Especialista classifica como paliativo restringir caminhões na Marginal Botafogo
Estudo surge após erosões e intervenções emergenciais na Marginal Botafogo, com promessa de melhorar o trânsito e reduzir danos estruturais, mas levanta dúvidas sobre possível transferência do problema para outras faixas
A Prefeitura de Goiânia avalia restringir a circulação de caminhões na faixa da esquerda da Marginal Botafogo, uma das principais vias expressas da Capital. A proposta foi anunciada pelo prefeito Sandro Mabel (UB) e surge como alternativa para melhorar o fluxo do trânsito e reduzir impactos estruturais no asfalto, especialmente em trechos próximos ao córrego.
A medida, no entanto, ainda não conta com projeto definido. Em nota, a Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET) informou que o estudo está em fase de análise técnica. Segundo a pasta, são realizados levantamentos sobre a viabilidade da proposta, além da avaliação operacional, da sinalização necessária e dos possíveis impactos no tráfego. Ainda não há definição sobre prazos para eventual implementação nem detalhamento de como funcionaria a fiscalização.
A discussão ocorre em meio a uma série de intervenções recentes na via. Na última semana, um trecho da Marginal Botafogo, entre a Rua 21 e a Rua 10, precisou ser totalmente interditado após uma erosão comprometer a estrutura da pista. A obra, inicialmente prevista para durar até 15 dias, foi concluída em três dias, mas causou congestionamentos e transtornos nos desvios, sobretudo no início da semana.
De acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra), a erosão foi provocada por uma combinação de fatores, como infiltrações de água e a variação do nível do córrego durante o período chuvoso. O local já havia recebido intervenções paliativas anteriormente, inclusive com contenção por pedras, mas sem solução definitiva para o problema estrutural.
Ao justificar a possível restrição, o prefeito afirmou que o tráfego de caminhões pesados contribui para o desgaste do asfalto e para a instabilidade do solo nas proximidades do córrego. Segundo ele, veículos com cargas de até 60 toneladas exercem pressão sobre a pista, o que pode agravar processos de erosão. A ideia é manter esses veículos nas faixas da direita, consideradas mais adequadas para o tráfego lento, enquanto a faixa da esquerda ficaria restrita a veículos leves.
Para especialistas, no entanto, a proposta não enfrenta a raiz do problema. O especialista em mobilidade urbana Marcos Rothen classifica a medida como emergencial e insuficiente. “É apenas um paliativo. É como quando temos uma goteira em casa na hora da chuva, usamos um balde, mas com urgência temos que resolver a causa da goteira. No caso da marginal essa situação emergencial deve ser resolvida rapidamente”, afirma.
Rothen alerta que a restrição pode apenas transferir o problema para outras faixas da via. “Com o passar do tempo, até mesmo a faixa da direita pode ficar insegura”, diz. Ele destaca o risco da situação se espalhar para a outra faixa. “Às erosões vão se entendendo. Pode tanto causar acidentes graves e até a interdição da marginal”, continua.
O especialista também aponta falhas históricas no planejamento urbano da Capital. Segundo ele, os problemas estruturais da Marginal Botafogo se acumulam ao longo das gestões. “É uma situação típica de Goiânia. Os problemas vão sendo deixados para a próxima administração”, critica. Rothen explica que não existe um projeto consistente para uma solução duradoura, nem para as enchentes, nem para a condição das pistas.
Além das erosões, Rothen menciona a recorrência de buracos e o alto volume de veículos em uma via marcada por velocidade elevada. Para ele, medidas pontuais já não são suficientes diante da gravidade do cenário. “Soluções paliativas já não podem ser aceitas”, avalia.
Projeto proposto para Marginal Botafogo tem previsão de investimento de R$ 600 milhões

A prefeitura afirma que trabalha em um projeto mais amplo de requalificação da Marginal Botafogo, com previsão de investimentos superiores a R$ 600 milhões. A proposta inclui a construção de piscinões para contenção de água, reforço estrutural das pistas e intervenções ao longo de toda a extensão da via, que tem papel estratégico na ligação entre diferentes regiões da Capital.
Segundo apurado pelo jornal Daqui, a execução, no entanto, deve ocorrer por etapas, como forma de evitar a interdição total da via por longos períodos. Segundo o prefeito, uma obra integral poderia exigir bloqueios por mais de um ano, o que é considerado inviável diante da importância da marginal para o tráfego urbano.
Enquanto a solução definitiva não sai do papel, Rothen defende que decisões pontuais precisam ser melhor fundamentadas. “Pela importância da marginal, é fundamental que a prefeitura encontre uma maneira de fazer a reforma completa”, conclui.
A discussão sobre a restrição de caminhões evidencia um dilema recorrente na gestão urbana: equilibrar ações emergenciais com planejamento de longo prazo. Sem clareza sobre a eficácia da medida e sem um cronograma definido para intervenções estruturais, a proposta segue em análise e sob questionamento, enquanto motoristas continuam enfrentando os reflexos de uma via marcada por problemas antigos e soluções ainda indefinidas.