segunda-feira, 19 de outubro de 2026
STF EM DESCRÉDITO

Crise de confiança no STF cresce com maior exposição e papel político da Corte

Especialista aponta que visibilidade, decisões de impacto e perfil dos ministros ajudam a explicar desconfiança; ainda assim, maioria reconhece importância do Tribunal para a democracia

Bruno Goulartpor em
STF
Foi a criação da TV Justiça, ainda nos anos 1990, que aproximou o STF do cidadão comum. Foto: STF

Bruno Goulart

A crise de confiança enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) é resultado de um conjunto de fatores que se intensificaram ao longo das últimas décadas. A avaliação é do mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, que analisou o tema em entrevista ao jornal O HOJE. Segundo Zancopé, a relação entre a sociedade brasileira e a Corte é relativamente recente e mudou profundamente com o aumento da visibilidade dos ministros e das decisões judiciais.

De acordo com o especialista, foi a criação da TV Justiça, ainda nos anos 1990, que aproximou o STF do cidadão comum. “A gente foi apresentado, enquanto sociedade, ao STF de forma pública a partir da TV Justiça”, afirma. Antes disso, durante o período da ditadura militar, o contato da população com o Tribunal era bastante restrito. 

Na prática, apenas setores ligados ao Direito tinham acesso mais direto à atuação da Corte. Assim, o entendimento popular sobre o STF começou a se formar há cerca de 30 anos, um tempo considerado curto para consolidar uma percepção mais profunda sobre o papel institucional do tribunal.

Virada de chave

Com o passar dos anos, no entanto, esse cenário mudou. Inicialmente, os ministros eram vistos como figuras discretas e altamente técnicas, distantes de polêmicas. Porém, a partir de julgamentos de grande repercussão, como o mensalão, e da atuação de nomes mais midiáticos, como Gilmar Mendes, o STF passou a ocupar espaço central no debate público. Consequentemente, a população começou a conhecer não apenas as decisões, mas também as trajetórias e, em alguns casos, os vínculos políticos dos ministros.

Esse processo, por um lado, ampliou a transparência. Por outro, abriu espaço para questionamentos. “Hoje há o reconhecimento de que existe também um componente político nas decisões”, explica Zancopé. Segundo o historiador, isso ocorre porque o STF passou a julgar temas de grande impacto social e político, muitas vezes diante da omissão do Legislativo e do Executivo. Dessa forma, a Corte assumiu um papel mais ativo, o que elevou tanto sua relevância quanto o nível de cobrança por parte da sociedade.

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Além disso, a forma de indicação dos ministros também passou a ser mais questionada. Casos como a nomeação de Cristiano Zanin e Nunes Marques geraram debates públicos sobre critérios técnicos e possíveis influências políticas. “Hoje, a população observa currículos, acompanha votos e forma opiniões. Esse tipo de análise era muito menos frequente no passado”, destaca o especialista.

Outro fator que contribui para a crise de confiança é a maior exposição dos ministros. Participações em eventos, entrevistas e posicionamentos públicos ampliam a proximidade com a sociedade, mas também aumentam o risco de desgaste da imagem institucional. Nesse sentido, Zancopé aponta que há um debate crescente sobre a necessidade de equilíbrio entre transparência e discrição. “Um comportamento mais contido poderia ajudar a recuperar parte da confiança pública”, avalia.

STF em descrédito

Esse diagnóstico é reforçado por declarações de integrantes da própria Corte. A ministra Cármen Lúcia classificou a crise de confiabilidade no Judiciário como “grave”, enquanto o presidente do STF, Edson Fachin, reconheceu a necessidade de reflexão sobre os limites de atuação do Tribunal. Ambos defendem que a instituição precisa se adaptar aos novos desafios sem repetir práticas do passado.

Dados recentes também evidenciam essa contradição na percepção pública. Pesquisa Datafolha mostra que 75% dos brasileiros acreditam que o STF tem poder excessivo e que a confiança na Corte diminuiu. Ao mesmo tempo, 71% consideram o Tribunal essencial para a proteção da democracia. Ou seja, embora haja críticas, o reconhecimento da importância institucional do STF permanece elevado. (Especial para O HOJE)

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