Descredenciamento de clínicas da Unimed gera tensão entre famílias de crianças autistas em Goiânia
Famílias dizem ter sido surpreendidas com a saída de clínicas da rede credenciada; Justiça já determinou a manutenção de tratamento em um dos casos
O descredenciamento de clínicas especializadas da rede da Unimed tem gerado preocupação entre famílias de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Goiânia. Mães relatam insegurança sobre a continuidade das terapias, dificuldades para adaptação a novos profissionais e possíveis impactos no desenvolvimento das crianças após mudanças nos atendimentos multidisciplinares.
Entre as unidades citadas pelas mães está o Instituto Kids. Em documentos analisados pela reportagem, a clínica aparece com previsão de encerramento dos atendimentos pela operadora em junho de 2026.
Uma das ações obtidas pelo Jornal O Hoje foi movida pela advogada e mãe atípica Chrystiene Queiroz. No processo, ela relata que a filha, diagnosticada com TEA, realizava acompanhamento terapêutico contínuo no Instituto Kids e já apresentava avanços em áreas como linguagem, coordenação motora, interação social e regulação emocional. A ação também destaca a existência de vínculo consolidado com os profissionais responsáveis pelo atendimento.
Segundo os autos, Chrystiene buscou esclarecimentos junto à operadora sobre como seria feita a continuidade do tratamento após o descredenciamento da clínica. O processo aponta que a resposta recebida informava que ainda não havia orientações disponíveis sobre o caso. Diante da situação, a Justiça concedeu tutela de urgência para garantir a manutenção das terapias.
Mães relatam preocupação com mudança de terapeutas
As famílias ouvidas pela reportagem afirmam que a principal preocupação está na interrupção do vínculo entre crianças e terapeutas. Segundo os relatos, muitas crianças levam meses — e até anos — para se adaptar ao ambiente terapêutico e criar confiança nos profissionais responsáveis pelos atendimentos.
Cristiane Almeida, outra mãe atípica, afirmou durante manifestação na Câmara Municipal de Goiânia, que mudanças repentinas costumam provocar crises emocionais e dificuldades de adaptação. “A criança cria confiança no terapeuta, começa a evoluir e se acostuma com aquela rotina. Quando precisa mudar de repente, ela sente muito. Em alguns casos, a família percebe regressão no comportamento e no desenvolvimento”, relatou.
Ela também afirma que algumas famílias receberam comunicados com pouco tempo de antecedência. “Tem mães que ainda nem receberam notificação oficial. Outras receberam aviso faltando poucas semanas. Muitas não sabem para onde os filhos serão encaminhados”, disse.
Segundo Cristiane, mães de diferentes bairros da capital passaram a trocar informações diariamente após os relatos sobre os descredenciamentos. “Hoje existe um grupo com dezenas de mães tentando entender como ficará o atendimento das crianças e buscando respostas sobre essa transição”, afirmou.
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Documentos apontam falta de transição individualizada
Na petição analisada pela reportagem, a defesa de Chrystiene afirma que a família não recebeu um plano individualizado de transição terapêutica. O documento também menciona preocupação com possíveis impactos provocados pela troca de profissionais e de ambiente terapêutico.
A advogada Elisa Verwaest, responsável pela ação, afirma que a principal preocupação apresentada pela família envolve a continuidade terapêutica das crianças afetadas pelos descredenciamentos. “O tratamento de crianças com TEA depende de adaptação, previsibilidade e vínculo terapêutico. A ação busca preservar essa continuidade diante das mudanças anunciadas”, afirmou.
O processo lista sessões semanais de psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicomotricidade, além de apontar custo mensal estimado em R$ 7,2 mil caso o tratamento precise ser mantido de forma particular.
Na decisão, o magistrado destaca que crianças com TEA dependem de previsibilidade, rotina e estabilidade terapêutica, especialmente durante a primeira infância. O texto também cita risco de regressão em caso de interrupção abrupta do acompanhamento.
As denúncias recebidas pela reportagem ocorrem em meio a um histórico recente de questionamentos envolvendo atendimentos para pacientes com TEA na rede da Unimed Goiânia. Em 2025, o Procon Goiás autuou a operadora após denúncias relacionadas à redução de terapias e dificuldades relatadas por famílias de crianças autistas. Na época, o órgão informou que recebeu reclamações sobre limitações em sessões terapêuticas e mudanças de clínicas indicadas para os pacientes.
Em nota, a Unimed Goiânia afirmou que “todas as disposições previstas nos respectivos contratos de prestação de serviços foram integralmente observadas” e que “segue comprometida com a continuidade da assistência, assegurando aos beneficiários atendimento adequado e qualificado por meio de sua rede credenciada”. A cooperativa afirmou ainda que “ninguém ficará desassistido”.