Corte de árvores no Lago das Rosas em Goiânia provoca embate entre moradores e paço
Retirada prevista de 48 plantas durante o processo de revitalização do parque desencadeou reações e críticas
O anúncio da revitalização do Parque Lago das Rosas, tradicional reduto da capital goiana construído na década de 1940, trouxe à tona um embate entre a prefeitura de Goiânia e frequentadores do espaço. Com investimento de R$ 2,7 milhões, viabilizado por meio de compensação ambiental da Opus Incorporadora, a obra promete modernizar o mobiliário urbano, mas também gerou preocupações sobre a preservação da identidade ambiental e histórica do parque. O principal ponto de tensão é o corte previsto de 48 árvores, medida que, segundo moradores, foi conduzida sem transparência e diálogo técnico suficientes.
A Associação dos Moradores e Frequentadores do Parque Lago das Rosas criticou a condução do manejo arbóreo e afirmou ter solicitado uma discussão individualizada sobre a situação de cada árvore apontada no laudo da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma). A proposta era permitir uma avaliação independente para verificar quais espécies realmente precisariam ser removidas. Entretanto, segundo a entidade, a prefeitura assinou a ordem de serviço e iniciou as intervenções sem atender ao pedido.
Representantes da associação ressaltam que as árvores exercem papel essencial para o conforto térmico, a renovação do ar e a qualidade de vida da população. O grupo também questiona se o plantio de 112 mudas será suficiente para compensar a retirada de exemplares adultos, além de apontar dificuldades históricas na manutenção das mudas já plantadas anteriormente, muitas vezes cuidadas pelos próprios frequentadores do parque.
Especialistas e analistas ambientais reforçam as preocupações dos moradores. Kadu, analista governamental que avaliou o laudo da Amma junto ao grupo Goiânia Verde, avalia que existe uma “política preocupante de intervenção ambiental”. Segundo ele, a substituição de árvores consolidadas, com décadas de existência, por mudas jovens não compensa, ao menos no curto e médio prazo, os benefícios já oferecidos pelas espécies adultas. O especialista destaca que árvores com 30, 40 ou até 50 anos já garantem sombra e equilíbrio térmico, enquanto as mudas levarão décadas para alcançar as mesmas condições.
Um dos pontos mais criticados por Kadu é a remoção de árvores para instalação de equipamentos de lazer, como os “Pet Places”. O parecer da Amma aponta que espécies como chapéu-de-napoleão, cajá-manga jovem e mudas de escova-de-garrafa plantadas por moradores deverão ser cortadas para abertura desses espaços. Para o analista, o ideal seria integrar os equipamentos às árvores já existentes, aproveitando a sombra natural para oferecer conforto aos animais e tutores, em vez de “retirar a natureza para tentar recriá-la artificialmente”.
O especialista também destaca que parte dos problemas fitossanitários apontados no laudo, como fungos e podridões, estaria relacionada a podas agressivas e inadequadas realizadas pela própria prefeitura ou por intervenções na rede elétrica. Para ele, isso evidencia falhas estruturais na manutenção do patrimônio verde da cidade.
O debate vai além do manejo arbóreo e alcança a própria concepção da revitalização. O arquiteto e urbanista Fred Le Blue define a intervenção como uma “maquiagem urbana” marcada por forte apelo estético e midiático. Segundo ele, o Lago das Rosas enfrenta problemas estruturais há mais de 15 anos, como deterioração da pista de caminhada e equipamentos obsoletos, recebendo apenas ações paliativas ao longo do tempo.

Foto: Gabriel Louza/O HOJE
Prioridade excessiva ao mobiliário urbano
Embora reconheça avanços previstos no projeto, como obras de microdrenagem para reduzir alagamentos e nova iluminação, Le Blue afirma que a proposta prioriza excessivamente o mobiliário urbano e estratégias de “city marketing”. O urbanista alerta ainda para um possível processo de elitização simbólica do espaço público, no qual investimentos concentrados em áreas nobres e visíveis acabam mascarando o abandono de regiões periféricas da Capital. Segundo ele, essa lógica cria “zonas de luxo” em poucos pontos da cidade enquanto outras áreas seguem sem atenção do poder público.
A participação da iniciativa privada por meio de compensação ambiental também gera questionamentos. Enquanto a prefeitura defende o mecanismo como forma eficiente de mitigar impactos ambientais, Le Blue pondera que o planejamento urbano passa a ser influenciado por interesses corporativos, transformando uma obrigação legal em estratégia de marketing para incorporadoras.
O projeto prevê ainda uma segunda etapa voltada à restauração da mureta e do trampolim, monumentos tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional que compõem a identidade Art Déco de Goiânia. No entanto, essa fase ainda depende de aprovação técnica e de novos termos de compensação ambiental. Especialistas demonstram preocupação de que intervenções amplas possam descaracterizar não apenas os monumentos históricos, mas também a identidade paisagística e afetiva do parque como um todo.
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