CDB deixa fase independente e mira mercado nacional
Lucas e PEU contam no Manda Vê como o grupo saiu das resenhas universitárias de Goiânia, entrou para a MJ Music e tenta levar o pagonejo para além do mercado local
O CDB nasceu menos de um plano de mercado do que de uma cena comum em Goiânia: amigos reunidos depois do futebol, churrasco, bebida, violão, pandeiro e uma roda que só acabava quando a madrugada deixava. Foi dessa prática, repetida em resenhas universitárias, que Lucas e PEU começaram a desenhar o som que chamam de pagonejo, mistura entre a cadência do pagode e a narrativa afetiva do sertanejo.
Na última segunda-feira, em participação no podcast Manda Vê, apresentado por Juan Allaesse, os cantores recuperaram a origem do grupo. Antes de haver escritório, agenda e palco grande, havia improviso. A turma pedia música, eles cantavam uma, lembravam outra e a sequência se perdia no “qual vai agora?”. Até que alguém sugeriu montar cerca de 40 minutos de repertório para a resenha não esfriar.
A ideia deu origem ao primeiro show. PEU ligou para Nandinho, que já o chamava para tocar em confraternizações de fim de ano, e avisou que agora tinha uma banda. O cachê foi de R$800, dividido entre os quatro integrantes da formação inicial. Naquela noite, o repertório criado para encontros entre amigos rendeu mais dois aniversários. Foi o sinal de que a brincadeira tinha virado trabalho.
O nome veio do futebol. Como quem começa na bola passa pela categoria de base, eles, que também estavam começando na música, adotaram a mesma lógica. Nascia o CDB, sigla de Categoria de Base. A música veio com cara de turma, sem a distância calculada de um produto concebido em escritório.
Lucas, natural de Casa Branca, no interior paulista, chegou à música pelo pagode. O cavaco foi o primeiro instrumento. PEU, nascido em Jataí e criado em Cachoeira Alta, seguiu por outro caminho. Cresceu perto da fazenda do avô, ouvindo Tonico & Tinoco, Tião Carreiro, Mato Grosso & Mathias, Leonardo e José Rico.
O pagonejo surgiu desse encontro. Nas resenhas, PEU cantava sertanejo enquanto Lucas colocava o pandeiro em outra levada. Quando o público pediu Exaltasamba, Revelação, Belo e Raça Negra, PEU adaptou músicas para uma batida mais próxima da vaneira. A solução de urgência virou identidade. O sertanejo não desapareceu, e o pagode não entrou como enfeite.
A profissionalização veio rápido. Em poucos meses, o grupo saiu da resenha para aniversários, barzinhos e palcos maiores. A apresentação no Deu Praia, em julho de 2019, e a chegada ao Vilão mostraram que não dava mais para seguir com estrutura improvisada. Era preciso organizar banda, repertório e arranjos. Nesse processo, o produtor musical ajudou a dar forma ao show.
A conversa no Manda Vê também tocou em uma parte menos visível da carreira. Por trás da alegria entregue no palco, existe estrada, horas de viagem, logística, sono curto e, muitas vezes, pouco tempo para comer. O público vê a festa, mas raramente acompanha o custo físico para que ela aconteça.
Antes de assumir a música como centro da vida profissional, os dois concluíram a formação acadêmica. Lucas se formou em Engenharia Elétrica. PEU concluiu Direito. Por um tempo, tentaram conciliar as carreiras tradicionais com os shows, mas passaram a perder compromissos dos dois lados. A escolha veio quando a dupla entendeu que o palco já exigia dedicação integral.
A entrada na MJ Music marcou outra virada. Depois de gerir o CDB por anos de forma independente, eles passaram a contar com suporte de agenda, marketing, jurídico, estratégia digital e relacionamento com contratantes. A principal mudança foi a possibilidade de furar a bolha de Goiânia. Levar o pagonejo para fora do mercado local, antes limitado por custos e falta de rede, tornou-se uma meta concreta.
Na nova fase, o CDB passou a conviver com artistas e produtores que antes eram referências distantes. Nomes como Panda, Ícaro, Beto, Rafael Quadros, Bruno Mendes, Mariana Fagundes e Luan Pereira passaram a fazer parte dessa convivência. Quando o ônibus do CDB pegou fogo, Panda ofereceu equipamentos e apoio. A aproximação deixou de ser apenas admiração e virou escola.
O primeiro DVD do grupo dentro da MJ teve produção de Ícaro, em parceria com Diego Souza, no estúdio Ilha 43. As primeiras composições para projetos autorais também colocaram Lucas e PEU ao lado de nomes com repertório nacional. A resenha, que antes era universitária, tornou-se método de criação, troca e posicionamento.
O episódio completo com a participação do CDB está disponível no canal do YouTube do Manda Vê.