quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Executivo x Legislativo

Crise entre Poderes reacende debate sobre semipresidencialismo no Brasil

Com o fortalecimento do Congresso, avaliação é que o País já vive um modelo híbrido, marcado por impasses e perda de governabilidade

Thiago Borgespor Thiago Borges em
Crise entre Poderes reacende debate sobre semipresidencialismo no Brasil
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

As crises entre Executivo e Legislativo tornaram-se recorrentes nos últimos anos da política brasileira. O poderio financeiro do Congresso Nacional — que, cada vez mais, consome grande fatia do Orçamento da União com as emendas parlamentares — fortaleceu o capital político dos parlamentares e aumentou o poder de barganha dos deputados e senadores. Na prática, o Executivo brasileiro tem tido dificuldades de governar com a atual força política do Legislativo — mesmo em uma governança de coalizão. A pujança atual dos congressistas levanta o debate sobre o semipresidencialismo no País. 

O ministro decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, afirmou recentemente que o tema é discussão frequente no Fórum de Lisboa — evento que reúne a cúpula dos Poderes e do empresariado brasileiro, conhecido como ‘Gilmarpalooza’ por ter o ministro como um dos fundadores. “Há algum tempo, no Fórum de Lisboa, nós temos discutido se não seria melhor para o Brasil se [o País] caminhasse para um semipresidencialismo, diante do vulto do poder que o Congresso tem assumido”, disse o magistrado em conversa com a imprensa na última quinta-feira (3), em Portugal. 

O ministro afirmou que o País vive um “modelo singular” em sua configuração política presente e mencionou as emendas parlamentares como parte importante de como funciona o sistema político brasileiro atual. Gilmar ainda citou que o Brasil deixou de ser um governo de coalizão. “Alguém tem brincado que nós produzimos agora um presidencialismo de colisão. Porque acaba gerando muitos conflitos […] Em verdade, nós estamos vivendo, talvez, um governo Executivo minoritário. Diante dos poderes que têm o Congresso Nacional, se não se constrói consenso, nós temos, de vez em quando, um cenário de graves impasses”, ressaltou o decano.

Leia mais: Daniel e Wilder participam de romarias em movimento de pré-campanha

“Brasil já vive uma situação de semipresidencialismo”

Para o professor aposentado da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP), Francisco Itami Campos, o Brasil já vive numa situação de semipresidencialismo. “O Congresso assumiu uma posição de governo, que interfere e, de certa forma, colocou o governo Lula marginalizado — com uma série de problemas para conseguir qualquer aprovação de questões no Congresso”, disse Itami. 

O especialista destacou que o atual Congresso, além de “muito fracionado”, possui muitos “interesses não públicos”. “É um Congresso viciado, num certo sentido. Com uma série de visões e interesses centrados fora da questão pública”, ressaltou Itami. O cientista político explicou que, em sua visão, o sistema atual é “forjado por interesses da direita, da extrema-direita e do centrão”.

Já o sociólogo João Coelho entende que os poderes “ainda estão divididos”. “O Congresso ampliou seu poder econômico, mas não significa que haja uma alteração na configuração para um semipresidencialismo. Embora para a composição da presidência da Câmara e Senado ainda tenhamos que eleger por maioria, os poderes ainda estão divididos, cabendo ao governo conseguir ampliar sua base para obter vitórias em suas proposições”, destacou o sociólogo.

Coelho ressaltou que os impasses atuais possuem outra motivação: a disputa eleitoral de 2026. “O Congresso não quer reduzir gastos, ao mesmo tempo não quer que o governo amplie impostos dos mais ricos. Isso cria uma camisa de força que pode enfraquecer o governo e consequentemente, o nome do presidente Lula na disputa eleitoral”, disse. 

A discussão em torno do semipresidencialismo é defendida por alguns caciques da política brasileira, como, por exemplo, o ex-presidente Michel Temer (MDB) e sempre ganha novos contornos quando há crises entre os Poderes. Por enquanto, as tratativas para o Brasil tornar-se semipresidencial são apenas especulações — resultado da força política que o Congresso Nacional exerce atualmente. (Especial para O Hoje)

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Veja também

stf

Lei Maria da Penha

STF amplia proteção da Lei Maria da Penha a casos de gênero

Ministros entendem que a motivação ligada à condição feminina deve prevalecer sobre a existênc...
Governo prevê que resposta ao tarifaço dos EUA não ficará pronta antes de dezembro

tarifaço

Governo prevê que resposta ao tarifaço dos EUA não ficará pronta antes de dezembro

Ministro do Desenvolvimento afirmou que Brasil ainda prioriza negociação com Washington e terá ce...
Equipe de Flávio Bolsonaro avalia encurtar transição da reforma tributária

Reforma tributária

Equipe de Flávio Bolsonaro avalia encurtar transição da reforma tributária

Grupo criado pela campanha também estuda rever benefícios concedidos a setores específicos e muda...
Cleitinho defende fim da escala 6×1 e propõe compensação para empresas

Escala 6x1

Cleitinho defende fim da escala 6×1 e propõe compensação para empresas

Candidato ao governo de Minas Gerais afirmou que apoia jornada 5x2, mas quer desoneração da folha ...
Haddad defende investigação de suspeitas envolvendo Lulinha e ex-assessor de Lula

declaração

Haddad defende investigação de suspeitas envolvendo Lulinha e ex-assessor de Lula

Candidato ao governo de São Paulo afirmou que eventuais irregularidades devem ser apuradas independ...
Daniel Vilela acelera carreatas por Goiás; estratégia dá visibilidade, mas pode afastar o olho no olho

CARREATA

Daniel Vilela acelera carreatas por Goiás; estratégia dá visibilidade, mas pode afastar o olho no olho

Vilela faz cinco carreatas pelo Vale do São Patrício nesta quarta-feira. Estratégia amplia visib...
Arruda concentra agenda no DF com sabatina, carreata em Taguatinga e lançamento de candidatura

POLÍTICA

Arruda concentra agenda no DF com sabatina, carreata em Taguatinga e lançamento de candidatura

Candidato ao Governo do DF cumpre agenda em Taguatinga e no SIA, com compromissos voltados ao setor ...
Daniel Goiânia

ELEIÇÕES 2026

Daniel Vilela abre campanha em Goiânia com adesivaço

Ato no Serra Dourada reuniu aliados e marcou retomada de um ponto simbólico da campanha de 2022