Derrota de Flávio reconfigura forças no Congresso e pode desencadear disputa na direita
PL mantém as maiores bancadas, mas resultado presidencial aproxima governo com o Centrão; protagonismo da família Bolsonaro na direita pode ser posto em xeque
A derrota do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa pelo Palácio do Planalto contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve reconfigurar a correlação de forças no Congresso Nacional e abrir uma nova etapa na disputa por protagonismo na direita. Apesar do avanço nas eleições legislativas, o PL chega aos próximos quatro anos sem conquistar a presidência pela segunda vez consecutiva e terá de conciliar o peso das bancadas com os interesses da família Bolsonaro.
O partido elegeu 121 deputados federais e 28 senadores e terá as maiores bancadas nas duas Casas. Após o primeiro turno, a legenda já articulava a possibilidade de assumir a Presidência do Senado e construir uma base parlamentar ampla para um eventual governo Flávio. Com a vitória de Lula, as projeções perderam força e o governo ganha condições de reabrir negociações com partidos de centro que haviam apoiado o candidato do PL.
Para o cientista político e sócio da Metapolítica Consultoria, Jorge Mizael, o resultado produz efeitos distintos sobre a estrutura partidária e o projeto nacional dos Bolsonaro. “Como máquina partidária, o partido terá as maiores bancadas da Câmara e do Senado, seis governadores eleitos e, por consequência, a maior fatia do fundo eleitoral nos próximos ciclos. Como projeto de poder nacional, perdeu a segunda eleição presidencial seguida, desta vez depois de sair na frente no primeiro turno”, disse o cientista ao O HOJE.
Na avaliação do especialista, o principal impacto da derrota está na dificuldade da família Bolsonaro em manter o controle exclusivo sobre a direita. Sem a Presidência da República, o grupo terá de disputar espaço com lideranças que podem alavancar projetos próprios. Dentro do PL, a ex-primeira-dama e senadora eleita Michelle Bolsonaro é um dos nomes que pode ganhar relevância, enquanto, fora da legenda, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aparece como alternativa para 2030.
“O que sai enfraquecido é menos o partido e mais a pretensão da família Bolsonaro de comandar sozinha a direita. Flávio fica sem mandato a partir de fevereiro e a disputa por 2030 já começou, com nomes dentro do PL, como Michelle, e fora dele, como Tarcísio. Ao mesmo tempo, ganha peso o PL das bancadas, dos governadores e do Valdemar. A convivência entre essas duas lógicas vai marcar a vida interna do partido”, afirma Mizael.
A reeleição de Lula também altera os incentivos para os partidos de centro, que tendem a se aproximar do governo para preservar espaço nas negociações e na distribuição de poder. MDB, PSD e Republicanos reconheceram o resultado eleitoral e legendas que apoiaram Flávio no segundo turno passaram a sinalizar ao Planalto.
“A lógica do Centrão é estar perto de quem governa, e com a reeleição de Lula, o centro de gravidade volta ao Planalto. Isso já apareceu nas primeiras horas. MDB, PSD e Republicanos reconheceram o resultado e partidos que fecharam com Flávio no segundo turno começaram a buscar reaproximação com o governo. Se esse movimento ajudar a conter o PL, será mais efeito colateral do que propósito”, afirma Mizael.
Custo político
O especialista pondera que o governo continuará sujeito à negociação com essas siglas e que o fortalecimento do PL pode aumentar o custo político de cada acordo. “Só que eu não chamaria isso de alinhamento. O apoio do centro vai continuar condicionado, negociado votação a votação, e tende a sair mais caro. Um PL forte não empurra o Centrão para o governo. Ele encarece o Centrão para o governo, porque cada voto de centro vale mais quando existe, do outro lado, uma alternativa com 121 deputados e 28 senadores.”
O cenário é também uma vitória para os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). O projeto do PL de comandar uma das Casas estava associado, em parte, à possibilidade de vitória de Flávio.
“Motta e Alcolumbre saem mais fortes. O plano do PL de presidir uma das Casas dependia em boa medida de uma vitória de Flávio. Com Lula reeleito, governo e presidentes das Casas passam a precisar um do outro: o Planalto, para destravar sua agenda num Congresso mais à direita; Motta e Alcolumbre, para resistir à ofensiva do PL. É uma força de fiador, não de aliado incondicional. Não por acaso, os dois cumprimentaram Lula no domingo e, no mesmo pronunciamento, já fizeram cobranças”, diz o cientista político.
Na Câmara, a recondução de Motta aparece como um cenário mais consolidado. O deputado já recebeu apoio de 12 siglas do Centrão e da centro-esquerda. Somados, os partidos já ultrapassam a quantidade de votos que Motta precisa para ter um novo biênio como presidente da Casa.
Já no Senado a disputa é mais aberta. Com a maior bancada da Casa Alta, o PL deve apostar no senador Rogério Marinho (PL-RN) para tentar conquistar a presidência. O comando do Senado tem importância particular para o bolsonarismo porque cabe ao presidente da Casa dar encaminhamento aos pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
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