quinta-feira, 20 de agosto de 2026
saúde

Pafus e fim da calamidade expõem impasses na gestão da saúde de Goiânia

Enquanto o Paço aposta na autonomia das unidades e na ampliação de contratos terceirizados, especialistas, órgãos de controle e entidades sindicais questionam os efeitos das medidas

Anna Salgadopor Anna Salgado em
Corredor de hospital
Legenda: Pafus transfere recursos diretamente às unidades de saúde, mas especialistas apontam que a medida não enfrenta problemas estruturais da rede | Foto: Arquivo/ABr

A saúde pública de Goiânia passa por mudanças na gestão municipal em 2026, com a implementação do Programa de Autonomia Financeira das Unidades de Saúde (Pafus), a ampliação de contratos terceirizados e o final próximo do Estado de calamidade pública decretado para a área. As medidas são defendidas pela Prefeitura de Goiânia como instrumentos para aumentar a eficiência administrativa, mas também são alvo de questionamentos por parte de órgãos de controle, especialistas e entidades sindicais.

A principal iniciativa da gestão foi a sanção da Lei nº 11.623/2026, que institui o Pafus. O programa prevê a descentralização de recursos para 117 unidades da rede municipal de saúde, permitindo que diretores realizem pequenos reparos e adquiram materiais de consumo sem depender dos trâmites administrativos da administração central.

Para 2026, a previsão é de investimento de R$ 10 milhões, com possibilidade de ampliação para R$ 20 milhões em 2027. Os repasses poderão chegar a R$ 200 mil por unidade, de acordo com o porte de cada estabelecimento.

Segundo o secretário municipal de Saúde, Luiz Pellizzer, a medida busca garantir maior agilidade na execução de pequenas obras e reformas. O programa foi inspirado no modelo já adotado na área da educação por meio do Programa de Autonomia Financeira das Instituições Educacionais (PAFIE).

Apesar disso, especialistas apontam que a iniciativa não resolve problemas estruturais da rede municipal. Entre os desafios citados está a fila de exames, que no início da calamidade registrava 182.450 pacientes aguardando ultrassonografias. Também há questionamentos sobre a carga administrativa imposta aos diretores das unidades, que passarão a ser responsáveis pela gestão dos recursos e pela prestação de contas periódicas aos órgãos de controle e aos Conselhos Locais de Saúde.

Paralelamente à implantação do Pafus, a gestão Mabel ampliou a participação de entidades privadas e Organizações Sociais (OSs) na prestação de serviços públicos de saúde.

Um dos casos envolve o contrato de R$ 8,56 milhões firmado com o Serviço Social da Indústria (SESI) para a realização de perícias médicas. O Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO) mantém o entendimento de que a atividade pericial constitui função típica de Estado e deveria ser desempenhada por servidores efetivos. O município argumenta que a terceirização gerou economia de R$ 35,5 milhões e contribuiu para uma redução de 42% nos afastamentos de servidores. O TCM-GO, contudo, apontou irregularidades relacionadas à dispensa de licitação e ao planejamento administrativo da contratação.

Outro episódio ocorreu na Maternidade Célia Câmara. O contrato com a Organização Social responsável pela unidade foi suspenso após registros de incapacidade técnica, falta de insumos e riscos à assistência prestada aos pacientes. O caso reacendeu o debate sobre o modelo de gestão por Organizações Sociais.

O Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde/GO) afirma que a terceirização fragiliza as relações de trabalho e compromete a estabilidade dos serviços. Já especialistas em políticas públicas avaliam que o crescimento desse modelo reduz a participação direta do município na execução das atividades de saúde.

As mudanças ocorrem em um contexto de vigência do estado de calamidade pública na saúde municipal. A medida foi decretada em janeiro de 2025 e prorrogada por mais 180 dias, com efeitos a partir de 1º de janeiro de 2026. O prazo atual se encerra em 29 de junho.

Ao prorrogar o decreto, a prefeitura argumentou que a rede municipal de saúde enfrentava um passivo de aproximadamente R$ 200 milhões junto a prestadores do Sistema Único de Saúde (SUS), além de outras obrigações financeiras que impactavam a execução orçamentária. Documentos oficiais indicam que o Fundo Municipal de Saúde encerrou 2025 com mais de R$ 112 milhões em restos a pagar.

A manutenção da calamidade também é alvo de contestação judicial. O Sindsaúde-GO obteve decisões favoráveis em ações relacionadas à suspensão de direitos de servidores, como gratificações, progressões e licenças. Em uma dessas decisões, a juíza Raquel Lemos, da 3ª Vara da Fazenda Pública Municipal, reconheceu a legitimidade do sindicato para questionar medidas adotadas durante a vigência dos decretos.

Enquanto a Secretaria Municipal de Saúde sustenta que a calamidade é necessária para flexibilizar procedimentos administrativos e acelerar a aquisição de insumos, órgãos de controle e parlamentares da oposição questionam a continuidade da medida. Relatórios anteriores do Tribunal de Contas e do Ministério Público de Goiás apontaram a necessidade de fundamentação técnica e contábil para justificar a manutenção do estado excepcional.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Veja também

Prefeitura em Goiás abre concurso com 100 vagas e salário de até R$ 11,9 mil

Concurso Público

Prefeitura em Goiás abre concurso com 100 vagas e salário de até R$ 11,9 mil

Oportunidades são para níveis fundamental, médio, técnico e superior; inscrições começam em s...
Promotora viaja para congresso em Salvador e morre após afogamento

Tragédia

Promotora viaja para congresso em Salvador e morre após afogamento

Promotora do Amazonas morre durante viagem para congresso na Bahia
Cão do Senado que atacou veterinária é retirado das atividades e passará por exames

Ataque

Cão do Senado que atacou veterinária é retirado das atividades e passará por exames

Após ataque a veterinária, Senado retira cão de operações e abre apuração
Morre mulher atropelada por adolescente embriagado em Goiânia

Tragédia

Morre mulher atropelada por adolescente embriagado em Goiânia

Mulher estava em protocolo de morte encefálica e morreu cinco dias após ser atingida por uma camin...
Aluguel descontado do salário? Entenda proposta aprovada pela Câmara

ALUGUEL CONSIGNADO

Aluguel descontado do salário? Entenda proposta aprovada pela Câmara

Chamado de aluguel consignado, modelo poderá permitir pagamento direto pela folha e servir como alt...
Veterinária atacada por cão do Senado está em estado grave na UTI

ATACADA ENQUANTO ALIMENTAVA

Veterinária atacada por cão do Senado está em estado grave na UTI

Vitória Valle de Oliveira Pinha, de 36 anos, sofreu ferimentos graves no pescoço, passou por cirur...
O que aconteceu com o Honda Civic? Carro vende só 34 unidades em 2026

JÁ FOI PROTAGONISTA

O que aconteceu com o Honda Civic? Carro vende só 34 unidades em 2026

Antigo rival do Toyota Corolla chegou a superar 67 mil unidades vendidas em seu melhor ano, mas muda...
Dupla

CONFESSARAM OS CRIMES

Dupla é presa suspeita de cometer roubos contra adolescente e idosa em Aparecida de Goiânia

Crimes aconteceram nos dias 6 e 7 de agosto, nos bairros Jardim Dom Bosco e Vila Romana; uma motocic...