Desmatamento cai no Brasil, mas retalhamento da vegetação ameaça biodiversidade
Estudo do MapBiomas aponta que tamanho médio das áreas de mata nativa isoladas diminuiu 43% em 38 anos, o que aumenta o risco de extinção local de espécies
O Brasil apresenta um cenário de contrastes na gestão de seu território. Se por um lado os índices recentes indicam recuos nas taxas de desmatamento na Amazônia e no Cerrado, por outro, os remanescentes de vegetação nativa encontram-se em processo de fragmentação. Nos últimos 38 anos, as porções de mata originais do País, que restaram isoladas em meio a áreas de agricultura, pasto ou urbanização, ficaram 43% menores.
Os dados que revelam esse isolamento foram divulgados na Coleção 11 do módulo de Degradação do MapBiomas, apresentada durante a 17ª Conferência das Partes das Nações Unidas (COP17) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). Segundo o levantamento, o tamanho médio dos fragmentos de vegetação no Brasil caiu de 287 hectares em 1986 para 163 hectares em 2024. Enquanto as áreas encolhiam, a quantidade de recortes cresceu, passando de 2,35 milhões para 3,41 milhões de fragmentos isolados.
Essa segmentação afeta o fluxo da fauna e da flora. Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenador técnico do grupo de Degradação do MapBiomas, explica as consequências biológicas desse retalhamento. “[Essa segmentação] Reduz o fluxo gênico [transferência de material genético] e aumenta o risco de extinções locais”, pontua. Isso ocorre porque os espaços reduzidos dificultam a circulação de animais e a dispersão natural de sementes.
Os biomas mais afetados pelo isolamento são a Mata Atlântica e o Cerrado. A Mata Atlântica concentra 1,38 milhão de pequenos trechos, com uma área média de 25 hectares por fragmento. No Cerrado, as matas isoladas chegam a 957 mil porções, com média de 105 hectares cada.
A Região Centro-Sul do País abriga a maior parte desse retalhamento, com 49% do total de fragmentos do Brasil confinados nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás, São Paulo e Paraná. Na outra ponta, o Estado do Amazonas ainda mantém florestas contínuas, abrigando fragmentos com uma média de 4 mil hectares.
O isolamento impõe um segundo desafio para o ecossistema, que é a vulnerabilidade das bordas florestais. As bordas, faixas de 30 a 150 metros onde a mata encontra as áreas desmatadas, sofrem com ventos, incidência de sol e perda de umidade. Conciani adverte que quanto mais fragmentada fica a paisagem, menor é a área média de seus fragmentos, e isso aumenta a exposição aos efeitos de borda e ao fogo, especialmente em anos de eventos climáticos extremos.
Entre 7% e 18% de toda a vegetação nativa do País já se encontra sob esse efeito, com o Cerrado apresentando o maior volume absoluto de áreas afetadas, chegando a 32 milhões de hectares.
Apesar da fragmentação da vegetação remanescente, o País registra avanços na contenção de novos desmates. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que, entre agosto de 2025 e julho de 2026, a taxa de desmatamento na Amazônia caiu 41,8% em relação aos 12 meses anteriores. No Cerrado, a queda foi de 23,8%. Ambas as reduções representam as menores extensões anuais desmatadas das séries históricas desses biomas.
Para o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, os números refletem o resultado de políticas de fiscalização. “Quantas vezes não ouvimos essa frase de que é impossível obter o desmatamento zero? Estamos trazendo resultados concretos para os biomas Amazônia e Cerrado”, comentou.
O governo atribui a melhoria à intensificação das operações da Polícia Federal, com 8 mil inquéritos instaurados, ao fortalecimento do ICMBio e à atuação conjunta com Estados e municípios.
Ganhos financeiros
Um estudo publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), conduzido pelo economista Bráulio Borges, estimou que a redução do desmatamento entre 2023 e 2026 gerou ganhos de R$ 1,16 trilhão para a economia mundial ao evitar danos climáticos provocados por emissões de gases de efeito estufa.
Deste montante, o Brasil embolsou de forma indireta até R$ 192 bilhões, materializados “majoritariamente sob a forma de danos evitados, menos perdas de safras, menor estresse térmico sobre a produtividade do trabalho, menos eventos extremos”, descreveu Borges.
Os ganhos para a agricultura dependente da água gerada pelos rios voadores da Amazônia também garantem a viabilidade produtiva a longo prazo, indicando que conservar os remanescentes fragmentados e estancar novos desmatamentos fortalece a economia nacional.
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