PMMA passa a ser proibido em procedimentos estéticos após mortes e complicações
Decisão do Conselho Federal de Medicina ocorre após anos de alertas de entidades médicas sobre os riscos de infecções, necroses, embolias e outras complicações graves
Na última sexta-feira (29), o Conselho Federal de Medicina proibiu o uso do Polimetilmetacrilato (PMMA) como substância preenchedora em todo o Brasil, tanto para fins estéticos quanto reparadores. A medida entra em vigor nesta terça-feira (2). Com isso, médicos não podem mais adquirir e nem realizar procedimentos com a substância.
Antes dessa medida, a Sociedade Brasileira de Dermatologia e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica já haviam proibido o uso do PMMA em procedimentos estéticos. A única exceção para o uso do polimetilmetacrilato são casos de lipodistrofia em pacientes com HIV/aids, mas com a ressalva de ser realizado em unidades de alta complexidade credenciadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O polimetilmetacrilato (PMMA) é um material sintético formado por microesferas dispersas em um gel, utilizado como preenchedor de caráter permanente. Na área médica, sua aplicação é permitida em situações específicas, como procedimentos reconstrutivos e correção de deformidades.
Porém, nos últimos anos, a substância passou a ser usada também em intervenções estéticas para aumento de volume em regiões como glúteos, rosto e outras partes do corpo. O uso com finalidade estética é frequentemente questionado por entidades médicas devido ao potencial de provocar complicações graves e de difícil reversão.
Além da proibição do CFM, a Anvisa, em 2022, já havia reforçado de forma mais assertiva, os limites de uso e as indicações aprovadas para os produtos, como correção de defeitos tegumentares e correção volumétrica facial e corporal em casos necessários, por motivações de saúde e sob indicação médica, reforçando, que não há indicação para aumento de volume meramente estético.
Esse movimento das entidades médicas e reguladoras começou devido à crescente nos casos de complicações e mortes, por conta de procedimentos estéticos feitos com PMMA. Mais recentemente, no dia 26 de maio, Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira, de 48 anos, morreu após passar mal em uma clínica estética localizada em São Paulo. Segundo o boletim de ocorrência, Roseli havia passado por um procedimento estético nos glúteos e na parte posterior das coxas com aplicação de PMMA.
Riscos
O médico dermatologista Adriano Loyola explica que o polimetilmetacrilato é um derivado do plástico e, por conta disso, sua composição pode causar diversas complicações. “Ele é um produto definitivo e a gente não consegue remover esse produto. Ele é aplicado intramuscular, então ele pode causar infecção, necrose e pode causar embolia”, complementa.
A embolia, segundo Loyola, é a maior causa de mortes em pacientes com implantes de PMMA, acontecendo quando partículas do produto caem na corrente sanguínea e chegam ao pulmão. Além disso, já foram registrados casos de complicações relacionadas a problemas renais, onde o paciente teve que fazer hemodiálise por insuficiência renal.
Outro ponto de destaque é que após a aplicação do PMMA, não é possível realizar a retirada completa do implante. “Ele é um produto denso, que forma nódulos, chamados de granuloma, e muitas vezes a pessoa, se ela tiver uma reação alérgica ou uma infecção você não consegue remover o produto”, ressalta o dermatologista.
Por conta dessa dificuldade, é necessário que as pessoas que realizaram procedimentos estéticos com esse produto mantenham um acompanhamento médico contínuo, já que muitas complicações acontecem a longo prazo.
Uso indevido e baixo custo
Outro problema do uso do PMMA para fins estéticos é a facilidade para conseguir e a falta de fiscalização, pois apenas médicos e dentistas estariam autorizados a realizar as aplicações. Porém, a realidade acontece de formas diferentes, com profissionais de outras áreas, como farmacêuticos e esteticistas, atuando neste campo.
Na visão do especialista, essa facilidade é a razão pela qual a fiscalização não funciona como deveria. “Muitas vezes a Anvisa e nem o Conselho Regional de Medicina, conseguem fiscalizar todos os locais, porque muitas vezes não são médicos que fazem os procedimentos”.
Mesmo com todas essas complicações e riscos, o uso do PMMA continua frequente, devido a seu baixo custo. Com isso, os profissionais que optam por utilizar o polimetilmetacrilato conseguem cobrar valores elevados, aumentando a sua margem de lucro. “Por isso que as pessoas saiam fazendo cursos e aplicando, você ganhava muito, com uma porcentagem enorme de lucratividade”, acrescenta Loyola.
O dermatologista ainda pontua algumas alternativas seguras para procedimentos estéticos, entre elas, incluem ácido hialurônico e bioestimuladores de colágeno, que são menos arriscados, não definitivos e aprovados pelas autoridades de saúde. “Todos esses produtos são moléculas mais seguras, mais isentas de tantas complicações, não são definitivas e que são respaldadas tanto pelas sociedades quanto pelo CFM e pela Anvisa”, finaliza.
Morte de paciente em Goiás expõe riscos que motivaram proibição
Neste ano, em Goiás, foi registrado uma morte causada por complicações de aplicações de PMMA. Isabel Cristina Oyama Jacinto Gonzaga, de 59 anos, passou por uma remodelação de glúteos no dia 10 de fevereiro e morreu na manhã do dia 8 de março, após semanas de problemas de saúde. O óbito foi registrado após internação em Anápolis.
Segundo relato de familiares à polícia, cerca de cinco dias após a aplicação do produto estético, Isabel começou a apresentar dores intensas e acúmulo de líquido na região onde a substância foi aplicada. A família entrou em contato com a clínica e foi orientada a retornar ao local no dia 19 de fevereiro.
Com o passar dos dias, o quadro de saúde se agravou. A vítima passou a apresentar vômitos, dores abdominais intensas, fadiga e arritmia cardíaca. A família afirma que voltou a procurar a clínica mais uma vez, mas teria recebido a informação de que os sintomas não estavam relacionados ao procedimento estético.
Diante da piora do estado de saúde, Isabel foi levada para uma unidade de saúde em Anápolis. Após receber atendimento médico, ela retornou para casa. No dia seguinte, com o agravamento dos sintomas, a mulher voltou ao mesmo posto de saúde e acabou sendo transferida para o Centro Hospitalar Ânima, também em Anápolis, onde permaneceu internada até ter a morte confirmada.
Segundo o Instituto da Longevidade, local onde Isabel realizou o procedimento, ela teria feito uma correção glútea com PMMA, sem ocorrência de intercorrências clínicas ou complicações associadas, e uma subcisão para correção estética de celulite, com intercorrência caracterizada por processo infeccioso e hemorrágico.
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