Energia solar avança, mas enfrenta gargalos na rede e com regulação em Goiás
Alta na tarifa de energia acelera procura por sistemas solares em residências, empresas e propriedades rurais no Estado
O crescimento da energia solar em Goiás deixou de ser uma tendência futura para se tornar uma realidade consolidada no setor energético estadual. Impulsionado pelo aumento nas tarifas de energia elétrica, pelo alto potencial de insolação e pela busca por economia, o Estado passou a ocupar posição de destaque nacional na geração própria de energia solar, principalmente em residências, empresas e propriedades rurais.
Dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) mostram que Goiás já ultrapassou a marca de 1,7 gigawatt (GW) de potência instalada em geração distribuída, modelo em que o consumidor produz a própria energia por meio de painéis solares instalados em telhados e pequenos terrenos. Atualmente, o Estado soma mais de 138 mil conexões operacionais espalhadas pelos 246 municípios goianos, alcançando mais de 174 mil consumidores.
Além disso, o setor movimenta bilhões de reais na economia estadual. Desde 2012, a geração própria de energia solar atraiu cerca de R$ 7,9 bilhões em investimentos para Goiás, gerou mais de 53 mil empregos e contribuiu com aproximadamente R$ 2,3 bilhões em arrecadação aos cofres públicos.
O avanço acompanha o crescimento da matriz fotovoltaica no Estado, que saiu praticamente do zero em 2015 para quase 2 mil gigawatts-hora (GWh) gerados em 2024, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg).
O engenheiro eletricista Alexandre Bernardes afirma que o aumento expressivo das tarifas de energia elétrica impulsionam diretamente a procura pelos sistemas fotovoltaicos. Segundo ele, os reajustes recentes fizeram muitos consumidores buscarem alternativas para reduzir os custos mensais.
“Tivemos um aumento de cerca de 20%. Quem pagava em média R$ 500 passou a pagar aproximadamente R$ 600 sem ter aumentado o consumo. Sempre que esses aumentos acontecem, cresce fortemente a procura por energia solar”, explica.
O principal atrativo continua sendo a economia na conta de luz. Em muitos casos, consumidores conseguem reduzir mais de 90% do valor pago mensalmente à concessionária. Dependendo do perfil de consumo e da forma de pagamento, o retorno do investimento costuma ocorrer entre dois e quatro anos.
A forte incidência solar em Goiás ajuda a consolidar o Estado como um dos mercados mais atrativos do País para o setor fotovoltaico. Especialistas apontam que a região registra entre 2 mil e 2,5 mil horas de sol por ano, índice considerado elevado e favorável para a geração de energia.
Além das residências, empresas e produtores rurais também ampliaram os investimentos na tecnologia. O agronegócio, inclusive, aparece como um dos principais motores da expansão do setor.
O setor acompanha a tramitação do Projeto de Lei nº 624/2023 no Senado Federal. Segundo a Absolar, a proposta busca resolver um dos principais problemas enfrentados atualmente pelos consumidores: as negativas de conexão feitas pelas distribuidoras de energia sob alegação de inversão de fluxo de potência.
O presidente executivo da Absolar, Rodrigo Sauaia, afirma que o projeto é fundamental para garantir segurança jurídica ao setor e ampliar o acesso à geração própria de energia.
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Gargalos ainda preocupam consumidores e empresas
Apesar do crescimento acelerado, o setor ainda enfrenta desafios importantes em Goiás. Um dos principais gargalos está relacionado justamente à infraestrutura da rede elétrica. Em algumas regiões, consumidores e empresas relatam dificuldades para obter autorização de conexão junto à concessionária, especialmente em áreas onde já existe grande quantidade de sistemas instalados.
Além disso, especialistas alertam para a necessidade de modernização da rede elétrica para acompanhar o avanço da geração distribuída. Em determinados casos, a capacidade técnica da rede exige reforços estruturais para absorver a energia excedente produzida pelos sistemas solares.
Outro ponto de atenção envolve a qualidade das instalações. Com o crescimento rápido do mercado, aumentou também o número de empresas atuando no setor, inclusive sem qualificação adequada. Técnicos alertam que sistemas mal dimensionados, equipamentos de baixa qualidade e promessas irreais de economia podem gerar prejuízos ao consumidor.
A chamada “taxação do sol”, prevista pela Lei Federal nº 14.300, também alterou parte da dinâmica do mercado. Embora a energia solar continue vantajosa financeiramente, os novos projetos passaram a pagar gradualmente tarifas pelo uso da rede elétrica, exigindo cálculos mais detalhados sobre o tempo de retorno do investimento. Mesmo diante dos desafios, o setor mantém a perspectiva de crescimento contínuo em Goiás.