segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Território livre

China reconhece Brasil livre de aftosa sem vacinação e abre novas oportunidades para a pecuária goiana

Aval da maior compradora mundial de proteína animal fortalece a imagem sanitária do País, amplia possibilidades de exportação e pode impulsionar a venda de cortes premium e miúdos produzidos em Goiás

Letícia Leitepor em
China reconhece Brasil livre de aftosa sem vacinação e abre novas oportunidades para a pecuária goiana
Goiás é o terceiro maior exportador de carne bovina do Brasil, esse reconhecimento reforça a qualidade do rebanho local. Foto: Adobe Stock

O reconhecimento oficial da China ao Brasil como território livre de febre aftosa sem vacinação representa um novo capítulo para a pecuária nacional e pode gerar reflexos diretos para Goiás, um dos principais produtores e exportadores de carne bovina do País. O anúncio foi feito pela Administração-Geral das Alfândegas da China (GACC) e pelo Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais chinês, que passaram a reconhecer todo o território brasileiro como livre da doença.

Na prática, a decisão elimina barreiras sanitárias que ainda limitavam a entrada de determinados produtos brasileiros no mercado chinês e fortalece a posição do Brasil diante dos principais concorrentes globais. O reconhecimento ocorre cerca de um ano após o país conquistar o status de livre de febre aftosa sem vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA).

Para Goiás, o impacto pode ser ainda mais significativo. O Estado possui um dos maiores rebanhos bovinos do Brasil e ocupa posição de destaque nas exportações de proteína animal. 

Segundo o analista de mercado do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Marcelo Penha, o reconhecimento consolida a credibilidade sanitária brasileira e cria condições para a expansão de mercados. Já que o Brasil passa a ocupar o mais alto nível de biosseguridade reconhecido internacionalmente. Isso fortalece a competitividade da nossa carne justamente em um momento em que importantes concorrentes enfrentam dificuldades de produção e abastecimento.

Segundo Penha, a medida destrava a comercialização de produtos que até então encontravam restrições sanitárias, como carne bovina com osso e miúdos, além de ampliar as oportunidades para a cadeia da suinocultura. 

“Além do ganho comercial direto com o principal parceiro econômico do Brasil, o aval funciona como uma valiosa chancela internacional que acelera a abertura de mercados tradicionalmente muito exigentes e altamente rentáveis, a exemplo do Japão, da Coreia do Sul e do Canadá”, complementa.

Ainda de acordo com o especialista, para Goiás, terceiro maior exportador de carne bovina do País, esse reconhecimento reforça a qualidade do rebanho local, reduz custos operacionais e abre espaço para produtos de maior valor agregado.

Mercado premium

A expectativa do setor é que o novo status sanitário contribua para a valorização da pecuária goiana. Além da possibilidade de ampliar as exportações para a China, o reconhecimento fortalece a imagem do Brasil como fornecedor confiável em um cenário internacional marcado por surtos de febre aftosa registrados em países da Ásia e da Europa.

De acordo com Penha, a retração da produção de carne bovina nos Estados Unidos e em parte do continente europeu também cria uma janela de oportunidade para os produtores brasileiros.

Apesar disso, o especialista pondera que o crescimento das exportações não dependerá exclusivamente do mercado chinês. Segundo ele, o país asiático continua adotando mecanismos de controle comercial e cotas para importação de carne bovina. Dessa forma, parte da expansão poderá ocorrer por meio da abertura de novos mercados internacionais.

Trabalho de décadas

A conquista do status sanitário é resultado de um trabalho construído ao longo de décadas. Segundo o presidente da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa), José Ricardo Caixeta Ramos, Goiás se preparou de forma gradual para atingir o reconhecimento internacional.

Segundo ele, o último foco de febre aftosa registrado em Goiás ocorreu em 1995. Desde então, houve um esforço conjunto entre governos, produtores rurais e entidades do setor para erradicar a doença e consolidar um sistema eficiente de defesa agropecuária.

Criada em 2003, a Agrodefesa coordenou campanhas obrigatórias de vacinação, ações de educação sanitária e programas de conscientização junto aos pecuaristas. De acordo com o presidente da agência, os índices de imunização sempre superaram 99%, fator decisivo para a erradicação da doença e para o encerramento da vacinação obrigatória, cuja última etapa ocorreu em 2022.

Vigilância permanente

Mesmo com a retirada da vacina, o sistema de vigilância sanitária continua ativo. José Ricardo explica que o foco agora está na prevenção e na identificação precoce de eventuais suspeitas. “Como o vírus segue ativo e em circulação em outras partes do mundo, não é possível descartar totalmente uma eventual reintrodução no Brasil”, ressalta.

Recentemente, a Agrodefesa publicou uma nota técnica reforçando a necessidade de manutenção das medidas preventivas no cenário pós-vacinação. Em caso de qualquer suspeita de doença vesicular, a orientação é que produtores e médicos veterinários comuniquem imediatamente os órgãos oficiais de defesa sanitária.

Para o setor produtivo, a nova fase também trouxe mudanças na rotina das propriedades. Com o fim da vacinação, os pecuaristas passaram a depender ainda mais da vigilância ativa e do controle rigoroso do trânsito animal por meio das Guias de Trânsito Animal (GTA). Além disso, houve o fortalecimento do Fundo de Desenvolvimento da Pecuária de Goiás (Fundepec-GO), criado para apoiar ações emergenciais em caso de eventual foco da doença.

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