Daniel Vilela acelera carreatas por Goiás; estratégia dá visibilidade, mas pode afastar o olho no olho
Vilela faz cinco carreatas pelo Vale do São Patrício nesta quarta-feira. Estratégia amplia visibilidade, mas levanta debate sobre contato com o eleitor
O governador e candidato à reeleição Daniel Vilela (MDB) dedica esta quarta-feira (19) a uma agenda de campanha marcada pela circulação em cinco municípios do Vale do São Patrício, todos com compromissos em formato de carreata. A programação começa às 8h, em Itaguaru, passa por Uruana às 9h, Carmo do Rio Verde às 11h, Ceres ao meio-dia e termina em Rialma, às 13h. A estratégia permite ao candidato percorrer diferentes cidades em poucas horas, ampliar a exposição da candidatura e mobilizar apoiadores em uma região considerada importante para a disputa, mas também coloca em discussão o quanto uma agenda baseada em deslocamentos rápidos e aparições em cima de um veículo consegue produzir conexão efetiva com o eleitor. Em vez de uma agenda convencional, com reuniões, visitas e conversas diretas, Daniel aposta em uma sequência de atos coletivos que têm forte potencial visual e podem ser posteriormente explorados pela própria campanha nas redes sociais.
O bônus político da estratégia está justamente na capacidade de produzir imagem de força eleitoral. Uma carreata numerosa, com veículos acompanhando o candidato e pessoas nas ruas, oferece material para fotografias aéreas, vídeos, cortes para redes sociais e propaganda, além de transmitir aos aliados e ao eleitorado a percepção de que existe uma estrutura organizada em torno da candidatura. Também permite ao candidato estar fisicamente em várias cidades no mesmo dia, algo especialmente relevante em uma campanha estadual, na qual a presença territorial precisa ser distribuída por diferentes regiões. O ônus, entretanto, está na natureza desse contato: o candidato passa diante do eleitor, mas nem sempre consegue efetivamente conversar com ele. A mesma movimentação que produz uma imagem de mobilização pode incomodar moradores, interferir no trânsito e não necessariamente resultar em aproximação política. O desafio, portanto, é transformar uma agenda de grande alcance visual em presença eleitoral que vá além da fotografia.
O risco de virar apenas um candidato digital
É nesse ponto que a avaliação do cientista político Marcos Marinho ganha peso. Na análise dele, a carreata é uma das ferramentas de campanha com menor capacidade de conversão direta de votos e funciona principalmente como instrumento de visibilidade. “A finalidade é muito mais uma atividade estética, cênica”, afirma. Para Marinho, o formato pode demonstrar força, capacidade de mobilização e gerar imagens consideradas valiosas para as redes sociais, mas não substitui a presença efetiva do candidato nos territórios. Ele avalia que o contato físico precisa fazer parte de um processo contínuo de construção da candidatura, especialmente porque o eleitor precisa enxergar o político como alguém próximo e capaz de compreender e atender suas demandas.
A preocupação aumenta quando a estratégia de comunicação transforma o candidato em uma figura muito presente nas redes, mas pouco acessível fisicamente. Marinho trabalha com três pilares para avaliar o potencial eleitoral: presença, legitimidade e mobilização. A presença, segundo ele, pode até ser virtualizada, mas precisa também ser real, com participação nos bairros, nas comunidades e no cotidiano do eleitor. “Só passar dentro de um carro por uma cidade achando que isso vai dar voto, para mim é uma ilusão das mais infantis”, afirma. Na avaliação do cientista político, sem momentos de conexão física e proximidade real, a relação entre candidato e eleitor pode ficar difusa, especialmente em uma eleição na qual a disputa pela atenção ocorre simultaneamente nas ruas e no ambiente digital.
Marinho não descarta completamente a utilidade das carreatas. Para ele, o efeito pode aparecer principalmente na reta final, quando grandes mobilizações eventualmente influenciam eleitores que ainda estão indecisos e procuram sinais de quem está eleitoralmente mais forte. Nesse caso, a dimensão da carreata pode alimentar o chamado voto útil ou “voto de arrasto”, levando o eleitor a concluir que determinada candidatura tem mais chances de vitória. O próprio cientista político, porém, ressalta que esse efeito é incerto e que o eleitor pode mudar novamente de posição até o dia da votação. A questão colocada pela agenda de Daniel Vilela, portanto, não é se a carreata tem alguma utilidade, mas qual é o peso que ela deve ocupar dentro de uma estratégia eleitoral maior: como ferramenta de mobilização e comunicação, ela entrega visibilidade; como substituta do olho no olho, segundo a análise de Marinho, apresenta limitações importantes.
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