Foco em jogo: atenção pesa tanto quanto conteúdo no Enem
Especialista alerta que excesso de telas, ansiedade e pressão familiar podem comprometer foco de estudantes na preparação para o exame
Com as inscrições do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026 encerradas, a expectativa do Ministério da Educação é que o exame reúna mais de 4,5 milhões de participantes. Para estudantes que buscam uma vaga no Ensino Superior, especialmente os que estão no último ano do ensino médio, a preparação já não se limita à revisão de conteúdos. A saúde mental também passou a ocupar lugar central na rotina de estudos.
Um dos pontos de atenção é o chamado Attention Span, termo em inglês que pode ser traduzido como “limiar de atenção”. O conceito se refere ao tempo em que uma pessoa consegue manter o foco em uma única tarefa antes de se distrair. Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Aparecida Tavares, especialista em saúde mental que atende no Órion Complex, em Goiânia, essa capacidade está diretamente ligada à aprendizagem, à memória e à tomada de decisões.
A dificuldade de concentração entre adolescentes tem sido associada, entre outros fatores, ao uso excessivo de telas. Um artigo publicado pelo Hospital Israelita Albert Einstein aponta que jovens com alto tempo de exposição a dispositivos digitais podem apresentar prejuízos na capacidade de aprendizagem. O problema se agrava com redes sociais de rolagem infinita e aplicativos marcados por estímulos rápidos, que acionam os circuitos de recompensa do cérebro e tornam mais difícil manter atenção em atividades lentas e complexas, como leitura, interpretação de texto e resolução de questões.
“Um exemplo típico no nosso dia a dia é o excesso de notificações no celular. Esse ambiente digital das redes sociais nos submete a inúmeras multitarefas ao longo do dia. Isso ocasiona em muitas pessoas a síndrome do pensamento acelerado, que é uma das consequências deste nosso estilo de vida, em que temos menos tempo para o descanso e para a concentração adequada”, afirma a especialista.
Aparecida cita ainda estudo de Psicologia Educacional, realizado em 2024, que aponta queda significativa na atenção sustentada entre estudantes expostos a multitarefas digitais. Em avaliações longas, como o Enem, essa redução pode aumentar erros por distração e dificultar a resolução de problemas mais complexos.
Ansiedade também interfere
Além das telas, a ansiedade é outro fator que pode prejudicar o rendimento. A especialista explica que algum nível de preocupação é esperado, sobretudo diante de uma prova que influencia escolhas profissionais. O alerta surge quando a ansiedade passa a comprometer sono, concentração e rotina de estudos.
“Existem vários estudos internacionais que reforçam a ansiedade e a pressão familiar como geradores da Attention Span, elevando, portanto, a possibilidade de erros por distração e redução da eficiência na resolução de problemas, inclusive os mais complexos”, explica a especialista.
Para melhorar o foco, Aparecida afirma que não há solução única. Ela alerta para o uso de estimulantes sem necessidade real e reforça que mudanças de hábito costumam ser mais eficazes. Dormir cedo, manter horários regulares, evitar telas no ambiente de estudo, reduzir o uso do celular à noite, praticar atividade física e manter uma alimentação equilibrada são medidas que ajudam na memória e na atenção.
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Técnicas de estudo, como a Pomodoro, também podem auxiliar. O método intercala períodos de foco com pequenas pausas, o que favorece a concentração sem sobrecarregar o estudante. Momentos de lazer, por sua vez, não devem ser tratados como perda de tempo, já que ajudam a reduzir a pressão e recuperar energia mental.
“Sempre que perceber que a ansiedade está chegando a um nível preocupante, uma sugestão é buscar uma boa conversa com familiares a fim de minimizar as cobranças ou a própria auto cobrança, que muitas vezes é até mais pesada. Por fim, caso não consiga fazer esse gerenciamento saudável do seu tempo, da ansiedade e dos conflitos internos e externos, procure intervenção especializada com um psicoterapeuta e/ou orientação escolar e parental”, afirma Aparecida Tavares.