quarta-feira, 23 de setembro de 2026
NEGOCIOS

Uso de drones na agricultura cresce mais de 1000% e transforma rotina no campo

Setor saltou de 3 mil para 35 mil drones desde 2021

Otavio Augustopor em
Uso de drones na agricultura cresce mais de 1000% e transforma rotina no campo
Economia de até 40% em defensivos atrai produtores de médio e grande porte

A presença de drones na agricultura brasileira tem se ampliado de forma significativa, consolidando-se como uma das principais ferramentas da agricultura de precisão. Desde 2021, quando o uso agrícola dos equipamentos foi regulamentado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, o número de drones operando no setor saltou de cerca de 3 mil para mais de 35 mil unidades, segundo estimativas oficiais. O avanço tecnológico e a busca por maior eficiência explicam a rápida adesão, mesmo diante de altos custos iniciais.

Com múltiplas aplicações — da pulverização de defensivos à irrigação, semeadura e monitoramento de lavouras — os drones têm revolucionado a forma de produzir no campo. “Os ganhos são expressivos. Em áreas de relevo acidentado, conseguimos aplicar insumos com precisão e economia, algo impensável há poucos anos”, afirma um técnico do setor.

Eficiência no uso de recursos e aumento da produtividade

O diferencial mais valorizado pelos produtores está na combinação entre economia de insumos e rapidez nas operações. Equipados com câmeras, sensores e inteligência artificial, os drones detectam pragas, falhas de plantio, déficit hídrico e outros problemas antes que impactem a produtividade. Em fazendas de médio e grande porte, já são considerados indispensáveis.

Segundo relatos colhidos pelo Ministério da Agricultura, produtores que investiram na tecnologia conseguiram economizar até 40% na aplicação de defensivos, além de reduzir o desperdício de água e fertilizantes. O retorno financeiro, em muitos casos, ocorre em poucos meses. Um pecuarista de Mato Grosso, por exemplo, afirma ter recuperado um investimento de R$ 200 mil após utilizar o drone para pulverizar defensivos em mais de 2,5 mil hectares — o que, terceirizado, custaria cerca de R$ 400 mil.

“A produtividade aumentou e conseguimos alcançar áreas onde o trator atolava ou o avião não chegava, como morros e bordaduras de mata. Era uma dor de cabeça que sumiu”, relata o produtor.

Além disso, o Brasil acompanha a tendência global. O mercado internacional de drones voltados à agropecuária movimentou aproximadamente R$ 25 bilhões em 2024, segundo dados da consultoria Fortune Business Insights.

17 - 1 - NEGOCIOS
80% dos drones agrícolas no Brasil ainda são importados da China

Formação profissional e empregos no setor

Com a ampliação do uso, a demanda por mão de obra especializada cresceu. A atividade é regulamentada pela Anac e pelo Ministério da Agricultura, e o operador deve ser maior de 18 anos, estar cadastrado no Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e possuir certificação específica — como o curso de Aplicador Aéreo Agrícola Remoto (Caar), com carga mínima de 28 horas.

Atualmente, mais de 100 instituições brasileiras oferecem formação na área. Os salários variam de R$ 4 mil a R$ 8 mil mensais, podendo ultrapassar esse valor conforme a carga de trabalho. Há ainda modelos de remuneração por hectare pulverizado — entre R$ 3,00 a R$ 5,00 — ou participação percentual na produção.

“Falta gente capacitada. O mercado está crescendo mais rápido que a formação de profissionais”, afirma um instrutor da área. Ele relata ter deixado uma antiga profissão para se especializar no setor e hoje atua como professor e empreendedor. “A capacitação é um diferencial. Com o drone certo, um operador pode aplicar mais de 100 hectares por dia”.

Obstáculos tecnológicos e expansão do mercado nacional

Apesar do crescimento acelerado, o Brasil ainda depende fortemente de importações. Cerca de 80% dos drones agrícolas usados no país são fabricados na China. A produção nacional ainda é incipiente, mas o setor já começa a se estruturar, com algumas empresas investindo em pesquisa e desenvolvimento.

De acordo com o sistema oficial SARPAS, foram registrados mais de 150 mil pilotos e 100 mil equipamentos não tripulados no país somente em 2024. A maior parte é voltada ao setor agrícola, mas outras áreas, como segurança, inspeção de estruturas e mapeamento ambiental, também crescem.

A pesquisa “Uso de drones agrícolas no Brasil: da pesquisa à prática”, lançada pela Embrapa Soja em parceria com o setor privado, aponta que há carência de dados técnicos sobre pulverização com drones. Faltam estudos sobre volume ideal de calda, uniformidade das gotas e controle de deriva. O pesquisador Rafael Soares destaca o uso crescente de bicos rotativos — substituindo as tradicionais pontas hidráulicas — por garantirem maior precisão e controle no tamanho das gotas aplicadas.

Ainda segundo especialistas, o custo para montar um negócio de pulverização com drones envolve não só o equipamento — que pode custar entre R$ 80 mil e R$ 300 mil —, mas também acessórios, veículos de transporte, estrutura de apoio e capital de giro. O investimento total costuma ser três vezes o valor do drone. A prestação de serviços pode render de R$ 100 a R$ 400 por hectare, variando conforme relevo, vegetação, distância e complexidade da operação.

Perspectivas para o futuro: tecnologia que veio para ficar

Com o ingresso de jovens no agronegócio e o avanço da digitalização no campo, os drones devem se consolidar como uma ferramenta padrão nas fazendas brasileiras. Ainda causam estranhamento em algumas regiões, mas sua presença é cada vez mais comum nas grandes produções.

“Essa tecnologia veio para ficar. Ainda há desafios técnicos e logísticos, mas os benefícios superam. A agricultura de precisão depende disso para evoluir”, afirma um especialista em mecanização agrícola.

A expectativa é de que, com maior nacionalização da produção e capacitação de novos profissionais, os custos diminuam e a tecnologia se torne mais acessível. A revolução silenciosa dos drones está em pleno voo no agronegócio nacional — e sem previsão de pouso.

 

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