Esporotricose avança no Brasil e acende alerta para transmissão entre gatos e humanos
A esporotricose é causada por fungos do gênero Sporothrix e afeta principalmente gatos
O aumento dos casos de esporotricose em diferentes municípios de São Paulo acendeu um sinal de alerta entre autoridades de saúde e especialistas. Em maio, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo reforçou a necessidade de prevenção e vigilância diante do crescimento dos registros da doença, considerada uma zoonose que pode ser transmitida entre animais e seres humanos.
Dados consolidados pela Superintendência de Vigilância em Saúde (SUVISA) mostram um avanço expressivo dos casos de esporotricose humana em Goiás nos últimos anos. Em 2023, o estado registrou três casos confirmados da doença. O número saltou para 69 em 2024 e chegou a 77 registros em 2025.
De acordo com o levantamento, a maior concentração de casos foi registrada em Planaltina de Goiás. Na sequência aparecem os municípios de Goiânia, Anápolis, Aparecida de Goiânia, Itumbiara, Abadia de Goiás, Cristalina, Jataí, Posse e São João da Aliança.
Segundo a médica veterinária, Amanda Cardoso, a esporotricose é causada por fungos do gênero Sporothrix e afeta principalmente gatos, que são os principais responsáveis pela disseminação do microrganismo. “O contágio ocorre, principalmente, por meio de arranhões, mordidas ou pelo contato direto com feridas de animais infectados, tornando o cuidado com pets doentes fundamental para evitar novos casos”, afirma.
Embora também possa atingir cães e pessoas, os felinos são os mais vulneráveis à infecção e desempenham papel central na transmissão da doença. Nos animais, a esporotricose costuma provocar lesões na pele que podem evoluir para feridas profundas e de difícil cicatrização se não houver tratamento adequado.
Desde que surgiu no Brasil, na década de 1990, a doença já provocou a morte de milhares de gatos e infectou mais de 11 mil pessoas, além de pelo menos 200 cães em países da América do Sul. O fungo já se espalhou para Paraguai, Argentina, Chile e, mais recentemente, Uruguai, demonstrando a capacidade de expansão da enfermidade pela região.
O avanço da espécie Sporothrix brasiliensis também preocupa pesquisadores internacionais. Durante a conferência ASM Microbe, realizada em junho, em Washington, o micologista médico Shawn Lockhart, consultor sênior dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, classificou o cenário brasileiro como um dos maiores surtos registrados. “O que temos agora é um surto gigantesco e contínuo de Sporothrix brasiliensis no Brasil”, afirmou o especialista durante o evento.
Segundo Lockhart, existe o risco de o fungo alcançar outros continentes por meio do transporte de animais infectados. Cidades com grandes populações de gatos de rua, como Istambul e Bangkok, além de áreas rurais dos Estados Unidos com muitos gatos de fazenda, estão entre os locais que despertam maior preocupação.
“Basta um viajante da América do Sul trazer seu gato consigo para que o fungo surja em qualquer lugar. Isso é algo que nos preocupa muito”, alertou.
Especialistas reforçam que, ao identificar feridas persistentes, secreções ou lesões na pele de gatos, os tutores devem procurar atendimento veterinário e evitar o contato direto com as lesões sem proteção. O uso de luvas ao manusear animais suspeitos e a busca por diagnóstico precoce são medidas importantes para reduzir a transmissão.
Apesar do aumento dos casos, a esporotricose tem tratamento tanto para animais quanto para seres humanos. O diagnóstico precoce e o acompanhamento adequado são considerados essenciais para controlar a doença e impedir sua disseminação.
Especialista alerta para alta capacidade de transmissão
A esporotricose costuma se manifestar de forma mais evidente nos gatos, que desenvolvem feridas persistentes, nódulos e secreções, principalmente na cabeça, nas patas e na cauda. Sem tratamento adequado com medicamentos antifúngicos, a infecção pode avançar para o sistema respiratório e atingir outros órgãos, comprometendo gravemente a saúde do animal.

Em seres humanos, os primeiros sinais costumam ser feridas na pele, mas, em pessoas com o sistema imunológico comprometido, a infecção pode evoluir para formas mais graves e, em casos raros, levar à morte.
Um dos desafios no controle da doença é o tempo que os sintomas podem levar para aparecer. Em 2022, autoridades sanitárias relataram o caso de dois integrantes de uma mesma família que desenvolveram esporotricose três anos após deixarem o Brasil e se mudarem para o Reino Unido. O fungo foi identificado em um dos gatos da família, e até mesmo o veterinário responsável pelo atendimento acabou infectado.
O fungo causador da doença é dimórfico, ou seja, consegue assumir diferentes formas conforme o ambiente. Em temperaturas mais baixas, desenvolve-se como um bolor, formando filamentos microscópicos chamados hifas. Já quando infecta animais ou seres humanos, transforma-se em uma levedura, forma que facilita sua permanência no organismo.
Para a veterinária o comportamento dos gatos favorece a rápida disseminação da doença. “Quem tem gato sabe que eles fazem duas coisas: demonstram carinho uns pelos outros, se lambem e se acariciam, ou brigam, mordem e arranham. Essas são as duas atividades mais frequentes, e ambas permitem a transmissão do Sporothrix brasiliensis de um para o outro”, explica.
Além do contato direto entre os animais, o fungo também consegue sobreviver por longos períodos no ambiente. O muco eliminado pelo nariz de gatos infectados pode contaminar superfícies, mantendo o risco de transmissão mesmo após a saída do animal.
Testes laboratoriais mostraram que o Sporothrix brasiliensis permaneceu viável por até dez semanas em superfícies de aço inoxidável, utilizadas para simular mesas de atendimento veterinário. A resistência é superior à observada em outros fungos conhecidos, aumentando a preocupação com a contaminação de clínicas e hospitais veterinários.
Apesar da elevada capacidade de sobrevivência, especialistas destacam que o fungo pode ser eliminado com procedimentos adequados de limpeza. Produtos de uso comum, como água sanitária e álcool, são eficazes na desinfecção de superfícies e ajudam a reduzir o risco de transmissão.
Prevenção
A veterinária reforça que a prevenção da esporotricose passa por cuidados simples, como manter os gatos dentro de casa, castrá-los e evitar o contato com animais infectados. Ao identificar feridas ou outros sinais suspeitos, a recomendação é procurar atendimento veterinário e não recorrer a tratamentos caseiros, que podem agravar a doença.
Durante o manejo de animais doentes, é importante utilizar luvas e evitar o contato com outros pets. Em caso de mordidas, arranhões ou contato com lesões de um animal possivelmente infectado, a orientação é buscar atendimento médico. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para conter a transmissão da doença.