segunda-feira, 22 de junho de 2026
SAÚDE PÚBLICA

Doença de Chagas registra aumento de 356% nos casos em uma década e preocupa especialistas

Transmissão oral por alimentos contaminados supera a picada do barbeiro como principal vetor; quando não tratada na fase aguda, doença pode levar à morte súbita cardíaca

Luana Avelarpor Luana Avelar em 22 de junho de 2026
Doença

Uma das doenças mais temidas do século passado voltou a ocupar espaço nas preocupações da saúde pública brasileira. A doença de Chagas, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e transmitida principalmente pelo inseto triatomíneo, o popular barbeiro, registrou aumento de casos na última década. Dados do Sinan, Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde, mostram que os registros saltaram de 64 casos em 2013 para 292 em 2023, crescimento que supera qualquer curva esperada para uma enfermidade que, até então, estava sob controle. O salto levanta uma questão que médicos e pesquisadores tentam responder: por que a doença voltou a crescer?

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O inseto e a infecção

A doença de Chagas, também chamada de tripanossomíase americana, é transmitida pelo barbeiro, inseto de hábitos noturnos que pica as pessoas enquanto dormem. Após a picada, o animal deixa fezes e urina próximas à ferida. Quando a vítima coça o local, leva o parasita presente nos dejetos para dentro do organismo.

Historicamente associado a áreas rurais, o barbeiro perdeu espaço com o êxodo rural, a urbanização e as campanhas de controle iniciadas ainda no século passado, a partir dos estudos do médico Carlos Chagas. Os números caíram e a doença ficou restrita a algumas regiões endêmicas. O cenário atual, no entanto, aponta para uma reversão desse quadro.

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Além da picada

Para o cardiologista Vinicius Marques Rodrigues, o principal vetor do aumento de casos não é o barbeiro em si. “O principal motivo para o aumento da doença de Chagas no Brasil, e de certa forma no mundo, ocorre devido à transmissão oral, ou seja, alimentos contaminados. Além disso, ainda predomina a forma de contaminação clássica através do barbeiro e durante a gestação”, explica.

Outras formas de transmissão incluem transfusão de sangue, passagem da mãe infectada para o filho via placenta e contaminação acidental em laboratórios. O médico enfatiza, porém, que a via oral tem ganhado protagonismo nos registros recentes, o que muda o perfil epidemiológico da doença e exige novas estratégias de prevenção.

Como se proteger

Segundo Rodrigues, enfrentar o avanço da doença exige ação em frentes distintas. “Para fugir da doença de Chagas, é preciso haver melhorias habitacionais, muita higiene com os alimentos, indo desde o manuseio até o preparo. É interessante usar mosquiteiros, usar telas em casa. Por último, é preciso evitar o consumo de carnes cruas ou mal cozidas”, orienta.

O cardiologista defende ainda investimentos em detecção precoce e no controle da transmissão oral como medidas centrais para conter o avanço dos números.

Cura possível, mas com prazo

Quando identificada nos primeiros sete dias, chamada de fase aguda, a doença tem cura. Os sintomas dessa fase incluem fraqueza, mal-estar, inchaço, dor de cabeça e uma marca característica na pele no ponto da picada.

O risco aumenta quando a infecção passa despercebida. O parasita pode permanecer incubado por décadas antes de se manifestar novamente, tornando o quadro crônico. “Quando não identificada no início e tratada, leva a um quadro de cardiopatia, que pode terminar com morte súbita cardíaca”, conclui Rodrigues.

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