Jovens periféricos e humanização das lideranças nas empresa

Postado em: 05-04-2022 às 10h28
Por: Redação
Confira o artigo de opinião, desta terça-feira (05/04), por Kelly Lopes

Se por um lado as empresas buscam, cada vez mais, profissionais com conhecimentos em Tecnologia – e as vagas operacionais de Técnicos e Júniores estão concentradas em médias e grandes empresas, com remuneração mensal média que vai de um salário-mínimo até R$ 3.500,00 – por outro lado, o maior grupo de desempregados é formado por jovens. Para alcançar essas vagas, milhares de oportunidades de qualificação, com cursos gratuitos são anunciadas diariamente na Internet, inclusive com iniciativas patrocinados por empresas de Tecnologia. Se há vagas e oportunidades de qualificação para esse público, por que então que esta conta não fecha? Seriam os jovens desinteressados? Por que eles não estão ativos na internet, nos cursos, estudando, aprendendo?

A falta de qualificação é o motivo número 1 que depõe contra o ingresso de jovens nas primeiras experiências de trabalho. Na pandemia, a oferta de cursos online (até gratuitos) aumentou consideravelmente. Porém, para os jovens das classes D e E é quase impossível acompanhar esse mundo digital.

A realidade deles não está conectada no Wi-Fi, não tem celular de última geração para acompanhar as aulas (a maioria nem tem celular ou outros dispositivos) e, principalmente, boa parte desses cursos é focada em pessoas mais letradas no tema. Por contar com apenas um aparelho celular para toda a família, muitos pais tiveram que escolher qual filho ia estudar no sistema online durante a pandemia. Daí, quanto mais digital o ensino, mais excluímos esses jovens sem acesso às tecnologias. Essa é a realidade da maior faixa da população do país.

Portanto, é melhor abdicar do velho discurso da juventude desinteressada. Os jovens estão cada vez mais pressionados pelas exigências das empresas, restando a eles pouco tempo e nenhum recurso financeiro para incrementar sua educação.

No Brasil, 58% da população brasileira está na classe D (até 4 salários-mínimos de renda familiar mensal) e classe E (até 2 salários-mínimos). Está cada vez mais evidente que as políticas públicas e os investimentos das empresas em projetos de formação devem estar focadas nos jovens da periferia. Capacitar os jovens periféricos em Tecnologia, por exemplo, certamente é um grande passo social para a redução da falta da mão de obra neste mercado, e o principal parceiro das empresas que tem mais velocidade de transformação social, menor burocracia e chances reais de menor custo é justamente o Terceiro Setor.

O jovem de periferia, em geral, se forma no ensino médio e precisa primeiramente de um emprego para poder entrar na faculdade – e ela costuma ser paga. Prova disso é que 74% dos jovens no Brasil cursam a graduação no ensino particular. Na contramão dessa realidade, as empresas exigem primeiro a formação no ensino superior para depois dar a oportunidade de trabalho. Esse descompasso é o que mais prejudica o ingresso do jovem no mercado de trabalho.

De acordo com os cálculos da comissão para modernização da Lei da Aprendizagem, o Brasil tem um potencial de contratação de jovens aprendizes de 1,1milhão, porém apenas 400 mil estão empregados. Soma-se a esse cenário, o levantamento do Semesp (instituto que representa as mantenedoras do ensino superior no Brasil), que apontou o dado alarmante de cerca de 3,5 milhões de alunos que se evadiram de universidades privadas em 2021, uma taxa de 36,6% de evasão.

O estudo revela ainda que apenas 18% dos jovens de 18 a 24 anos no país estão no ensino superior e que a meta do Plano Nacional de Educação é aumentar esse índice para 33% até 2024. Ainda segundo o Semesp para um país desenvolvido, é necessário que cerca de 2/3 da população tenha escolaridade superior, pois só assim é possível ganhar em eficiência, em competitividade, em desenvolvimento de indústrias de ponta.

Os estudantes mais afetados são aqueles com maior vulnerabilidade social, e que com a pandemia, acabaram perdendo seus empregos e rendas advindas do trabalho informal, que exige menos qualificação, mas que remunera mal.

A inclusão não se baseia apenas na contratação. É mais que dar um emprego. É preciso entender que o jovem que mora na comunidade nem sempre tem infraestrutura física e familiar para fazer o home office. É preciso ter um espaço na empresa para que eles possam se sentir acolhidos e para que aprendam com colegas mais experientes. Compreender a realidade que os cercam que é exatamente aquela que evitamos conhecer de perto. Tem a ver com fome, com a falta de recursos, com a violência e a falta de perspectivas.

É preciso dar oportunidades reais, estar disposto a ensinar, incluir e pagar bem para esse jovem. Isso tudo começa pela sensibilização dos líderes. Antes mesmo de buscar um meio de capacitar seus recrutados jovens é fundamental que conheçam as dificuldades de acesso e de oportunidades que eles enfrentam para merecer estar empregado.

Enquanto as empresas buscarem os melhores alunos formados nas melhores universidades, o que vamos assistir é a continuidade do movimento conhecido em RH como “rouba monte” — constantes assédios a colaboradores por outras empresas. Inclusive, é na base da pirâmide dos técnicos e júniores que as empresas registram as maiores taxas de turnover nos primeiros 24 meses de trabalho.

A “humanização das lideranças” é essencial para que as empresas possam entender a situação social em que o Brasil se encontra e, principalmente, que é na classe D e E que está a massa bruta a ser trabalhada para estas vagas que não param de crescer. O 3º Setor, é um parceiro que reúne as principais qualidades para apoiar as empresas e as escolas a fazer este “match”.

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