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domingo, 1 de fevereiro de 2026
Tráfico de influência

Caso Banco Master revela lobby na política brasileira

Mais do que um escândalo financeiro, o caso Banco Master revela o funcionamento informal do poder em Brasília e expõe vínculos que atravessam partidos, governos e Poderes da República

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 1 de fevereiro de 2026
Caso Banco Master revela rede que une políticos, bancos e bastidores da política brasileira
Material reunido pela Polícia Federal aponta para um ecossistema de influência que conecta o Banco Master a lideranças política. Foto: Reprodução

Bruno Goulart

A eclosão do caso Banco Master provocou abalos profundos no mundo político, atingindo tanto a direita quanto a esquerda às vésperas da retomada dos trabalhos do Congresso Nacional. O motivo central desse temor comum não está apenas nas possíveis ilegalidades financeiras, mas no alcance político do esquema que começa a ser desvendado. Como analisa o mestre em História e especialista em políticas públicas Tiago Zancopé, ao O HOJE, a chave do caso está no “ecossistema” montado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para manter o banco de pé mesmo quando, na prática, ele já não teria condições de se sustentar.

Segundo Zancopé, esse ecossistema é formado por uma ampla rede de relacionamentos que envolve ex-presidentes do Banco Central, ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), além de deputados, senadores, governadores e líderes partidários. “Ele montou toda uma rede que passou a trabalhar para manter as aparências do Banco Master. Essa rede é, muitas vezes, a chave para entender como o bastidor do poder funciona”, afirma.

Reação do governo Lula

Nesse contexto, a reação pública do governo Lula em defesa das investigações ganha um significado específico. Para o analista, quando o presidente, Gleisi Hoffmann e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmam que é preciso “ir para cima” e esclarecer os fatos, a mensagem é clara: “o CPF está tranquilo”. Ainda assim, o avanço das apurações gera apreensão generalizada na classe política. “Para a classe política, não é bem assim. Quantos líderes partidários foram procurados, prestaram serviço ou conhecem alguém que agiu em nome do Daniel Vorcaro?”, questiona Zancopé.

É justamente essa capilaridade que transforma o caso em uma ameaça suprapartidária. À medida que as investigações da Polícia Federal — como a operação Compliance Zero — avançam sobre o ecossistema político do banqueiro, começa a emergir um retrato mais nítido do funcionamento informal do poder em Brasília. “A gente só sabe como começa, não sabe como vai terminar”, diz o especialista, ao comparar o potencial do caso Banco Master ao da Operação Lava Jato.

Além disso, Zancopé aponta que, se as relações entre banqueiros e agentes públicos fossem estritamente republicanas, o escândalo não teria essa dimensão. “No Brasil, muitas vezes, vale tanto o que está escrito quanto o que não está escrito. Tudo indica que, em maior ou menor medida, houve tráfico de influência”, afirma. O pânico, segundo ele, decorre do fato de que “todo mundo, em maior ou menor medida, teve algum tipo de contato com esse ecossistema”.

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Embora Vorcaro tenha transitado por todos os Poderes — Executivo, Legislativo e Judiciário —, o analista observa uma predileção maior por figuras ligadas à direita ou à centro-direita. Nesse grupo, o nome do senador Ciro Nogueira (PP), presidente do partido, surge como possível operador político central do banqueiro, ainda que Zancopé faça ressalvas. Outros atores também entram no radar, como o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), cuja situação pode se agravar conforme novos detalhes venham à tona.

Enquanto isso, no Planalto, a avaliação é de que o caso pode respingar em aliados, mas tende a atingir com mais força dirigentes do centrão e da oposição. Ainda assim, há divergências internas sobre a estratégia a adotar, como evidenciado pelo debate em torno de uma eventual CPI. A tensão também se estende ao Judiciário, especialmente em um ano sensível para o STF e para o TSE.

Zancopé ainda amplia o alcance da análise ao relacionar o caso Banco Master ao funcionamento do mercado financeiro. Para ele, as investigações podem lançar luz sobre a relação da Faria Lima com recursos de origem duvidosa, além da atuação de bancos, fintechs e consultorias que operam em Brasília para proteger interesses privados. “Quando você contrata o escritório de um ex-ministro e paga mais do que pagaria a qualquer banca renomada, você não está contratando só a assessoria jurídica. Está contratando quem ele conhece. Isso é lobby — e o lobby, no Brasil, já passou da hora de ser regulado”, conclui.

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