domingo, 23 de agosto de 2026
impacto ambiental

Corte de árvores no Lago das Rosas em Goiânia provoca embate entre moradores e paço

Retirada prevista de 48 plantas durante o processo de revitalização do parque desencadeou reações e críticas

Anna Salgadopor Anna Salgado em
Lago, parque lago das rosas
Foto: Gabriel Louza/O HOJE

O anúncio da revitalização do Parque Lago das Rosas, tradicional reduto da capital goiana construído na década de 1940, trouxe à tona um embate entre a prefeitura de Goiânia e frequentadores do espaço. Com investimento de R$ 2,7 milhões, viabilizado por meio de compensação ambiental da Opus Incorporadora, a obra promete modernizar o mobiliário urbano, mas também gerou preocupações sobre a preservação da identidade ambiental e histórica do parque. O principal ponto de tensão é o corte previsto de 48 árvores, medida que, segundo moradores, foi conduzida sem transparência e diálogo técnico suficientes.

 

A Associação dos Moradores e Frequentadores do Parque Lago das Rosas criticou a condução do manejo arbóreo e afirmou ter solicitado uma discussão individualizada sobre a situação de cada árvore apontada no laudo da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma). A proposta era permitir uma avaliação independente para verificar quais espécies realmente precisariam ser removidas. Entretanto, segundo a entidade, a prefeitura assinou a ordem de serviço e iniciou as intervenções sem atender ao pedido.

 

Representantes da associação ressaltam que as árvores exercem papel essencial para o conforto térmico, a renovação do ar e a qualidade de vida da população. O grupo também questiona se o plantio de 112 mudas será suficiente para compensar a retirada de exemplares adultos, além de apontar dificuldades históricas na manutenção das mudas já plantadas anteriormente, muitas vezes cuidadas pelos próprios frequentadores do parque.

 

Especialistas e analistas ambientais reforçam as preocupações dos moradores. Kadu, analista governamental que avaliou o laudo da Amma junto ao grupo Goiânia Verde, avalia que existe uma “política preocupante de intervenção ambiental”. Segundo ele, a substituição de árvores consolidadas, com décadas de existência, por mudas jovens não compensa, ao menos no curto e médio prazo, os benefícios já oferecidos pelas espécies adultas. O especialista destaca que árvores com 30, 40 ou até 50 anos já garantem sombra e equilíbrio térmico, enquanto as mudas levarão décadas para alcançar as mesmas condições.

 

Um dos pontos mais criticados por Kadu é a remoção de árvores para instalação de equipamentos de lazer, como os “Pet Places”. O parecer da Amma aponta que espécies como chapéu-de-napoleão, cajá-manga jovem e mudas de escova-de-garrafa plantadas por moradores deverão ser cortadas para abertura desses espaços. Para o analista, o ideal seria integrar os equipamentos às árvores já existentes, aproveitando a sombra natural para oferecer conforto aos animais e tutores, em vez de “retirar a natureza para tentar recriá-la artificialmente”.

 

O especialista também destaca que parte dos problemas fitossanitários apontados no laudo, como fungos e podridões, estaria relacionada a podas agressivas e inadequadas realizadas pela própria prefeitura ou por intervenções na rede elétrica. Para ele, isso evidencia falhas estruturais na manutenção do patrimônio verde da cidade.

 

O debate vai além do manejo arbóreo e alcança a própria concepção da revitalização. O arquiteto e urbanista Fred Le Blue define a intervenção como uma “maquiagem urbana” marcada por forte apelo estético e midiático. Segundo ele, o Lago das Rosas enfrenta problemas estruturais há mais de 15 anos, como deterioração da pista de caminhada e equipamentos obsoletos, recebendo apenas ações paliativas ao longo do tempo.

Lago ( Lago das rosas)
Revitalização reacende debate sobre preservação histórica, meio ambiente e prioridade de investimentos em Goiânia
Foto: Gabriel Louza/O HOJE

Prioridade excessiva ao mobiliário urbano

Embora reconheça avanços previstos no projeto, como obras de microdrenagem para reduzir alagamentos e nova iluminação, Le Blue afirma que a proposta prioriza excessivamente o mobiliário urbano e estratégias de “city marketing”. O urbanista alerta ainda para um possível processo de elitização simbólica do espaço público, no qual investimentos concentrados em áreas nobres e visíveis acabam mascarando o abandono de regiões periféricas da Capital. Segundo ele, essa lógica cria “zonas de luxo” em poucos pontos da cidade enquanto outras áreas seguem sem atenção do poder público.

 

A participação da iniciativa privada por meio de compensação ambiental também gera questionamentos. Enquanto a prefeitura defende o mecanismo como forma eficiente de mitigar impactos ambientais, Le Blue pondera que o planejamento urbano passa a ser influenciado por interesses corporativos, transformando uma obrigação legal em estratégia de marketing para incorporadoras.

 

O projeto prevê ainda uma segunda etapa voltada à restauração da mureta e do trampolim, monumentos tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional que compõem a identidade Art Déco de Goiânia. No entanto, essa fase ainda depende de aprovação técnica e de novos termos de compensação ambiental. Especialistas demonstram preocupação de que intervenções amplas possam descaracterizar não apenas os monumentos históricos, mas também a identidade paisagística e afetiva do parque como um todo.

 

Leia mais: Obra no Lago das Rosas em Goiânia gera dúvidas sobre “maquiagem urbana” com revitalização

 

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Veja também

Pirenópolis

“roleta-russa”

Jovem de 18 anos morre após tiro na cabeça em Pirenópolis (GO)

Vítima estava reunida com amigos em uma casa na Vila Matutina quando foi atingida pelo disparo. Pol...
Goiás

Fórum

Goiás reúne municípios para definir regras para uso de IA no setor público

Fórum realizado em Goiânia reuniu gestores e especialistas para discutir segurança de dados, qual...
Justiça de Goiás decreta prisão preventiva de suspeito de manter ex em cativeiro

Justiça

Justiça de Goiás decreta prisão preventiva de suspeito de manter ex em cativeiro

Ailton Rodrigues de Souza é acusado de manter a ex-esposa presa e acorrentada por cinco dias em uma...
Jovem

MOMENTOS DE TERROR

“Ele enfiava panos com ácido na minha boca”, relata jovem mantida em cativeiro em Goiás

Após passar cinco dias acorrentada e amordaçada, Emiliane Tamara apareceu nas redes sociais, mostr...
Incêndio destrói ônibus na BR-364, no interior de Goiás

Acidente

Incêndio destrói ônibus na BR-364, no interior de Goiás

Veículo pegou fogo na zona rural de Mineiros, no sudoeste do Estado; passageiros conseguiram deixar...
suspeita anel

furto

Diarista é presa suspeita de furtar joias de R$ 6 mil durante teste em Goiânia

Câmeras registraram furto no Setor Marista; suspeita disse à polícia que considerou baixo o valor...
Operação apreende 58 kg de drogas na divisa entre GO e MT

Ação Conjunta

Operação apreende 58 kg de drogas na divisa entre GO e MT

Ação conjunta entre forças policiais localizou 29 kg de cocaína e 29 kg de skunk escondidos em u...
Justiça derruba norma que permitia harmonização orofacial por dentistas

Decisão

Justiça derruba norma que permitia harmonização orofacial por dentistas

Decisão do TRF1 anulou resolução do Conselho Federal de Odontologia, mas ainda cabe recurso e a m...