Covid longa aflige mais mulheres que homens aponta estudo

Postado em: 23-06-2022 às 08h10
Por: Sabrina Vilela
Pesquisadores afirmam que 22% das mulheres possuem mais chances de desenvolver a síndrome do que homens | Foto: Pedro Pinheiro

A covid longa é uma síndrome em que as complicações persistem por mais de quatro semanas após a infecção inicial do vírus da Covid-19 podendo se arrastar por vários meses. É o caso da recepcionista Ana Cristina Pereira da Silva, 4. Ela teve Covid-19 há um ano, mas até hoje sente sequelas por conta da doença. Quando ela teve a doença os sintomas duraram por 20 dias. 

“Tive a doença e depois foi ficando pior. Me deu começo de trombose, muita dor nas articulações, ouvido inflamado e até mastite na mama esquerda. Fiquei muito desanimada. Meu pulmão teve comprometimento  25%, mas sentia muito cansaço”, relata. 

Para ela esses momentos foram muito difíceis porque o medo a fez entrar em desespero já que ela trabalha em uma clínica de imagem e presenciou muitas pessoas sofrendo por conta da doença. “Como ainda não tinha vacina e muitas pessoas próximas morreram, fiquei bem preocupada. Por isso mecheu muito com meu psicológico, também um medo estranho. Vi muita gente sofrendo no meu trabalho sem  conseguir respirar mesmo, então acaba que fiquei bem tocada com o sofrimento”, relembra. 

Ana Cristina teve que passar por um tratamento com uma pneumologista que para ela foi “uma benção”, e também, teve que fazer uso de vitaminas até terminar a recuperação. No entanto, ela enfrenta as sequelas do que viveu. “Depois que tive Covid notei muitas mudanças na minha memória, cheiro e gosto”. Atualmente ela não faz mais uso de medicamentos para a doença em específico, mas se preocupa em cuidar da alimentação, mente e fazer exercícios físicos com regularidade”. 

Reflexos da Covid longa

A revista científica Current Medical Research and Opinion, mostra que as mulheres são mais propensas a sofrer de covid longa do que os homens, que além disso podem apresentar sintomas distintos.  Para a pesquisa foram analisadas cerca de 1,3 milhão de pacientes, e foi observado por Pesquisadores do Johnson & Johnson Office of the Chief Medical Officer Health of Women Team que a covid longa está mais presente em mulheres e os sintomas mais comuns são problemas de ouvido, nariz e garganta, distúrbios do humor, neurológicos, cutâneos, gastrointestinais e reumatológicos, assim como o cansaço. Os pacientes do sexo masculino, no entanto, eram mais propensos a apresentar distúrbios endócrinos, como diabetes e distúrbios renais.

Na tese os pesquisadores afirmam que “As diferenças na função do sistema imunológico entre mulheres e homens podem ser um importante fator de diferenças de sexo na síndrome da covid longa. As mulheres montam respostas imunes inatas e adaptativas mais rápidas e robustas, que podem protegê-las da infecção inicial e da gravidade. No entanto, essa mesma diferença pode tornar as mulheres mais vulneráveis a doenças autoimunes prolongadas”.

Os autores apontaram também que diferenças sexuais os resultados foram relatadas durante surtos anteriores , mas no caso de infecções por meio do Sars-Cov-2 entre homens e mulheres poderiam ter sido antecipadas. No entanto a maioria dos estudos “não avaliou ou relatou dados granulares por sexo, o que limitou os insights clínicos específicos do sexo que podem estar afetando o tratamento”.

Pacientes que saíram da UTI tem mais chances de ter covid longa

O médico sanitarista Sérgio Zanetta, professor de Saúde Pública e Epidemiologia do Centro Universitário São Camilo – SP, em entrevista ao jornal O Hoje afirma que a vacinação ajudou muito a prevenir casos mais graves de Covid e também as sequelas que estão associadas aos casos da doença. Ele explica que na covid longa os casos podem persistir por mais de dois meses é que é mais recorrente em pessoas que tiveram que ficar internadas em UTI. 

“Estudos da Organização Mundial da Saúde [OMS] apontam que esses sintomas podem ser fadiga, falta de ar, dificuldade para respirar, disfunção cognitiva, ou seja, dificuldade para articular pensamento, memória, atividades de multi-tarefas. Então são um complexo de problemas cardiológicos, neurológicos e de disposição física que podem afetar a pessoa por longos períodos, mais de dois meses que pode persistir por anos ainda não sabemos exatamente até quando”, exemplifica o especialista.

Zanetta afirma que não há um indicativo da covid longa, mas o que se sabe é que do total das pessoas internadas em UTI Covid uma parcela considerável pode demorar mais tempo para se recuperar. “Cerca de 60% a 80% das pessoas não vacinadas têm uma letalidade maior.  Dos que conseguem sobreviver, 60% têm covid longa por causa das sequelas da Covid. Dos pacientes que foram internados, mas que não foi em uti, 51% deles relataram uma piora da qualidade de vida três a nove meses após a internação, então podemos associar que o tempo que a pessoa permanece internada no hospital que dá indício da gravidade do caso o tempo em que ela ficou em ventilação mecânica , entubada, aumentam as chances de piora na qualidade de vida. Isso é pior ainda para pessoas com idosos, obesas com histórico de tabagismo”. 

Segundo ele, dados da OMS mostram que de um modo geral 44% das sequelas são físicas e 39 a 40 são cognitivas e mentais. Não tem um tratamento específico para covid longa, pode ser sintomas mais leves ou mais graves como arritmias cardíacas, infarto agudo do miocárdio, Acidente Vascular Cerebral (ABC) ou também alteração na função cognitiva. “Como a Covid afeta vários sistemas não há um tratamento e uma reabilitação específica é necessário se fazer uma análise global do caso para restituir ou aumentar a qualidade de vida com as limitações que a pessoa ficou em decorrência do problema”, conta o especialista. 

Para o médico, a melhor forma de lidar com essa nova realidade é por fazer uma abordagem do caso de covid longa de um modo generalista e também é necessário que profissionais de saúde atuem com equipe de multiprofissionais e olhem o quadro como um todo.

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