sábado, 24 de outubro de 2026
Cidadania

Procura por título cresce em Goiás, mas participação de jovens cai às vésperas das eleições

TRE registrou quase 500 mil atendimentos desde novembro de 2024, apesar da alta demanda, adolescentes e jovens reduziram adesão ao cadastro eleitoral

João César Almeidapor em
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Apenas no último dia do prazo, o TRE-GO contabilizou mais de 20 mil atendimentos - Foto: Paulo Pinto/ABr

 

Em todo ano eleitoral, a população vivencia uma corrida para regularização do título eleitoral ou, para algumas pessoas, a primeira experiência eleitoral. Na última semana, no dia 6 de maio se encerrou o prazo para a emissão e regularização do título de eleitor. No Estado de Goiás, o Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO) efetuou quase meio milhão de atendimentos para as Eleições de 2026.

De acordo com balanço parcial divulgado na última quinta-feira (7), os dados contabilizam 497.715 requerimentos em todo o Estado desde novembro de 2024.  Nos últimos meses, antes de encerrar o prazo, houve um aumento na procura pelos serviços eleitorais, com abril deste ano sendo o período de maior atividade, reunindo 94.314 atendimentos.

O levantamento aponta que o público feminino foi o que mais buscou a Justiça Eleitoral, sendo responsável por 53,89% dos atendimentos contra 46,11% do público masculino. Entre o público de 18 a 24 anos foram totalizados 141.179 requerimentos, representando uma perda de 30 mil.

Já entre os jovens abaixo de 18 anos, que não têm obrigatoriedade de voto, o número também foi menor. Em 2024 foi registrado 57.435, enquanto neste ano registraram 7 mil a menos, totalizando 50.819 adolescentes.

Somente no último dia do prazo, o TRE-GO contabilizou mais de 20 mil atendimentos. Para garantir que todos os eleitores presentes fossem atendidos, aproximadamente 9.300 senhas foram distribuídas em todo o estado com agendamento individualizado. A conclusão desses atendimentos segue sendo realizada nos dias posteriores ao fechamento do cadastro.

Além disso, outros 19.497 eleitores que optaram pelo autoatendimento virtual, realizado por meio do site da Justiça Eleitoral ou pelo aplicativo e-Título, ainda terão suas solicitações analisadas pelo tribunal até a próxima semana.

Desinteresse dos jovens na eleição

Uma pesquisa feita pelo Instituto Lamparina e do movimento Girl Up Brasil, baseada em dados mensais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), estima que entre 1,44 milhão e 1,6 milhão de jovens dessa faixa etária devem emitir o documento neste ano. O volume corresponde a cerca de 27,6% da população brasileira de 16 e 17 anos, percentual inferior ao registrado em eleições anteriores: 33,7% em 2014, 31% em 2018 e 41,2% em 2022.

Segundo a estimativa, os adolescentes devem representar aproximadamente 1% do eleitorado total em 2026. Em 2022, esse grupo correspondia a 1,7% dos votantes na contagem de maio. Apesar da participação reduzida, especialistas destacam que o impacto pode ser relevante em disputas apertadas, como ocorreu na eleição presidencial de 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Jair Bolsonaro (PL) por uma diferença de 1,8% dos votos válidos.

Os dados considerados pela Girl Up Brasil levam em conta os jovens que solicitaram o título até maio de cada ano eleitoral. O número final do TSE costuma variar porque parte dos adolescentes que tiram o documento aos 17 anos completa 18 antes do primeiro turno e passa a integrar outra faixa etária.

Em 2022, o cenário inicial também indicava baixa adesão. Em fevereiro daquele ano, apenas 830 mil adolescentes haviam solicitado o título, o pior início da série histórica. Na época, o percentual equivalia a 13,6% da população de 16 e 17 anos, mas terminou o período eleitoral com 41,2% de adesão. O voto para essa faixa etária é facultativo.

Ao final do período eleitoral de 2022, mais de 2,1 milhões de adolescentes estavam habilitados para votar, estabelecendo o maior índice de participação dessa faixa etária desde a redemocratização.

Outro fator apontado pela pesquisa como decisivo naquele ano foi a facilidade do processo digital. Durante a pandemia da Covid-19, o TSE autorizou temporariamente a emissão online do título eleitoral e suspendeu a obrigatoriedade da biometria presencial, ampliando o acesso principalmente em municípios sem cartórios eleitorais.

Já em 2026, apesar de parte do processo continuar digital, a coleta biométrica voltou a ser exigida para novos eleitores, tornando necessária a presença física em unidades da Justiça Eleitoral.

O debate agora gira em torno de um paradoxo: ao mesmo tempo em que cresce a procura pelos serviços da Justiça Eleitoral, diminui a participação proporcional dos jovens no eleitorado brasileiro. 

 

Falta de políticas públicas contínuas podem despertar desinteresse em jovens

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Especialista aponta falta de políticas públicas e distanciamento da juventude da política institucional – Foto: Arquivo/Marcello Casal Jr/ABr

Para o especialista em políticas públicas e mestre em história, Tiago Zancopé, a falta de políticas públicas contínuas e afirmativas para a juventude pode distanciar o público jovem em geral, pois eles não se veem como protagonistas ou autores de projetos. “Para o público jovem em geral, as pautas muitas vezes são distantes,  porque não tem uma continuidade de políticas públicas para a juventude, de maneira a permitir que o espaço político seja um espaço político afirmativo, no qual, de fato a voz da juventude seja consolidada na elaboração e formação de políticas públicas”, explica.

Ele ainda aponta que existem esforços para aproximar os jovens da política, mas que são iniciativas pontuais e descoordenadas, gerando dispersão e a sensação de que “isso aqui não é para mim”.

“É aquela coisa meio pontual, uma secretaria faz uma coisa, outra secretaria faz  outra ação e isso, muitas vezes,  gera uma dispersão que acaba gerando uma distração. E com isso, o jovem não se sente pertencente e acredita que sua presença não é necessária”, complementa.


Nesse sentido, falta um projeto que pense no longo prazo do jovem de 16 a 18 anos que está ingressando no exercício da sua cidadania, a partir do voto. Zancopé acredita que é preciso pensar nesse primeiro momento da vida pública da pessoa como algo curto, que irá durar entre uma e três eleições, até que mude de faixa etária.

 

Porém, mesmo assim, o especialista vê com um certo espanto o desinteresse dos jovens. “Eu particularmente estou surpreso. Eu vejo pessoas jovens, tanto de esquerda como de direita, que conseguem ter um alcance interessante nas redes sociais”, destaca. Na visão de Zancopé, figuras como Aava Santiago (PSB), Fabrício Rosa (PT), Fred Rodrigues (PL) e Lucas Kitão (Mobiliza) conseguem dialogar e despertar interesse de pessoas mais novas, sendo bons nomes para uma mobilização da juventude.

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