sexta-feira, 15 de maio de 2026
OPINIÃO

Governadoriáveis evitam o povo porque não sabem o que dizer

Campanha em Goiás continua sem tema e pré-candidatos ainda procuram repertório como o de Iris com “vou asfaltar todas as ruas de Goiânia” e Santillo com o metrô de superfície, pois é diferente dos pleitos anteriores, sem fim/começo de ciclo

Nilson Gomespor Nilson Gomes em 15 de maio de 2026
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A pré-campanha deste ano está fria como a poeira da Pecuária nas festas de maio no Parque de Nova Vila, em Goiânia. Os que pretendem o Governo do Estado permanecem em busca de um assunto, que os sociólogos de WhatsApp chamam de dor. Talvez seja por isso que se recusam a começar a busca por voto

A pré-campanha deste ano está fria como a poeira da Pecuária nas festas de maio no Parque de Nova Vila, em Goiânia. Os pretendentes a deputado estadual e federal se mostram muito mais animados. Até os senatoriáveis, em geral meio molengas para ir a campo, parecem competitivos, até por não estar fácil para ninguém. Os que pretendem o Governo do Estado permanecem em busca de um assunto, que os sociólogos de WhatsApp chamam de dor. Talvez seja por isso que se recusam a começar a busca por voto e, na eventualidade de acontecer o inédito caso de encontrar um eleitor, uma pessoa, ficar boquiaberto, olhando-o como ao um ET, pasmo, sem vir algo para lhe dizer.

É comum dizer que raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas a tempestade de ideias é eficiente para evitar que se caia no lugar-comum. Em 1986, o PMDB se dividiu em três grupos, o de Iris Rezende, o de Henrique Santillo e o de Mauro Borges. Iris foi para Brasília ser ministro da Agricultura de José Sarney e não fez campanha para o então senador Santillo, que acabou virando governador ao derrotar Mauro, que saiu do partido. O mote que levou à vitória foi a promessa de construir o metrô de superfície de Trindade a Senador Canedo. A obra acabou não saindo, pois Iris convenceu Sarney a negar o aval do governo federal ao empréstimo que Santillo conseguira em bancos estrangeiros para fazer a solução viária da Região Metropolitana da Capital.

“O asfalto vai passar na porta de sua casa”

Iris volta a ser personagem em ocasião parecida, pois voltou a ser prefeito de Goiânia em 2004, depois de perder a invencibilidade eleitoral duas vezes seguidas, para governador em 1998 e para senador em 2002. Era uma disputa acirrada com a deputada estadual mais votada da história, Rachel Azeredo, e os deputados federais Sandes Júnior e Pedro Wilson. O que definiu foi a insistência de Iris em repetir à exaustão: “O asfalto vai passar na porta de sua casa” e “Vou resolver o problema do transporte coletivo de Goiânia em seis meses”.

O cenário mudou demais. Até a reeleição, que suscita bons debates a partir da própria existência do instituto, agora tem uma novidade: Daniel Vilela (MDB), que foi vice de Ronaldo Caiado (PSD) nos últimos 40 meses, pegou a faixa em abril e vai ser candidato estando na cadeira. Há empate nos dois que ocuparam mandato-tampão, os quase nove meses entre o governador que sai para ser candidato a outro cargo. Em 2006, Marconi Perillo (PSDB) renunciou e Alcides Rodrigues (então no PP) foi reeleito. Em 2018, o mesmo Marconi renunciou de novo e José Eliton (então no PSDB) perdeu em 3º lugar – o 2º foi Daniel, com Caiado em 1º. Há explicações para os resultados diferentes.

No 1º caso, o staff de Alcides, comandado pelo publicitário Jorcelino Braga, evitou dizer que Marconi deixara de ser governador. No material, inclusive no jingle, não houve preocupação em dizer quem era candidato a quê. Repetia-se à exaustão os dois nomes, Alcides e Marconi, sem esclarecer que o 1º era o antigo vice que tentava o governo e o outro, o ex-governador em busca do Senado. Ou seja, para ambos, não havia interesse em propagar a distinção entre 2006 e as eleições anteriores, pois Alcides foi o vice de Marconi em ambas. O mote era fingir que seria um bis do bis, uma espécie de 3º mandato de Marconi.

