Filhos de Bolsonaro pressionam EUA por PCC e CV, diz NYT
Jornal afirma que governo analisa classificar facções como terroristas após pressão “filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro”
A possibilidade de os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas passou a ser discutida dentro do governo de Donald Trump após pressão de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. A informação foi publicada nesta sexta-feira (27), pelo jornal The New York Times, que aponta que o tema está em análise no Departamento de Estado.
Segundo a reportagem, a discussão ganhou força após contatos feitos por filhos de Bolsonaro com autoridades norte-americanas. O senador Flávio Bolsonaro esteve em Washington no ano passado, acompanhado do deputado Eduardo Bolsonaro, para reuniões com integrantes da Casa Branca e do Departamento de Estado.
“O governo Trump está considerando designar as duas maiores facções criminosas do narcotráfico brasileiro como grupos terroristas, após pressão de dois filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado do presidente Trump e atualmente preso”, afirmou o jornal.
De acordo com o The New York Times, durante a visita, Flávio Bolsonaro “apresentou às autoridades americanas um relatório sobre as atividades de gangues no Brasil e nos Estados Unidos […] O dossiê incluía detalhes do suposto tráfico de armas e lavagem de dinheiro”.

A reportagem também informa que, nos bastidores, aliados próximos de Bolsonaro atuaram por meses para convencer autoridades dos Estados Unidos de que as facções representam ameaça aos interesses de Washington. Entre os nomes citados estão Darren Beattie, enviado do governo Trump para o Brasil, e Ricardo Pita, assessor do Departamento de Estado, apontados como vozes favoráveis à medida.
Apesar das articulações, o processo ainda não foi concluído. O Departamento de Estado, responsável pela decisão, não comentou o caso, mas reconheceu ao veículo que as duas facções estão “sob sua vigilância”. Segundo a publicação, qualquer decisão interna ainda pode ser revertida.
Classificação lembra operação na Venezuela
O jornal destaca ainda que a Casa Branca argumenta que esse tipo de classificação é aplicado a grupos que representam riscos à segurança interna dos Estados Unidos, em geral ligados a cartéis do México. No caso brasileiro, porém, o NYT ressalta que “as gangues brasileiras, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, não desempenham um papel importante no tráfico de drogas para os Estados Unidos. Eles enviam cocaína principalmente para a Europa e outras partes do mundo”.
Uma eventual designação levanta preocupação no governo brasileiro. Segundo o veículo norte-americano, há receio de que a classificação “possa abrir a porta para operações militares unilaterais dos EUA no país”.
O histórico recente citado pelo jornal inclui ações dos Estados Unidos na Venezuela. De acordo com o The New York Times, a classificação de grupos como terroristas já foi utilizada para justificar operações na região, incluindo a ofensiva que resultou na prisão de Nicolás Maduro em janeiro deste ano.
“Trump usou a designação de gangues de drogas para justificar uma série de ações militares na América Latina, incluindo dezenas de ataques letais em barcos que ele disse, sem apresentar provas, estavam carregando drogas para os Estados Unidos”, afirmou o veículo.
Em declaração ao jornal norte-americano, Flávio Bolsonaro disse que não apoia a interferência estrangeira para solucionar problemas do Brasil com o narcotráfico, mas afirmou ser favorável à “cooperação internacional” sobre o tema. Eduardo Bolsonaro não respondeu ao pedido de comentário do NYT.