segunda-feira, 22 de junho de 2026
OPINIÃO

Vitória de Flávio, Caiado, Zema ou Renan prova que partido acabou

PL é um saco de gatos, PSD é mais dividido que o território de Minas Gerais, o Novo é um nanico, o Missão é menor que uma tarefa de duas linhas e o eleitor está nem aí para isso. Paga e anda para siglas, quase todas de aluguel

Nilson Gomespor Nilson Gomes em 2 de junho de 2026
Vitória de Flávio, Caiado, Zema ou Renan prova que partido acabou
Trocas constantes de legenda e candidaturas personalistas reforçam a percepção de enfraquecimento dos partidos políticos no Brasil - Foto: Lula / Flávio Bolsonaro/ Renan/ Zema

Até hoje ninguém entende como Romeu Zema se elegeu em Minas Gerais pelo Novo, um partideco de quinta categoria, no qual ele foi mais traído do que seu conterrâneo Tiradentes. No mesmo ano em que conquistou o primeiro mandato de governador, outra sigla anã, o PSL, que nem existe mais e cuja falta é sentida por exatamente ninguém, chegava à Presidência da República com Jair Bolsonaro.

Zema ao menos vinha de uma trajetória de sucesso administrativo na iniciativa privada. Bolsonaro, porém, era como seus antecessores Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Lula (PT) e Dilma Rousseff (PT): nunca havia gerido sequer uma banquinha de espetinho. Foram demonstrações sucessivas de que os partidos, fundamentais nas grandes democracias, significam cada vez menos, se é que algum dia significaram muita coisa. O fato de o eleitor votar na pessoa, e não na legenda à qual ela está filiada, mostra duas coisas: está tudo errado e os partidos, mais ainda.

O partido é o líder

No Brasil, partido é o líder. O PSDB era Fernando Henrique Cardoso, e somente ele conseguiu subir a rampa do Palácio do Planalto. O PT é tão dependente de Lula que, com ele livre, até Dilma se elegeu, e, com ele preso, Fernando Haddad foi derrotado por Bolsonaro.

Assim como o PSL, o PL também depende de um nome — ou melhor, de um sobrenome: Bolsonaro. Antes pode ter Jair, Michelle, Carlos ou Flávio. Esse personalismo é o mesmo nos estados. Em todas as unidades da Federação, a única ideologia seguida à risca é a do binômio poder e dinheiro. A agremiação partidária pode ser qualquer uma, já que, para boa parte da população, tanto faz que existam ou desapareçam.

Troca-troca partidário

Em 44 anos, Henrique Santillo foi o único a furar a bolha de Vilela e Rezende no MDB de Goiás. Neste ano, dois herdeiros dessas famílias disputarão o Palácio das Esmeraldas: Daniel Vilela ao governo e Ana Paula Rezende como vice de Wilder Morais (PL).

Para reforçar a tese de que partido serve para pouca coisa, Ana Paula mudou de legenda — do MDB para o PL — aos 48 minutos do segundo tempo, assim como Ronaldo Caiado, que trocou o União Brasil pelo PSD, e Zacharias Calil, que deixou o União Brasil, passou pelo PL e depois foi para o MDB. Duas dezenas de deputados estaduais e federais também trocaram de partido entre a última eleição e a atual.

Siglas frágeis

Se Lula independe do PT, esta é a única sigla com pré-candidato seguro. Flávio entrou no PL para se eleger senador pelo Rio de Janeiro na legenda à qual o pai havia acabado de se filiar. Caiado, como se viu, trocou de partido. Renan acabou de fundar um. Zema mal pode dizer que tem legenda.

PL é um saco de gatos, PSD é mais dividido que o território de Minas Gerais, o Novo é um nanico, o Missão é menor que uma tarefa de duas linhas, para usar uma analogia dos tempos áureos do agro antes da tecnologia. E o eleitor está nem aí para isso, paga e anda para siglas, praticamente todas de aluguel. O PT escapou por pouco de ser sepultado pela Justiça durante a Operação Lava Jato, quando metade de seus dirigentes estava presa ou temia ser presa.

Quando a legenda importava

Houve um período em que os partidos políticos tinham algum significado, a tal ponto que ainda hoje há quem chame o MDB de PSD e o PP de UDN. Obviamente, não eram essa bagunça de agora, em que se troca mais de partido do que de botina, até porque muitos querem ambos aos seus pés.

Em grande parte dos municípios goianos, permanece a rivalidade PSD versus UDN ou PDS versus Arena. Quando Iris Rezende filiou o ex-governador Irapuan Costa Júnior, egresso do PDS, foi um assombro. Quando outro ex-governador, Mauro Borges, deixou o PMDB e ingressou no PDC, novo susto. Atualmente, qualquer político pode aportar em qualquer legenda sem que isso vire manchete ou gere repercussão relevante sequer nas redes sociais dos próprios gabinetes.

O preço do radicalismo

O purismo pode ser fatal, como ocorreu com o PT. Na primeira leva de filiações, o partido recebeu o então senador Henrique Santillo e Joaquim Roriz, que depois seriam governadores, mas ambos permaneceram pouco tempo na estrela vermelha.

Posteriormente, o partido se radicalizou com a tese de que trabalhador vota em trabalhador. E acumulou derrotas, porque, para parte de sua militância, trabalhador era quem não trabalhava, apenas militava. Dois ex-prefeitos de Goiânia eleitos pela legenda, Darci Accorsi e Paulo Garcia, deixaram o partido após concluírem seus mandatos.

Vale tudo

A balbúrdia é tamanha que houve casos, neste ano, de pré-candidatos a deputado que trocaram de legenda oito vezes. E nada lhes aconteceu.

A pouca-vergonha tornou-se tão comum que os presidentes partidários esperam algum tempo antes de registrar oficialmente uma filiação, pois sabem que sair é tão fácil quanto entrar. Não paga nada, não ganha nada, não lucra nada, não vale nada.

Os regimentos partidários, da extrema direita à extrema esquerda, são mais parecidos entre si do que parecem admitir seus dirigentes. Há estatutos de partidos comunistas semelhantes aos de legendas liberais. E vice-versa.

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