O vice de Caiado em 2018 foi Lincoln Tejota, não Daniel

Parece igual ao caso de Daniel e Caiado, com algumas nuances. O vice de Caiado em 2018 foi Lincoln Tejota, não Daniel. Marconi e Alcides saíram a cargos estaduais, portanto, não se desgrudaram, ao contrário de agora, com Daniel no Estado e Caiado no país inteiro, buscando ser presidente da República. Outra característica é a das turmas, pois PSDB e PP eram umbilicais, ao contrário de MDB e o caiadismo, que historicamente nunca estiveram juntos, desde os embates entre UDN e PSD (que nada tem a ver com o atual), Arena e MDB, PDS e PMDB.

A velocidade da internet pode ter contaminado a política também na duração das eras. A Era PMDB durou 16 anos, de 1983 a 1998. A Era Marconi foi maior, 20 anos, de 1999 a 2018. Com inteligência artificial, mídias sociais chegando ao paroxismo e uma polarização que nunca foi tão radical, a Era Caiado, que vai completar oito anos, repetirá a performance de Marconi e ampliará em quatro anos o reinado anterior, com 24 anos, portanto, mais 16? Ou nos tempos de tecnologia tão avançada o que era 20 agora passou para oito? Se a resposta for sim a qualquer das duas perguntas, o discurso da oposição deve ser de fim de ciclo, como Marconi usou em 1998 e Caiado em 2018. Se for não, o tema de Daniel tem que ser a continuidade.

Algumas características se sobressaem, como o rompimento entre Alcides e Marconi ainda no início do ciclo do sucessor. De unha e cutícula se transformaram em água e óleo. Ocorreu quase o mesmo entre Marconi, que se reafirma de direita, e seu outro vice, pois José Eliton enveredou pela esquerda. Mais um detalhe está na solidão do poder: o afastamento de Alcides foi rumoroso por estarem ambos em lugares de destaque (um no Palácio das Esmeraldas, outro na vice-presidência do Senado), enquanto a cisma com Eliton se deu com os dois sem cargo. Esses exemplos cabem no caso Caiado/Daniel? Se sim, qual deles, a relação de Marconi com Alcides ou com Eliton? Dependendo da resposta é um tema para campanha para a situação ou a oposição.

Candidato do PT, ainda indefinido, tem lugar de fala com Lula

Marconi Perillo tem a biografia recheada de obras por tudo quanto é lugar de Goiás. Seu caso é igual ao de Daniel: compensa revolver o passado? O pai do atual governador, Maguito Vilela, também saiu do cargo com aprovação semelhante à de Marconi em 2006 e Caiado em 2026 – e não fez o sucessor (Iris perdeu para o próprio Marconi). Maguito tentou voltar em 2002 e 2006, tendo como trunfo seu mandato visto como ótimo e bom por mais de 90% dos goianos – e perdeu em ambos, respectivamente, para Marconi e Alcides. Marconi, campeoníssimo em construções e excelentes ideias como o Vapt Vupt e a Universidade Estadual (UEG), foi derrotado duas vezes seguidas para o Senado, por Vanderlan Cardoso e Jorge Kajuru em 2018 e Wilder Morais em 2022. Juntando os três, não fizeram o que Marconi conseguiu, com um pormenor que na verdade é gigantesco: o trio nunca comandou Goiás e Marconi teve quatro mandatos de governador. Portanto, Marconi não consegue tirar daí seu tema para o 5º período à frente do Estado.

Wilder é senador pela 2ª vez, se orgulha de ter mandado verbas, equipamentos e máquinas para todos os 246 municípios, mas não consegue extrair desse feito um discurso vencedor. Tudo isso pode ter pesado em 2022, porém, o definidor mesmo foi sua ligação com Jair Bolsonaro, que à época era presidente da República e venceu a eleição em Goiás. O candidato do PT, ainda indefinido, tem lugar de fala com a candidatura de Lula, o adversário de Bolsonaro e Wilder. Porém, a sigla da estrela vermelha ainda não disse nem quem a representará nas urnas, quanto mais o conteúdo de seu discurso.

(Especial para O HOJE)

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