Disputa no PL é resultado do crescimento da legenda, avalia especialista
Cientista alega que aumento das bancadas na Alego e na Câmara dos Deputados não é resultado “trivial”; racha acontece em meio às incertezas do bolsonarismo após derrota de Flávio
A disputa pelo comando do Partido Liberal (PL) em Goiás coloca em lados opostos dois projetos para o futuro da legenda no Estado. De um lado, o senador eleito Gustavo Gayer busca ampliar a influência sobre a sigla e defende uma aproximação com o governador reeleito Daniel Vilela (MDB). Do outro, o senador Wilder Morais, atual presidente estadual do partido, tenta manter o controle da legenda.
O embate, que antecede a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial, ganhou novos contornos após o resultado das urnas. Embora o PL tenha ampliado sua representação política em Goiás, a derrota de Wilder na corrida pelo Palácio das Esmeraldas abriu espaço para questionamentos sobre a condução do partido.
A divergência não se resume à relação com o governo estadual. O conflito também envolve a capacidade de cada grupo de liderar uma legenda que cresceu eleitoralmente e precisa conciliar diferentes interesses.
Para o professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e cientista político Guilherme Carvalho, a crise nacional do bolsonarismo tende a ter influência limitada sobre a dinâmica regional. Na avaliação do docente, o PL goiano mantém força suficiente para negociar seus espaços políticos, apesar das divergências entre as principais lideranças.
“O PL está sofrendo da síndrome do crescimento. Quando [o partido] começa a crescer, algumas figuras que não se adequam exatamente à ortodoxia do comando geral esperado pelo bolsonarismo acabam sendo aos poucos rifadas para fora do partido. Um pouco do que está acontecendo com o Gayer tentando vencer o poder que o Wilder exerce no entorno da família Bolsonaro, muito ligado à influência política e econômica que ele tem”, afirma Carvalho.
O cientista político destaca que a representação na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), com cinco cadeiras, a eleição de quatro deputados federais, o maior número dentro da bancada goiana, e a eleição de Gayer para o Senado, que se juntará a Wilder. A estrutura parlamentar reduz o peso imediato da derrota presidencial sobre a atuação regional do partido, de acordo com o professor da UFG.
Aproximação com o governo
A relação com Daniel é um dos principais pontos de divergência entre os dois grupos. Durante a disputa pelo governo, Gayer esteve entre as lideranças do PL favoráveis a uma composição com o grupo governista, enquanto Wilder manteve a candidatura própria. Após a vitória do emedebista no primeiro turno, a aproximação passou a ser discutida novamente.
O movimento interessa ao governador, que pode ampliar sua base de sustentação na Assembleia, e ao grupo de Gayer, que busca aumentar o espaço do PL nas decisões estaduais. A aproximação também pode ter reflexos nas eleições municipais de 2028, quando a legenda buscará eleger mais prefeitos em Goiás do que em 2024.
Futuro da direita
A disputa em Goiás também ocorre em meio às incertezas sobre a reorganização da direita após a derrota presidencial. Com o bolsonarismo diante de um novo cenário nacional, lideranças do campo conservador podem buscar alternativas para manter influência política sem depender do clã Bolsonaro.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que esteve entre os cotados para ser candidato ao Palácio do Planalto antes de Flávio ser escolhido, é frequentemente apontado como um nome de destaque para o futuro da direita.
Porém, para Carvalho, a indefinição sobre os rumos do campo conservador para os próximos quatro anos não altera diretamente o cenário do PL em Goiás. O professor alega que a dimensão nacional não deve se sobrepor às particularidades locais, já que “não é trivial” o crescimento da legenda no Estado.
“Não é trivial o que aconteceu, o partido está muito fortalecido a nível local. Ele está rachado, mas é aquele tipo de racha que se resolve, basicamente, com delinear exatamente para onde vão os espaços”, conclui.
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