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STF suspende multas da NR-1 e debate do fim da escala 6×1 acelera mudanças na gestão de pessoas

Decisão do Supremo concede prazo de 90 dias sem aplicação de penalidades relacionadas aos riscos psicossociais no trabalho

Anna Salgadopor em
STF suspende multas da NR-1 e debate do fim da escala 6×1 acelera mudanças na gestão de pessoas
Legenda: Mesmo com a suspensão temporária das sanções pela Corte, especialistas avaliam que a nova NR-1 e a discussão sobre a jornada de trabalho Foto: Marcello Casal Jr./ABr

A entrada em vigor da nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) e o debate sobre o fim da escala 6×1 têm provocado mudanças na forma como as empresas brasileiras encaram a gestão de pessoas, a saúde mental e a produtividade. Na última semana, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, concedeu liminar suspendendo, por 90 dias, a aplicação de multas e demais sanções previstas na norma relacionadas aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

A decisão foi tomada em ação apresentada pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), sob o entendimento de que os dispositivos da NR-1 ainda necessitam de critérios objetivos para embasar medidas de caráter coercitivo. A Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), que solicitou ingresso na ação como amicus curiae, informou que a medida beneficia empresas de todos os setores da economia.

Apesar da suspensão das penalidades, as empresas continuam obrigadas a identificar, avaliar e gerenciar os riscos psicossociais previstos na norma. Nesse período, a fiscalização terá caráter prioritariamente orientativo, enquanto governo e entidades representativas discutem ajustes na regulamentação.

Mudança na cultura das empresas

Especialistas avaliam que as novas exigências indicam uma transição do modelo baseado no desgaste humano para um sistema voltado à sustentabilidade da performance. Para o consultor em gestão e desenvolvimento humano Rubens Berredo, grande parte das empresas ainda opera sob uma lógica que valoriza profissionais submetidos a elevados níveis de pressão e desgaste físico e mental.

“Estamos saindo de um modelo de trabalho baseado no desgaste humano para um modelo de sustentabilidade de performance, baseado em produtividade, previsibilidade e inteligência de execução”, afirma.

Segundo Berredo, a cultura que valorizava o excesso de trabalho e os chamados workaholics está sendo substituída por um cenário em que eficiência sustentável e equilíbrio entre vida pessoal e profissional ganham protagonismo. Na avaliação do consultor, empresas que compreenderem essa mudança poderão se adaptar mais rapidamente às novas exigências do mercado e da legislação.

Saúde mental passa a integrar gestão de riscos

A atualização da NR-1 estabelece diretrizes obrigatórias para empresas com empregados contratados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Entre as mudanças está a inclusão de riscos psicossociais, como estresse, burnout, assédio e violência no ambiente de trabalho, no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Na prática, as empresas devem identificar fatores de risco relacionados à saúde emocional dos trabalhadores, avaliar o grau de exposição e adotar medidas de prevenção ao adoecimento mental. Diante desse cenário, Berredo recomenda a revisão das estruturas operacionais e a criação de políticas claras de saúde mental, destacando que propósito e ambiente de trabalho se tornaram fatores decisivos para as novas gerações.

Fim da escala 6×1 amplia debate

Paralelamente, o Senado analisa propostas que podem extinguir a escala 6×1, substituindo-a por modelos como o 5×2 ou o 4×3, sem redução salarial. Segundo Berredo, uma eventual alteração na jornada poderá gerar desafios operacionais, principalmente para empresas que possuem limitações para ampliar o quadro de funcionários.

“Será necessário que o empresário faça primeiro uma lista de prioridades, eliminando atividades e reuniões desnecessárias, retrabalho e processos lentos”, afirma.

De acordo com o consultor, o objetivo é elevar a produtividade em jornadas menores sem ampliar a sobrecarga dos trabalhadores. Com experiência em treinamentos realizados para mais de 40 mil pessoas e atuação em cerca de 350 empresas, Berredo afirma que a implementação das novas políticas dependerá diretamente da preparação das lideranças.

Redução de afastamentos

O psicólogo Flávio Ribeiro avalia que o fortalecimento das medidas preventivas dentro das empresas pode contribuir para reduzir os custos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) com afastamentos decorrentes de transtornos mentais. Conforme o especialista, ambientes de trabalho mais saudáveis também tendem a reduzir o absenteísmo, a rotatividade de funcionários e os conflitos internos.

Em Goiás, o Conselho Regional de Psicologia de Goiás (CRP-09) tem atuado no esclarecimento das mudanças promovidas pela NR-1. A presidente da entidade, Jéssica Amorim, avalia que a atualização representa um avanço no reconhecimento de que o ambiente de trabalho pode provocar adoecimento emocional. Já a presidente da Comissão de Psicologia Organizacional do conselho, Michelle Branquinho, informou que a implantação da nova norma no próprio CRP-09 teve início em maio.

 

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