, a cidade onde cresceu, os sinos do Santuário Nossa Senhora d’Ajuda tocaram 84 vezes em homenagem ao músico. A programação também reuniu estudantes e a Corporação Musical Luiz Antônio Ribeiro. Na quarta-feira (28), as comemorações continuam com o sarau Três Pontas canta Milton, às 19h, na Casa da Cultura Alfredo Benassi, com participação de Telo Borges.
O carinho recebido aos 84 anos ajuda a dimensionar o lugar de Milton Nascimento na cultura brasileira. Suas canções continuam sendo descobertas, reinterpretadas e compartilhadas. Longe dos palcos, Bituca permanece na voz de quem canta suas músicas, nas histórias que elas despertam e na capacidade rara de fazer diferentes gerações reconhecerem nelas um pouco da própria vida.
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