sexta-feira, 3 de julho de 2026
Saúde

Estudo revela como o cigarro desencadeia inflamação que aumenta o risco de infarto e AVC

A fumaça do cigarro provoca alterações no funcionamento dos neutrófilos

Leticia Mariellepor Leticia Marielle em 3 de julho de 2026
Cigarro
Estudo revela como o cigarro desencadeia inflamação que aumenta o risco de infarto e AVC. | Foto: Reprodução/Freepik

Os efeitos do cigarro sobre a saúde cardiovascular são conhecidos há décadas, mas um novo estudo trouxe evidências sobre o mecanismo biológico que ajuda a explicar por que o tabagismo aumenta o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC). A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, e publicada em 10 de junho na revista científica Circulation Research.

Segundo os pesquisadores, a fumaça do cigarro provoca alterações no funcionamento dos neutrófilos, células de defesa que representam a maior parte dos glóbulos brancos do organismo e atuam na resposta inicial contra infecções. Em vez de desempenharem apenas sua função protetora, essas células passam a contribuir para um processo inflamatório que compromete a saúde das artérias.

Os experimentos foram realizados em camundongos com aterosclerose, doença caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura nos vasos sanguíneos. Os resultados mostraram que as substâncias presentes na fumaça estimulam um aumento rápido no número de neutrófilos, que deixam os pulmões e migram para a circulação.

Nos vasos sanguíneos, essas células entram em contato com os macrófagos, outro tipo de célula do sistema imunológico responsável por eliminar resíduos celulares e remover colesterol acumulado nas paredes das artérias. Essa interação leva à morte dos neutrófilos e à liberação de proteínas inflamatórias, principalmente as interleucinas IL-1α e IL-1β.

O excesso dessas substâncias prejudica o trabalho dos macrófagos, reduzindo sua capacidade de limpar as artérias. Com isso, aumenta o acúmulo de placas e a instabilidade dessas estruturas, favorecendo a formação de coágulos que podem bloquear o fluxo sanguíneo e provocar infartos ou AVCs. De acordo com os autores, fatores de risco como a hipertensão arterial tornam esse processo ainda mais perigoso.

Para o professor de medicina da Universidade de Oklahoma e autor sênior do estudo, Prabhakara Nagareddy, o tabagismo modifica profundamente a resposta do sistema imunológico. Em comunicado, ele afirma que o cigarro “reprograma” essas células de defesa, que deixam de exercer apenas um papel protetor e passam a alimentar uma inflamação crônica nas artérias, criando um ambiente favorável ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Os pesquisadores avaliam que a descoberta amplia a compreensão sobre os efeitos do tabagismo no organismo e pode abrir caminho para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares associadas ao cigarro.

Os pesquisadores também identificaram um resultado considerado relevante durante os experimentos. A resposta inflamatória foi desencadeada mesmo quando os compostos químicos do cigarro foram administrados por via oral, sem a necessidade de exposição à fumaça por inalação.

De acordo com o professor Prabhakara Nagareddy, esse achado indica que as substâncias presentes no tabaco podem ativar diretamente as células do sistema imunológico após serem absorvidas pelo organismo. A descoberta reforça a hipótese de que os efeitos do cigarro sobre o sistema cardiovascular não se limitam aos danos provocados nos pulmões, mas podem ocorrer por diferentes mecanismos biológicos.

Apesar dos avanços, os autores destacam que a forma mais eficaz de prevenir esses prejuízos continua sendo evitar o tabagismo ou interromper o consumo de cigarros. Ao mesmo tempo, compreender como a inflamação crônica se desenvolve nas artérias pode contribuir para a criação de novas estratégias terapêuticas capazes de reduzir os danos cardiovasculares associados ao tabaco.

O próximo passo da pesquisa será identificar quais dos mais de 7 mil compostos químicos presentes na fumaça do cigarro são responsáveis por desencadear essa resposta inflamatória. Segundo o autor principal do estudo, Dipanjan Chattopadhyay, a equipe também pretende avaliar se outros produtos que fornecem nicotina, como cigarros eletrônicos e sachês de nicotina, provocam alterações semelhantes nos neutrófilos.

Além disso, os pesquisadores planejam realizar estudos em humanos para verificar se o mecanismo observado nos experimentos laboratoriais também ocorre no organismo e confirmar os resultados obtidos até o momento.

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