PT tenta furar resistência entre evangélicos em Goiás, mas disputa segue travada por moral, fé e bolsonarismo
No meio evangélico, petistas falam em diálogo e liberdade religiosa; cientista político vê rejeição construída ao longo dos anos; liderança da igreja diz que a fé foi “sequestrada” por uma falsa ideologia
Historicamente distante do Partido dos Trabalhadores, o eleitorado evangélico voltou a ser alvo de uma ofensiva política do PT em Goiás. A sigla tenta reabrir canais com igrejas, lideranças religiosas e fiéis em um estado onde o conservadorismo tem peso forte na formação do voto. A aproximação não acontece por acaso: ela mira um segmento que influenciou o debate público nos últimos anos e se tornou uma das bases mais sensíveis da disputa entre esquerda e direita no país. No entanto, a tentativa de reaproximação esbarra numa resistência que não se explica apenas pela polarização recente. Entre a percepção de ameaça moral, a força do bolsonarismo e as diferenças internas do próprio universo evangélico, o PT encara uma barreira muito maior do que simples ruído de comunicação.
Dentro do partido, a avaliação é de que a rejeição entre evangélicos não pode ser tratada como algo natural ou definitivo. Em Goiás, o PT passou a operar com uma frente específica para esse público, o Núcleo Evangélico do PT (NEPT), formado por pastores, lideranças e militantes que transitam no meio religioso e tentam reduzir resistências históricas. A estratégia é abrir conversa com comunidades de fé, especialmente em Goiânia e no interior, e mostrar que o partido não tem como prática atacar igrejas nem interferir na liberdade religiosa. A leitura petista é de que parte da desconfiança foi alimentada por boatos, leituras distorcidas e anos de disputa política agressiva.
Vice-presidente do PT em Goiás, Sebastião Ribeiro de Sousa defende que a legenda sempre manteve respeito com os evangélicos e que a relação com esse campo nunca foi de enfrentamento direto. Segundo ele, o partido busca hoje reposicionar sua imagem entre os fiéis e desfazer a ideia de que a esquerda seria, por definição, inimiga da religião. “O PT sempre teve uma relação de respeito com os evangélicos. Sempre defendemos a liberdade religiosa e não é da nossa prática aparelhar os templos, até mesmo porque defendemos que o Estado seja laico”, afirma. Para Sebastião, a presença do NEPT é justamente a prova de que o partido quer atuar dentro desse ambiente de forma orgânica e contínua, sem depender apenas de campanhas eleitorais.
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Ele também sustenta que a rejeição ao PT foi inflada por desinformação e que o trabalho atual é, antes de tudo, de esclarecimento. O dirigente diz que o núcleo evangélico da sigla tenta dialogar com lideranças e bases religiosas para desmontar versões que, segundo ele, foram repetidas até virarem senso comum. “Temos na estrutura organizacional do partido um núcleo composto por lideranças evangélicas que fazem esse diálogo na perspectiva de reduzir as resistências no segmento. Inclusive de mostrar que muitas informações produzidas contra o PT são feitas por meio de fake news”, diz. Na leitura dele, o bolsonarismo pesa muito nas lideranças políticas e partidárias, mas essa influência não se transfere de forma automática para toda a base. “Na base não existe um alinhamento automático”, afirma.
Rejeição não nasceu ontem
Para o cientista político Marcos Marinho, a resistência ao PT entre evangélicos não pode ser reduzida a campanha de desinformação nem à força de um nome específico, como Bolsonaro. Na avaliação dele, houve ao longo dos anos uma construção política que associou as esquerdas, e em especial o PT, a tudo aquilo que certos setores religiosos passaram a considerar moralmente incompatível com sua visão de mundo. Essa associação, diz ele, foi reforçada por lideranças político-religiosas e se alimentou de uma leitura muito centrada em costumes, deixando em segundo plano temas como desigualdade, pobreza e políticas públicas. “Houve uma demonização das esquerdas e do PT por algumas lideranças político-religiosas”, é a síntese que ele oferece para explicar o processo.
