Aliados têm culpa de Caiado não liderar para presidente em Goiás
Se os milhares de líderes que apoiam o ex-governador fizerem a sua parte, Lula e Flávio podem ganhar nos demais 26 Estados, mas aqui vão perder feio – difícil é mobilizar uma turma que está de barriga cheia e pé dormente
Cerca de 200 dos 246 prefeitos goianos estão na base aliada do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD). Somados a cônjuges, vices, secretários municipais e presidentes de Câmara, mais mil lideranças se dizem apoiadoras. Mais 2 mil vereadores atuais e ex. Entre os pré-candidatos a deputado, outros 300. Existem também os ex, ex-prefeitos, ex-primeiras-damas, ex-deputados, ex-vereadores, além dos que estão em cargos menos relevantes, como conselheiros tutelares, os 20 mil comissionados do Governo de Goiás e das prefeituras, os 6 mil cargos de confiança da Assembleia Legislativa, os fornecedores, os prestadores de serviço. Sem contar os 4 milhões de goianos beneficiados por programas estaduais pilotados por Gracinha Caiado (União Brasil), implantados por seu marido nestes 7 anos. Mesmo assim, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estão à frente de Ronaldo em Goiás.
É muito difícil e facílimo de entender. Quando Caiado repassou a faixa para Daniel Vilela (MDB), no fim do mês anterior, sua aprovação continuava em 80% e 90%. Por que, então, 3 em cada 4 dos que consideram seu governo ótimo ou bom não citam seu nome quando os entrevistadores dos institutos perguntam em quem vão votar para presidente da República? Em outras unidades da federação, é inteligível ficar polarizado entre lulistas e bolsonaristas, mas em Goiás a única explicação é a preguiça dos aliados, uma turma de barriga lotada de privilégios e pernas cansadas de tanto ócio. Nos outros Estados, menos de metade da população o conhece, mas em Goiás até as crianças o celebram, é o Tio Caiado da molecada. Falta chegar a cada casa, cada loja, cada fazenda, cada mente a informação acerca de sua pré-candidatura à Presidência da República.
A popularidade de Caiado é o dobro da de Zema
O mesmo fenômeno ocorre em Minas Gerais, onde Romeu Zema, que também acaba de deixar o governo depois de reeleito, está atrás de Flávio e Lula. A diferença reside em um fato relevante: a popularidade de Caiado é o dobro da de Zema. Outra circunstância que os distingue é que o PT de Lula já governou Minas, a ex-presidente Dilma Rousseff é de lá, sobram mineiros no 1º escalão federal e o senador Rodrigo Pacheco continua mais lulista que Janja, mesmo depois de atropelado durante a corrida para ser ministro do Supremo Tribunal Federal – Lula o preteriu ao advogado-Geral da União, Jorge Messias. Em Goiás, o PT, como o restante da esquerda, não tem e nunca teve nada disso. Portanto, era para Lula rastejar nas pesquisas e está acontecendo o oposto.
Com Flávio, o enredo se repete. São de Minas o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), duas estrelas da mais brilhante constelação bolsonarista, o 1º lidera para governador e o 2º, se tivesse idade, teria vaga garantida no Senado. Ao menos duas dúzias de líderes do Estado são da 1ª prateleira da direita. Em Goiás, o bolsonarismo tem apenas dois personagens interessantes no PL, o senador Wilder Morais e o deputado federal Gustavo Gayer. Ainda assim, Gayer apoia Daniel Vilela para governador e quer fazer dobrada com Gracinha para o Senado. Nenhum esquerdista de Goiás prejudica mais a campanha do PL que Gayer.
Ou essa turma é muito preguiçosa ou muito ingrata
Então, por mil caracóis desenrolados, qual o motivo de os dois grupos da polarização estarem vencendo Caiado em casa? O bucho cheio de diárias e gratificações permanece como o único motivo de os cabos eleitorais qualificados não exibirem qualidade alguma na pré-campanha de Caiado a presidente. O presidente da Assembleia, Bruno Peixoto, tem articulação com mais de 500 lideranças para realizar sua vontade de chegar à Câmara dos Deputados. Bruno convenceu quantos colegas chefes do Poder Legislativo em outros Estados e no Distrito Federal a entrarem na luta para levar Caiado à cadeira que momentaneamente está com Lula? Pelo que a imprensa da Alego divulga, Bruno tem o respeito e a admiração de praticamente todos os Legislativos do Brasil, daí ocupar posições nas entidades do setor. Que sujeito ruim de conversa é esse que não levou para Caiado unzinho sequer dos presidentes de Assembleia? Como se sabe, Bruno pode ser péssimo em outras áreas, mas de gogó o homem é ninja. Só que isso nada rendeu até hoje para Caiado.
Se os 200 prefeitos começarem a ligar agora para seus colegas de outros Estados, em uma semana todos os chefes de Executivo municipal no Brasil inteiro saberiam o que Caiado fez, o que pretende fazer e como alcançou índices tão altos de aprovação. O mesmo vale para os vereadores com os integrantes de Câmaras das mais de 5 mil cidades. O empresariado, ao menos a parcela beneficiada pelas gestões de Caiado, também poderia ir a campo. No país inteiro tem lojas Novo Mundo, Fast Açaí, show sertanejo, compradores de grãos, armazém vendendo pipoca São João, concessionárias da Caoa, drogarias com estoque de remédios fabricados no Daia… Enfim, ou essa turma é muito preguiçosa ou muito ingrata.
Para Caiado ter chance, é fundamental começar logo a crescer
O pé adormecido dos aliados precisa ser ativado com urgência. Para Caiado ter chance, é fundamental começar logo a crescer. Todo mundo odeia pesquisa, e os institutos picaretas fazem por merecer cada xingamento, porém, é o índice do candidato que o valida, não sua experiência, seu talento, sua sabedoria. Para furar a bolha da polarização, Caiado depende de cada aliado, portanto, uma agulha no imenso palheiro que é o Brasil. Na história das eleições, houve diversos precedentes. Uns com gente boa, como Juscelino Kubitschek, que não pertencia às máfias de São Paulo e Rio de Janeiro e, para o bem do Brasil, venceu a eleição. Outros com gente péssima, como Fernando Collor, que nasceu no Rio, mas fez política em Alagoas e passou por cima de excelentes quadros para suceder José Sarney a partir de 1990. Alagoas é menor que Goiás em PIB, em industrialização, em número de eleitores. Se fez o presidente da República, Goiás também pode. (Especial para O HOJE)