Moradores pressionam e Amma suspende corte de árvores no Lago das Rosas
Após protestos e críticas ao projeto de revitalização, Agência Municipal do Meio Ambiente interrompe retirada de plantas e abre espaço para debate técnico com população e especialistas
Com a revitalização do Parque Lago das Rosas, os moradores da região se mobilizaram contra o corte de árvores que fazem parte da identidade do lugar. Devido às pressões populares, a Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma) recuou e suspendeu os cortes e substituições das árvores, até a finalização do debate com a população.
No último domingo (24), um grupo de manifestantes se reuniu no Lago das Rosas, contra a retirada das árvores. O movimento começou após a retirada de três exemplares antigos, que ficavam próximo a entrada do Zoológico de Goiânia.
A principal queixa dos moradores é que, segundo eles, não houve um diálogo prévio sobre a retirada das espécies. Segundo a membro da Associação do Lago (Alagro) das Rosas, Lilia Monteiro, o parecer técnico da Amma foi encaminhado para os moradores um dia antes da assinatura da ordem de serviço e do lançamento das obras de revitalização. Ao receberem o laudo, um membro da associação questionou a retirada das árvores, dando início às discussões.
Monteiro pontua que o problema atual não está nas obras de revitalização, já que há anos a Alagro espera e cobra reformas no parque. “Nós já queríamos essa revitalização há muito tempo. Tem mais de oito anos que nós estamos procurando o poder público para fazer essa melhoria no parque, porque é necessário”, comentou.
Lilia Monteiro informou que a associação busca um novo laudo e a criação de um comitê técnico com moradores, membros da Amma e especialistas para debater a retirada das árvores. Apesar de serem contra o corte de exemplares saudáveis, a Alagro compreende a remoção daqueles condenados por pragas, conforme previsto no parecer técnico..
No sábado (23), o prefeito Sandro Mabel reconheceu e declarou que as ações da Amma foram precipitadas. Em entrevista ao Diário de Goiás, Mabel declarou que as árvores devem ser retiradas, mas não com um impacto igual ao que está sendo projetado. Ainda na entrevista, o líder do executivo municipal disse que “se a associação de moradores disser que não [deve tirar a árvore], o técnico [independente] se responsabilizar e assinar um termo de que a Prefeitura fica isenta, a associação e o técnico assumem o risco se essa árvore cair e fizer dano a alguém. Aquelas que estão realmente sem condições, essas têm que ser tiradas”
De acordo com o laudo apresentado pela Amma, devido a conflitos para a revitalização e características fitossanitárias, que comprometem os espécimes, 48 árvores deverão ser cortadas. Para compensar a retirada, outras 112 serão plantadas no Lago das Rosas. Esse número prevê que a cada árvore cortada, cerca de 2,3 mudas serão colocadas no lugar.
No dia 18 de maio, o vereador Fabrício Rosa (PT) acionou o Ministério Público (MP-GO) em relação ao projeto de revitalização e ao parecer técnico da Agência de Meio Ambiente. No ofício enviado, o vereador alertou o MP para a ausência de parecer da Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo Estratégico (Seplan) e para a falta de fundamentação técnica e científica que respaldasse a necessidade de extirpação de cada uma das 48 árvores.
Resposta da Amma
A quantidade de remoções surpreendeu moradores, que identificaram espécimes saudáveis na lista. Zilma Percussor Campos, presidente da Amma, justificou que se trata de uma substituição técnica: árvores inadequadas ou de pequeno porte, como goiabeiras e escovas-de-garrafa, darão lugar a espécies frondosas que garantam mais sombra.
“Tem um um ‘pet place’ que vai ser instalado que existe duas goiabeiras de pequeno porte. Não é uma árvore adequada para estar nesse local. Nós vamos realizar a retirada porque o exemplar não é adequado para estar no parque e que tenha a oportunidade de colocar uma espécie que seja frondosa e que traga proteção de calor aos animais que no futuro ali estarão”, complementa.
A presidente da agência também deixou claro que os moradores podem confrontar o laudo apresentado com outro laudo técnico, assinado por um profissional competente e que, após essa situação, poderiam entrar com uma ação no Ministério Público para que cheguem a um acordo.
Amma sustenta necessidade de remoções, mas especialista aponta soluções

Zilma ainda esclarece que a decisão da Amma é respaldada por um laudo técnico de 51 páginas elaborado por técnicos, que analisaram o tronco, raízes, necrose e inclinação de cada exemplar. Na tarde desta segunda-feira (25), durante entrevista coletiva no Lago das Rosas, técnicos da Agência de Meio Ambiente mostraram a situação de uma Paineira-Branca, também conhecida como Barriguda.
Na ocasião, os técnicos explicaram que o exemplar, com mais de 80 anos, já não possuía raízes no chão e que já estava nos estágios finais de sua vida. Por conta disso, a agência vê a necessidade de realizar a retirada desta árvore, que se encontra ao lado da pista de caminhada e de uma academia pública.
“O parque vai sofrer intervenções e não tem impacto arbóreo, a única preocupação nossa é uma árvore dessa cair […], se acontecer delas demoram mais, tem o risco para a população, porque um dia a mais pode ser uma vida a menos”, ressalta a presidente.
A engenheira agrônoma da Amma, Janira Padial, explicou que a Barriguda, com mais de 80 anos, que estava dentro das árvores a serem retiradas está em mau estado e representa um risco de queda em ambiente urbano, podendo atingir fiação elétrica, veículos e pedestres. A causa encontrada para essa degradação foi uma praga chamada Eucroma Giganteia, que começa a partir das larvas de besouros que fragilizam a madeira da árvore.
Dentro do planejamento de revitalização, para compensar a retirada deste exemplar, serão plantadas três mudas da mesma árvore. “O importante que a gente fala é, quando comparamos uma árvore saudável com uma muda, é uma coisa, mas a gente está comparando as mudas com uma árvore que está morrendo”, complementa.
Embora a Agência Municipal do Meio Ambiente afirme que as árvores apresentam comprometimentos estruturais, o arquiteto e urbanista Fred Le Blue aponta que existem técnicas capazes de preservar parte desses exemplares sem necessidade imediata de remoção.
Entre as alternativas estão sistemas de contenção e estabilização utilizados em árvores antigas ou debilitadas. Uma das técnicas mais comuns é o cabeamento e estaiamento, que utiliza cabos de aço ou cintas sintéticas para redistribuir o peso e reduzir os impactos causados pelo vento, funcionando como uma espécie de “suporte ortopédico” para a árvore. Outra possibilidade é o escoramento, feito com estruturas metálicas ou de madeira para sustentar galhos pesados ou troncos inclinados.
Também pode ser aplicada a poda de redução e equilíbrio, que diminui o peso da copa e melhora a passagem do vento, reduzindo riscos de queda. Segundo especialistas, porém, qualquer medida depende de avaliação técnica detalhada para verificar se tronco e raízes ainda possuem condições de sustentação.