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Cidades

Primavera em tempos de cólera

Postado em: 11-11-2017 às 06h00
Frente a podas de árvores cada vez mais frequentes, planta famosa pelas pétalas vermelhas oferece aos olhos de quem passa pela capital não só cores, mas novas perspectivas

Guilherme Araujo*

Ao caminhar pelas ruas da Capital entre os meses de outubro e dezembro, a trilha sonora poderia muito bem ser “Perto do Fogo”, sucesso de Cazuza eternizado na voz de Rita Lee. Uma analogia bastante válida, se feita em relação às cores quentes que tons alaranjados e o vermelho-sangue das pétalas de Flamboyant conferem a Goiânia – um espetáculo de beleza, típico do Cerrado, que faz os velhos conhecidos ipês-amarelos saírem de cena, dando lugar a outra atração, tão interessante quanto.

É sob esta panorâmica, que ocasiona a impressão definitiva de que Goiânia ganha dias mais vívidos, que as lembranças da costureira Antônia Maria Borges, 37, se tornam indissociáveis à árvore. Foi à sombra de um velho Flamboyant que viveu sua infância, que classifica como divertida, e deu seu primeiro beijo: “Hoje, ao olhar para trás, vejo que esse Flamboyant, ainda existente na porta da casa dos meus pais, trouxe mais poesia a momentos importantes da minha vida. Penso até que pareço nostálgica ao relacionar estes acontecimentos a um cenário sem dúvida tão belo”, lembra.

Potencialmente considerada uma planta globalizada, já que possui um nome oriundo do francês, origem africana e o claro amor dos goianos, o flamboyant recebe nome científico de Delonix Regia. Tido como um símbolo da Primavera, é na transição para o Verão, durante os últimos meses do ano, que as flores aparecem. Dona de uma estrutura aparentemente simples que compreende quatro estruturas – cálice, corola, androceu e pistilo – as flores do Flamboyant possuem um tipo de pétala diferenciada, como explica o biólogo e professor José Wellington Gomes Lemos: “Tratam-se de flores grandes, coloridas, com diferenças claras se comparadas a outras espécies no que diz respeito ao tamanho e ao arranjo, estando fora do lugar convencional”. 

Em plena estação, o biólogo consolida a ideia de que o Flamboyant seja de fato um dos grandes representantes da época, vista explosão de cores que propicia ao ambiente em seu período de florada: “O auge acontece justamente neste período, em um movimento muito intenso”. Ele ainda destaca que se trata de uma planta excêntrica: “Quase não vemos folhas”.

Frente a esta popularidade, o Herbário da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolve estudos a nível regional com amostras da planta. Existem no Estado uma série de estudos que tornam a espécie amplamente conhecida. Ocasionalmente originando flores fora de época, o Flamboyant pode ainda, embora com uma destacada raridade, ser encontrado em cores distintas ao habitual vermelho, como o amarelo e o alaranjado, atingindo uma altura média de doze metros de altura.  

Urbanistas aconselham melhores maneiras de cultivar a espécie 

Utilizado de forma costumeira em ornamentações e intervenções urbanísticas, a paisagista Rose Campos Vaz explica que o Flamboyant é ideal para ser colocado em áreas amplas. De fácil reprodução, as sementes germinam sem problemas em cativeiros, ou ainda, em viveiros especializados. A propagação é fácil, já que possui um sistema de raízes axial, ou seja, com crescimento em direção ao centro da terra. 

No entanto, há desvantagens. Segundo a paisagista, caso seja plantado em locais com pouco espaços, pode causar sérios danos a calçadas e a sistemas de fiação: “A raiz é caracterizada por ser muito agressiva. A espécie também apresenta uma copa longa, o que sugere a ideia de que seja instalada em áreas onde não haja calçamento e tubulações.

Rose define ainda que o crescimento da planta é rápido e indicado para áreas de sombreamento, como parques e praças. Ela ainda ressalta o valor estético da planta. “O Flamboyant é uma planta muito bela, relevante no que diz respeito às cores das flores, tanto que utilizamos um nome alternativo para ele, a chamada Acácia Rubra. Sem dúvida, é um elemento fundamental para jardins tropicais, escolha que revisita sua origem”.


Retirada

Considerado por muitos um dos mais tradicionais e belos pontos da Capital, dezenas de Flamboyants foram retirados da Avenida Goiás Norte, no Setor Urias Magalhães, para dar passagem à construção do corredor do Ônibus de Transporte Rápido (BRT). Em clima de comoção, moradores viram o espaço verde dar local ao que será a estação de embarque, semelhante às plataformas do ônibus.

Moradora das imediações há quatorze anos, a vendedora Luzia Marinho, 42, diz que se sentia inspirada logo pela manhã ao caminhar algumas quadras de casa até ao trabalho, acompanhada pelas árvores. Para ela, a decisão de poda entristeceu o lugar: “Era tudo muito colorido, e agora convivemos em um cenário cinza, cheio de obras inacabadas. Porém, ainda há outros na cidade que possamos apreciar, tirar fotos. Tenho fé que com sorte, novos serão plantados”, anima-se.

Na ocasião, por meio de nota, a Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA) disse que a retirada das árvores fazia parte do cronograma das obras do BRT e que, por se tratar de uma necessidade, atrelada a uma licença ambiental, cerca de trinta novas árvores seriam plantadas no local - mudança que depende do andamento da construção. (Guilherme Araujo é estagiário do jornal O Hoje)  

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