Campanha em Estados como Goiás será na base do “mais” e do “re”
Governadores populares graças a programas de transferência de renda vão ser seguidos por aliados e oposicionistas, adiando a volta do obreirismo
O eleitor quer o melhor para si, não necessariamente para a coletividade. O governante construiu 5 mil quilômetros de asfalto, mas ele está quase morando na rua por falta de dinheiro, que se lasque quem precisa de seu voto: para ele, o governante falhou em tudo. Poderia ter deixado na poeira e lama a rodovia que ele usa, desde que lhe repassasse um montante todo mês. Desse contentamento se origina o êxito dos programas de transferência direta de renda do poder público para o cidadão.
Todos os entes federativos têm, da União à Prefeitura de Anhanguera, menor cidade goiana, onde em 2022 Lula (PT) ganhou de Jair Bolsonaro (PL) de 458 a 396 votos. Em Goiás, três dezenas de projetos beneficiam as mais diversas camadas. Por isso, esperam-se campanhas na base do “re” e do “mais”. Vou replicar o que está dando certo, vou remodelar a bolsa tal, vou dar mais recursos para habitação, vou aumentar bem mais o número de inscritos etc.. E não adianta empilhar promessas para tentar convencer.
Não prometa e ganhe, depois faça
Observe-se o argumento e o desempenho recente de uma dupla goiana de muito sucesso, cada qual a seu tempo, Ronaldo Caiado e Marconi Perillo, água e óleo na política regional. Caiado venceu as duas últimas eleições de governador, com o feito inédito de ambas acabarem no 1º turno, e praticamente nada prometeu. Marconi perdeu as duas últimas eleições de senador para três adversários (Jorge Kajuru e Vanderlan Cardoso em 2018, Wilder Morais em 2022) que, salvo a forma transversal através da indicação de emendas ao Orçamento da União, nada fizeram de obras estaduais. Marconi, em quatro mandatos de chefe do Executivo, fez centenas.
Para dar ideia da disparidade, Kajuru conseguiu como vereador verba para uma unidade de diabéticos, Marconi havia feito a Rede Hugo (inclusive o Hugol) e o resultado foi 375% mais votos. Até este começo de 2026, não há perspectivas de retorno para o obreirismo. O vice-governador Daniel Vilela (MDB), o ex-governador Marconi Perillo (PSDB) e o senador Wilder Morais (PL), além dos nomes da esquerda, nada apresentaram em termos de promessa e a legislação aceita essa publicidade na pré-campanha.
Aquele eleitor do 1º parágrafo quer para si o que julga ser seu e ai de quem negar, derrota na certa. Diversos municípios e até o poderoso Estado de São Paulo estão implantando uma ideia antiga, tão antiga quanto a necessidade que supre: casa grátis. Esse filme esteve em cartaz durante muitos anos com Iris Rezende (1933 – 2021) e agora voltou graças a Caiado. A premissa é simples: se a família não está conseguindo quitar o aluguel, não adianta entregar-lhe um imóvel a prestação, pois vai permanecer sem condições de desembolsar. Cerca de 5 mil famílias, que antes moravam de favor ou em casa locada, agora estão sob teto quitado, têm quintal para plantar horta e um lugar para criar os filhos. Detalhe: não precisam pagar nada.
Casas grátis de Goiás não exigem que o beneficiário seja servente
As casas grátis têm uma diferença grande relativa às Vilas Mutirão, erguidas de uma hora para outra ao lado de rodovias. Eram casas de placa de cimento, cobertas por telhas Eternit/Brasilit, um calor de 50ºC à sombra. A primeira atitude do casal após guardar uns trocados era… desmanchar o máximo possível da casa. Nada de errado: o governo fazia o que era possível e o beneficiário, também. As de Caiado são casas de material completo. Outra diferença é a participação do beneficiário: nos projetos anteriores, ele tinha de trabalhar como servente ou pedreiro, conforme fossem suas habilidades. Num tempo praticamente sem desemprego, o dono da casa não tem como deixar seu serviço para auxiliar no levantamento das paredes.
Pois essa novidade antiga tende a ser vedete nas campanhas eleitorais. Está mais liquidado que o Banco Master o candidato que prometer casa cujo beneficiário tenha de sofrer com as prestações. É o que está ocorrendo neste momento. Os imóveis são financiados pela Caixa Econômica Federal, que está muito longe de ser uma repartição de assistência social. É uma instituição financeira e quer o seu em dia. Atrasou? Ela entra na Justiça e toma. Aquela família citada neste texto que morava de favor ou de aluguel é ejetada, fica na Rua da Amargura. Tem como o governo fazer alguma coisa? Não. Quer dizer, até tem, desde que tire dos cofres públicos em mais um programa social.
Projetos e até slogan inspiraram candidatos e governos
Diversos projetos de Goiás ganharam repercussão nacional. Basta dizer que a construção de Goiânia foi fundamental para se consolidar a ideia de mudança da capital da República para o Centro do País. A organização administrativa feita por Mauro Borges na 1ª metade dos anos 1960 foi copiada pelo País inteiro. A beleza estética das obras, com significados de liberdade e qualidade, foi o cartão de visitas de Leonino Caiado, que outros gestores levaram para suas administrações. Leonino conseguiu a proeza de deixar de lado o padrão stalinista de Oscar Niemeyer e compor seu portfólio com belezuras como o Estádio Serra Dourada.
As escolas bem feitas por Irapuan Costa Jr. e Ary Valadão também inspiraram prefeitos e governadores, além de ministros da Educação. Os mutirões de Iris Rezende, que vinham da tradição rural no interior do Estado, também tiveram vida longa e produtiva por outros Estados. Os governos do PT copiaram a Renda Cidadã implantada por Marconi Perillo e a transformaram na Bolsa Família, até hoje servindo a milhões de famílias. O mesmo Marconi fez os Vapt Vupts, que hoje são parte de administrações municipais e estaduais por todos os lugares.
Várias iniciativas de Ronaldo Caiado são observadas e copiadas. É o caso das moradias gratuitas, com diferenciais modernos se comparadas às de Iris Rezende, mas também de novidades tecnológicas, como as aulas de robótica. Conquistou os jovens ao colocar os tênis e os computadores em cada pé e em cada carteira de estudante, que o chamam de “Ti Caiado” nos vídeos do TikTok – que não são feitos pela estrutura de comunicação do governo.
O trabalho de Caiado também foi bastante copiado na pandemia e até na saída dela, com a criação de pasta exclusiva para a Retomada. Uma de suas primeiras atitudes foi semear na máquina pública a cultura da honestidade vigiada – o sujeito é instado a não cometer crimes, mas se optar pelo delito está consciente de que será pego, julgado e punido. De onde vem essa certeza? De mecanismos de gestão que começam no sistema de compliance, que em bom português significa que ou fica em conformidade com a lei ou é fora da lei – e, como prevê slogan imitadíssimo, se estiver fora da lei não vai ficar fora da cadeia.