Juscelino Kubitschek

Relatório aponta que morte de JK pode ter sido ação da ditadura, e não acidente

Documento com mais de 5 mil páginas contesta investigações anteriores e pode levar comissão federal a rever oficialmente uma das versões mais debatidas da história política brasileira

Thais Munizpor Thais Muniz em 8 de maio de 2026
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Juscelino Kubitschek em frente ao Palácio da Alvorada

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) analisa um relatório que pode mudar oficialmente a forma como o Brasil registra a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, ocorrida em 22 de agosto de 1976, na Via Dutra. O parecer elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão conclui que JK não morreu em um acidente comum, mas em uma ação provocada pela repressão da ditadura militar.

Com mais de 5 mil páginas, incluindo anexos e perícias, o documento contesta a versão histórica de que o carro de JK perdeu o controle após ser atingido por um ônibus durante uma ultrapassagem. Segundo a nova análise, “não há indícios” que sustentem essa colisão inicial e a saída do veículo da pista teria ocorrido por uma “ação externa” ligada ao contexto político da época.

A votação do parecer chegou a ser prevista para abril, mas foi adiada para que os integrantes da comissão tivessem mais tempo para examinar o material. Agora, a expectativa é de que o texto volte à pauta em uma próxima reunião do colegiado.

Nova análise revisa versão oficial

Desde a morte de JK, o episódio esteve cercado por dúvidas. Na versão apresentada durante o regime militar, o Opala em que o ex-presidente viajava com o motorista e amigo Geraldo Ribeiro teria sido tocado por um ônibus da Viação Cometa, cruzado o canteiro central e batido contra uma carreta no sentido contrário.

Essa narrativa foi mantida por investigações oficiais durante décadas, inclusive pela Comissão Nacional da Verdade, em 2014. No entanto, o novo relatório da CEMDP afirma que laudos usados anteriormente apresentavam falhas técnicas e inconsistências.

A principal base da relatora foi o inquérito civil conduzido pelo Ministério Público Federal entre 2013 e 2019. Na investigação, o MPF descartou a colisão entre o ônibus e o carro de JK antes da batida final. Apesar disso, o órgão afirmou ser “impossível afirmar ou descartar” a hipótese de atentado por falta de provas materiais definitivas.

O procurador Paulo Sérgio Ferreira Filho apontou “falhas severas nas investigações realizadas pelo Estado brasileiro”, incluindo lacunas periciais e ausência de exames toxicológicos mais aprofundados no motorista Geraldo Ribeiro.

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Contexto político pesa na conclusão

O parecer também considera o cenário político vivido por JK nos anos 1970. Cassado após o golpe de 1964 e com direitos políticos suspensos, o ex-presidente havia retomado influência como uma das vozes de oposição ao regime militar.

Naquele período, JK integrava a Frente Ampla ao lado de Carlos Lacerda e João Goulart, movimento visto com preocupação pelos governos militares da América do Sul. O relatório cita documentos ligados à Operação Condor e menciona comunicações internacionais em que o nome de JK aparecia como figura de risco político.

A análise ainda faz comparação com o caso de Zuzu Angel, cuja morte também foi inicialmente tratada como acidente, mas depois reconhecida como ação da repressão.

Caso o parecer seja aprovado pela maioria dos sete conselheiros da CEMDP, a comissão poderá recomendar a mudança na certidão de óbito de Juscelino Kubitschek e Geraldo Ribeiro, registrando oficialmente que ambos morreram em decorrência de perseguição política promovida pelo Estado brasileiro. A decisão teria peso histórico e institucional, mesmo sem gerar efeitos de indenização financeira à família.

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