Negros têm mais vontade de empreender, aponta pesquisa

Sonho de ser dono do próprio negócio só perde para o desejo de viajar pelo Brasil

Postado em: 04-12-2021 às 12h00
Por: Nielton Soares
Sonho de ser dono do próprio negócio só perde para o desejo de viajar pelo Brasil | Foto: Reprodução

Uma pesquisa realizada no Brasil mostrou que a população adulta negra é a que mais sonha em ter o próprio negócio. O levantamento é da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2020, e foi feito no país pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ). De acordo com o relatório final, mais da metade dos empreendedores empreendem por necessidade.

Entre os negros, abrir o próprio negócio é o segundo maior sonho, ficando atrás apenas para o de viajar pelo Brasil. Conhecer o país foi citado por 62,8% dos entrevistados. Já entre os brancos, o desejo de ter o próprio negócio ficou em terceiro lugar, perdendo para viajar pelo Brasil (63,4%) e para o exterior (57,6%).

“Esse desejo dos adultos pretos e pardos de serem os donos de seus próprios negócios fez com que no resultado geral, o sonho de empreendedor ocupasse a segunda colocação”, frisa o presidente do Sebrae, Carlos Melles. Para se ter ideia, no ano passado, segundo o estudo, 62,3% dos adultos pretos e pardos apresentavam o desejo de ser dono de uma empresa. Em comparação, a diferença é de 9,6 pontos percentuais com a população adulto de branco (52,7%).

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Para Melles, o sonho dos negros de empreender está codicionado ao fato de que a maioria deles terem mais dificuldade de conseguirem se firmar ou conseguir ocupação no mercado de trabalho, o que gera necessidade de outras alternativas. O estudo da GEM mostra que no grupo dos empreendedores pretos ou pardos, 53,3% dos empreendedores iniciais – aqueles com até 3,5 anos de negócio – empreenderam por necessidade, contra 47% dos empreendedores brancos.

“A ausência maior de oportunidades de emprego e renda para o público negro faz com que o empreendedorismo por necessidade seja mais forte entre eles. Esse comportamento é influenciado também por aspectos culturais, que interferem, inclusive na escolaridade”, aponta o presidente do Sebrae.

Na questão de escolaridade, a GEM 2020 detectou que entre os empreendedores no Brasil, os pretos ou pardos possuem uma escolaridade inferior à dos brancos. Entre os empreendedores iniciais pretos ou pardos, 17% tinham superior completo ou mais. Entre os empreendedores iniciais brancos, 34% possuíam superior completo ou mais. Já no grupo dos empreendedores estabelecidos, os percentuais com superior completo ou mais eram respectivamente 14% e 38%. “Esses dados confirmam um grave problema social que é a diferença da escolaridade conforme a raça do empreendedor no Brasil”, salienta Melles.

Motivações

Dentre a motivação para começar um negócio no período analisado foi apontado a escassez de empregos. Assim, tanto para os brancos (80,6%) como para os pretos ou pardos (83,9%) o desemprego foi fator determinante para se buscar novas opções. “Fator altamente influenciado pela pandemia do coronavírus, que encerrou, em 2020, um grande número de postos de trabalho”, lembra o presidente do Sebrae.

O segundo motivo destacado por quem deseja ou já empreende é fazer a diferença no mundo. Essa justificativa foi citada independentemente da cor/raça. Porém, entre os pretos ou pardos foi mais expressivo, alcançando 69,7%, contra 58,2% entre os brancos. Já a construção de uma grande riqueza ou uma renda muito alta foi escolhido como um dos motivos para 62,3% dos pretos ou pardos e por 51,8% dos brancos. E a motivação de continuar o negócio devido a uma tradição familiar obteve o menor percentual, menos de 30% para os dois grupos de raça. O levantamento apresentou também as atividades econômicas em que os negros estão mais à frente. No comércio, 8% são de propriedades de negros, 9% possuem estabelecimentos de beleza, como salões, e 13% têm bufê, catering e serviços de alimentação. Já os ganhos estão em média de até três salários mínimos (56%) e o faturamento fica entre R$ 6 mil a R$ 36 mil por ano (45,5%). 55% são homens e 45% são mulheres, o que representa pontos percentuais (p.p.) a mais do que as empreendedoras brancas (39%).

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