Caiado pode levar para o PSD a força política que construiu no União Brasil
Saída do ex-governador abre disputa por prefeitos e lideranças municipais; enquanto PSD tenta ampliar presença no Estado, Bruno Peixoto terá que trabalhar para manter o União Brasil como uma das principais forças políticas de Goiás
Bruno Goulart
A mudança de Ronaldo Caiado para o PSD coloca em questão o futuro do União Brasil em Goiás. O partido que chegou a 94 prefeituras nas eleições municipais de 2024 teve seu crescimento diretamente ligado à força política do então governador. Agora, com Caiado à frente de outra legenda, prefeitos, deputados e lideranças que construíram suas trajetórias ao lado dele terão de decidir se permanecem no União Brasil ou acompanham o ex-governador. O PSD, que elegeu apenas três prefeitos no Estado em 2024, passa a ter a possibilidade de crescer justamente com a estrutura política que ajudou a consolidar a antiga sigla.
A mudança também tem um componente de insatisfação. Caiado deixou o União Brasil depois de não conseguir o apoio da direção nacional para viabilizar sua candidatura à Presidência da República. O episódio aumentou o desgaste com a legenda, que, em Goiás, ganhou expressão eleitoral durante os dois mandatos do ex-governador. A força do partido nas eleições municipais não veio por acaso: foi resultado da articulação de Caiado com prefeitos, vereadores e lideranças do interior. Com a saída dele, a dúvida é se essa rede de aliados continuará vinculada ao União Brasil ou se seguirá o caminho de seu principal articulador.
Para o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, a transferência de lideranças para o PSD é uma possibilidade concreta. Ele avalia que a perspectiva de Caiado disputar novamente a eleição para Governo de Goiás em 2030, deve pesar nas decisões dos prefeitos, que costumam buscar proximidade com lideranças capazes de oferecer articulação e influência política.
“Sem sombra de dúvidas, ainda mais com o Caiado sinalizando que pode vir a ser candidato em 2030, é óbvio que vai haver uma movimentação de prefeitos do União Brasil para o PSD. Hoje, quem é a grande liderança do União Brasil do ponto de vista político-burocrático? É o Bruno Peixoto, não é a Gracinha Caiado. A questão é que as eleições começam na mesma base, têm a mesma origem, que são as prefeituras. Então, a bola da vez para crescer e se estruturar é o PSD”, afirma.
Na avaliação de Zancopé, o peso de Caiado no interior não está necessariamente associado ao número de filiados ou à estrutura formal do partido, mas à relação de confiança construída com as lideranças municipais. Por isso, a mudança de legenda pode provocar uma reacomodação da base que hoje está no União Brasil. “O caiadismo alimenta essa base com uma relação de fidelidade aonde o Caiado está. Então, se agora a bola da vez é o PSD, você pode ter certeza de que muito desses prefeitos vão para o PSD. Você acha que um prefeito do interior vai querer estar no União Brasil ou no PSD? Você acha que o Caiado vai atender primeiro o telefone do cara do União ou do PSD?”, questiona.
O caminho, entretanto, não está livre para o PSD. O MDB também tem uma presença histórica nos municípios goianos, construída por lideranças como Iris Rezende e Maguito Vilela. Além disso, a chegada de Daniel Vilela ao governo estadual tende a fortalecer a legenda e ampliar seu poder de atração sobre prefeitos e grupos políticos. Zancopé considera que o partido mantém uma capilaridade que outras siglas perderam ao longo dos anos. Na disputa pelo interior, portanto, o PSD terá de dividir espaço não apenas com o União Brasil, mas também com o MDB.
O ex-deputado federal e um dos fundadores do PSD, Wilmar Rocha, acredita que a reorganização partidária será gradual. Para ele, o período de transição entre o fim deste ano e os primeiros meses de 2027 será importante para que as legendas definam suas estratégias e reorganizem suas bases de olho nas próximas eleições municipais.
“O União Brasil só se fortaleceu nas últimas eleições porque era o partido do governador Caiado. A tendência agora é fortalecer o MDB, que é o partido do governador Daniel. Isso tem uma forte atração para prefeitos e lideranças municipais. Todos os partidos passarão, a partir de agora e até o ano que vem, por reestruturação e mudanças. Não apenas PSD e União Brasil. Todos vão querer se fortalecer para as eleições municipais”, afirma Wilmar.
O ex-deputado também defende uma aproximação entre PSD, MDB e PSDB por meio de uma federação. Na avaliação dele, os três partidos têm espaço no campo de centro e poderiam formar um bloco com maior capacidade de atuação no Congresso e nas próximas disputas eleitorais. A proposta reforça que a reorganização das siglas em Goiás também será influenciada pelas alianças nacionais.
Bruno Peixoto
Antes de chegar ao União Brasil, Bruno estava no PRD. Na ocasião, O HOJE chegou a apontar que o parlamentar precisava de “um partido para chamar de seu”. Agora, à frente do União Brasil em Goiás, ele tem uma legenda de grande capilaridade municipal e o desafio de impedir que a estrutura construída por Caiado migre para o PSD.
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