Arquétipos guiam experiência cênica imersiva em Goiânia
Espetáculo de Ana Clara Elias transforma simbologia em narrativa sobre escolhas e comportamento
Uma figura que observa, escuta e conduz. No centro da cena, ela não impõe respostas nem anuncia destinos. Ao contrário, sugere caminhos. É a partir dessa presença que “Cartomante – O Espetáculo”, criação da artista e comunicóloga Ana Clara Elias, constrói uma experiência cênica que se apoia menos na narrativa linear e mais na ativação de símbolos capazes de atravessar o público por uma jornada de reconhecimento. A sessão começa às 19h no Kasarão, na Avenida Araguaia, nº 808, Centro, com entrada a R$10,00.
A montagem chega a Goiânia ancorada em um percurso de pesquisa que combina teatro e estudo dos arquétipos, compreendidos como padrões universais de comportamento e emoção. A artista parte da percepção de que histórias humanas se repetem, ainda que sob contextos distintos, e encontra nesses padrões uma forma de construir uma linguagem que dialoga com diferentes experiências individuais.
“Atuando de forma profissional com as cartas pude entender que o comportamento humano se repete em todas as narrativas, mas muda de contexto de pessoa pra pessoa”, afirma Ana Clara. “De maneira lúdica, os arcanos conseguem trazer sabedorias intrínsecas à experiência humana, que estão conectadas a todos nós”.
No palco, a cartomante não se apresenta como personagem convencional. Ela se constrói como um arquétipo que reúne mistério, escuta e potência intuitiva. A dramaturgia se alimenta da própria vivência da artista, que atua com cartas e desenvolve, há anos, estudos sobre simbologia e comportamento.
“Sou cartomante e atriz na vida real, então essa personagem só se estruturou na dramaturgia. Ela é o arquétipo da mulher enigmática, da mulher que detém o poder pessoal e da sabedoria e que atravessa o portal do invisível”, explica. “Ela não força nada, não adivinha nada, ela sente e se expressa”.
A encenação propõe um deslocamento do espectador. Em determinados momentos, a separação entre palco e plateia se dilui, criando uma experiência que não se limita à observação. A proposta é provocar reconhecimento e identificação, em um processo que se constrói pela sugestão e pela escuta sensível.
“Ninguém sai ileso do espetáculo, algo sempre gera identificação, algo sempre se modifica internamente no interlocutor”, afirma a artista. A jornada proposta dialoga com a ideia de um percurso interno, em que cada indivíduo é atravessado por símbolos que refletem suas próprias vivências.
A escolha pelo universo das cartas funciona como síntese dessas experiências. Amor, medo, ruptura e transformação aparecem como forças que atravessam a narrativa e conectam o público a dimensões mais profundas do sentir. Ao invés de oferecer respostas, o espetáculo abre possibilidades.
A dimensão ritualística se manifesta nos detalhes. A construção do ambiente, a forma de entrada da personagem, o uso do espaço e até elementos sensoriais compõem uma atmosfera que prepara o público para a experiência. “O ambiente para que essa persona possa se apresentar precisa estar preparado. Tudo é ritual, sua presença é rito, força e impossível de não ser notada”, diz.
Ao mesmo tempo, a condução mantém a delicadeza da tradição oral. A contação de histórias aparece como base da encenação, resgatando uma forma ancestral de transmissão de saberes. “A contação de história é a forma de expressão mais antiga da humanidade, de passagem cultural de geração para geração, de manter saberes vivos”, afirma.
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A proposta dialoga com um público interessado em experiências que ultrapassam o entretenimento imediato. Em vez de uma narrativa conclusiva, a obra aposta na permanência do que é vivido em cena, permitindo que cada espectador reorganize suas próprias referências a partir do que foi atravessado.
Ao final, permanece uma ideia que orienta o espetáculo. “A certeza de que, apesar dos desafios da jornada, dos medos e da dor, há sempre um aprendizado maior, uma nova chance de fazer melhores escolhas, e que a viagem é sempre pra dentro”, diz Ana Clara. “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.