Marinho entende que o avanço de pautas como aborto, direitos LGBTQIA+ e feminismo ajudou a empurrar parte do eleitorado evangélico para a direita. Em vez de discutir programas sociais ou projeto de país, muitos grupos passaram a ler a disputa política como um confronto direto entre fé e ameaça moral. Mas ele faz um alerta importante: o erro do debate público é tratar os evangélicos como massa única, um bloco homogêneo e sem diferenças internas. “Quem trata o voto evangélico como uma coisa única está totalmente equivocado”, diz. Para ele, o segmento é fragmentado, atravessado por correntes diversas, disputas entre denominações e visões muito distintas sobre política e religião.
Essa fragmentação ajuda a entender por que a força das igrejas em Goiás não se resume ao número de eleitores, embora esse número seja expressivo. Marinho avalia que o peso dos evangélicos está mais na capacidade de mobilização do que apenas na contagem do voto. As lideranças religiosas organizam discursos, influenciam narrativas e funcionam como centros de formação de opinião em regiões onde a presença institucional do Estado costuma ser mais frágil. Em outras palavras, o poder político do segmento vai além da urna: ele passa pelo púlpito, pelas redes internas e pela autoridade moral que certas lideranças exercem sobre os fiéis. É justamente por isso que a disputa pelo voto evangélico em Goiás é tão sensível e tão difícil de virar.
Uma liderança da igreja fala em “fé sequestrada”
Se Sebastião oferece a visão do partido e Marinho expõe a engrenagem política da resistência, a professora e suplemente a vereadora do PT em Goiânia, Ludmylla Morais traz uma leitura de dentro do universo religioso. Ela se define como liderança evangélica progressista, esposa de pastor, e faz questão de dizer que não é pastora ordenada. O cuidado com a autodefinição, aliás, já diz muito sobre o ambiente em que ela atua: um espaço no qual a palavra, o título e a autoridade pesam. Na entrevista, Ludmylla afirma que a fé cristã foi capturada por uma lógica ideológica que distorceu o discurso religioso e afastou parte dos evangélicos das pautas sociais que, segundo ela, sempre estiveram próximas do cristianismo. “Nós tivemos a fé sequestrada por uma falsa ideologia”, resume.
Para ela, a aproximação entre cristianismo e esquerda não é forçada. Ludmylla argumenta que combater desigualdades, acolher minorias e defender quem está em situação de vulnerabilidade faz parte do próprio ensinamento cristão. Na visão dela, o problema começou quando a política de costumes passou a dominar o debate nas igrejas e quando lideranças religiosas passaram a falar aos fiéis a partir de um lugar de medo e preconceito. Ela diz que houve um afastamento progressivo de setores progressistas em relação à base religiosa, o que abriu espaço para narrativas distorcidas sobre o PT. “Nós fomos nos afastando e deixando que contassem mentiras pros nossos irmãos”, afirma. Em outro momento, reforça que o voto evangélico hoje está muito mais preso a pautas morais do que a questões econômicas. “Totalmente”, responde, sem hesitar.
Ludmylla também é dura ao tratar do bolsonarismo dentro das igrejas. Na avaliação dela, o movimento político fez mal à comunidade evangélica ao transformar a fé em ferramenta de radicalização. “Sem o bolsonarismo, ele foi um desserviço pra igreja evangélica”, diz. Para sustentar a crítica, ela cita o impacto das narrativas que circularam nos últimos anos, como a de que Lula fecharia igrejas ou perseguiria cristãos. Segundo a liderança, o tempo desmontou esse tipo de discurso. “Quatro anos se passaram, nada disso aconteceu”, resume. Para ela, esse é justamente o ponto de virada: combater mentira com verdade, sem transformar o debate religioso em trincheira partidária.
No fim, a disputa pelo eleitor evangélico em Goiás revela menos uma briga pontual de campanha e mais uma batalha prolongada por narrativa, confiança e influência. O PT tenta se reposicionar, lideranças religiosas progressistas tentam abrir brechas no discurso dominante e analistas mostram que o voto evangélico está longe de ser um bloco uniforme. Entre púlpitos, partidos e identidades religiosas, o que está em jogo não é só a eleição de 2026, mas o tamanho da brecha que cada lado conseguirá abrir dentro de um dos segmentos mais disputados da política goiana.